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Entre canetas emagrecedoras e bariátrica: o que define o melhor tratamento para a obesidade

Entre canetas emagrecedoras e bariátrica: o que define o melhor tratamento para a obesidade
Rafaela Araújo/Folhapress

O cenário do tratamento da obesidade no Brasil vive uma transformação significativa. Com a popularização das chamadas “canetas emagrecedoras” — medicamentos baseados em análogos de GLP-1, como a semaglutida — muitos pacientes passaram a ver no tratamento medicamentoso uma alternativa à cirurgia bariátrica. No entanto, especialistas alertam que a escolha entre o fármaco e o procedimento cirúrgico não é apenas uma questão de preferência, mas de indicação clínica precisa, especialmente para casos de obesidade grave.

A busca pelo método definitivo

A biomédica Vitória Masiero, 23, ilustra bem esse dilema. Após perder 20 quilos com o uso de semaglutida, ela se viu obrigada a interromper o tratamento devido ao alto custo mensal, que girava em torno de R$ 800. A interrupção resultou no reganho de peso, levando-a a optar pela cirurgia bariátrica. “Comecei a usar a caneta porque achei que poderia me livrar da cirurgia, mas percebi que o meu caso era mesmo de bariátrica”, relata.

Para pacientes como Vitória, a cirurgia oferece uma solução metabólica que, embora exija acompanhamento nutricional e suplementação constante, apresenta resultados mais sustentáveis a longo prazo para quadros severos. A percepção de que o medicamento poderia substituir o bisturi ganhou força por volta de 2024, mas a prática clínica tem mostrado que a eficácia depende do perfil do paciente e da capacidade de manutenção do tratamento.

Oscilações no setor privado e recordes no SUS

Os dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) refletem essa mudança de comportamento. Após um pico de 73,6 mil cirurgias em 2023, o número de procedimentos realizados por planos de saúde caiu para 71,3 mil em 2024 e 62,2 mil em 2025. Segundo o cirurgião Luiz Vicente Berti, da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM), essa queda é multifatorial: envolve tanto a adesão às canetas quanto a perda de poder aquisitivo dos beneficiários, que migraram para planos de saúde com coberturas mais restritas.

Em contrapartida, o Sistema Único de Saúde (SUS) registrou um recorde em 2025, com 14 mil cirurgias realizadas. O crescimento contínuo desde o fim da pandemia ocorre porque, na rede pública, a bariátrica permanece como o principal tratamento para a obesidade grave, uma vez que as canetas emagrecedoras não foram incorporadas ao rol de medicamentos do sistema. A indicação no SUS segue critérios rigorosos, focados em pacientes com IMC igual ou superior a 40, ou acima de 35 com comorbidades associadas, como diabetes e hipertensão.

Critérios clínicos e a importância da individualização

Para o cirurgião Denis Pajecki, coordenador do Departamento de Cirurgia Bariátrica da Abeso, é fundamental distinguir as finalidades de cada abordagem. “As canetas são uma medicação para tratar a obesidade, e a cirurgia bariátrica é um procedimento para tratar, principalmente, o que a gente denomina de obesidade grave”, explica. O especialista reforça que, embora as canetas sejam eficazes, muitos pacientes chegam ao consultório cirúrgico justamente após frustrações com o tratamento medicamentoso, seja pela falta de perda de peso esperada ou pelo efeito rebote após a suspensão.

Apesar do aumento no número de cirurgias no SUS, o desafio do acesso persiste. A fila de espera, muitas vezes invisível nos dados oficiais, reflete a dificuldade de encaminhamento da atenção básica para os centros especializados. Com cerca de 25,7% da população brasileira enfrentando algum grau de obesidade, conforme dados do Ministério da Saúde, o debate atual reforça que o tratamento deve ser personalizado, respeitando as limitações financeiras e a gravidade clínica de cada indivíduo.

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