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Tragédia na Brasilândia: mulher que salvou netos em deslizamento anterior morre em nova tempestade

Tragédia na Brasilândia: mulher que salvou netos em deslizamento anterior morre em nova tempestade
Foto: Reprodução

A Zona Norte de São Paulo foi palco de uma tragédia que expõe a vulnerabilidade de milhares de famílias em áreas de risco. Rosa Fidelis Gaspar, de 47 anos, perdeu a vida em um deslizamento de terra na Brasilândia, durante o forte temporal que atingiu a capital paulista na quarta-feira, 14 de outubro de 2026. O caso ganha contornos ainda mais dramáticos ao revelar que Rosa já havia sobrevivido a um desastre similar na mesma região, há cerca de oito anos, quando sua ação heroica salvou a vida de dois de seus netos recém-nascidos.

A história de Rosa é um retrato da resiliência e, ao mesmo tempo, da impotência diante das condições precárias de moradia. Segundo o filho, Luiz da Paz Pereira Santos Neto, no primeiro deslizamento, ela ouviu um barulho, agiu rapidamente para pegar os netos e sair da casa momentos antes de a terra ceder. “Foi um livramento na época. Na época, ela salvou os dois netos”, relembrou Luiz, que havia comprado o terreno para a mãe e morava ao lado dela, mantendo uma relação de grande proximidade.

A Luta por Sobrevivência e a Tragédia Repetida

Após o primeiro incidente, a família de Rosa se uniu em um esforço para reconstruir o lar. Com recursos limitados, eles limparam o terreno e ergueram novamente a moradia na encosta, na Rua Santa Cruz do Monte Castelo, no Jardim Paraná. A persistência em permanecer na área, apesar dos riscos conhecidos, reflete a dura realidade de muitas famílias brasileiras que não possuem alternativas financeiras para se mudar para locais mais seguros.

Desta vez, contudo, a história teve um desfecho fatal. Rosa, que havia completado 47 anos apenas nove dias antes, em 5 de outubro, estava com o joelho machucado e caminhava com dificuldade. Quando a terra cedeu novamente, arrastando a casa, ela não conseguiu escapar. O marido, ao saber do desabamento, correu para o local e encontrou vizinhos já tentando resgatá-la da lama e dos escombros. O Corpo de Bombeiros foi acionado e prestou os primeiros socorros, mas Rosa não resistiu aos ferimentos.

Brasilândia: Um Cenário de Risco Conhecido

A região da Brasilândia, onde Rosa vivia, é classificada há anos pela Prefeitura de São Paulo como uma área de risco geológico. Essa classificação indica a alta probabilidade de ocorrência de desastres naturais, como deslizamentos e inundações, devido às características do solo e à ocupação irregular das encostas. A falta de resposta da administração municipal sobre quais medidas haviam sido adotadas no local, até a última atualização da reportagem, levanta questionamentos sobre a eficácia das políticas públicas de prevenção e moradia.

A morte de Rosa Fidelis Gaspar é a quinta provocada pelas chuvas na capital paulista somente em 2026, evidenciando um padrão preocupante de desastres que se repetem a cada temporada de chuvas intensas. A vulnerabilidade social e a precariedade habitacional se somam aos desafios impostos pelas mudanças climáticas, que trazem eventos meteorológicos cada vez mais extremos.

Temporal Revela Fragilidades Urbanas em São Paulo

O temporal que vitimou Rosa deixou um rastro de destruição e caos em toda a cidade de São Paulo. Em cerca de uma hora e meia de chuva intensa, granizo e ventos fortes, a metrópole enfrentou uma série de incidentes que paralisaram o cotidiano. Ruas alagadas, carros submersos no Túnel do Anhangabaú, no Centro, e na Avenida 23 de Maio, quedas de árvores e transtornos no transporte público e aéreo foram alguns dos reflexos da tempestade.

No Túnel do Anhangabaú, 26 carros e dois ônibus ficaram completamente submersos, e quatro pessoas precisaram ser resgatadas pelos bombeiros. Apesar de as seis bombas do local terem funcionado, elas não foram suficientes para escoar os 42 milímetros de chuva registrados em apenas 40 minutos. O Parque Ibirapuera também sofreu com o transbordamento do lago, que derrubou uma grade e alagou vias internas, após registrar 97 milímetros de chuva em menos de uma hora. O prefeito Ricardo Nunes (MDB) destacou a intensidade do fenômeno, afirmando que choveu “40%, em poucos minutos, do que era para chover o mês inteiro”.

A Dor da Perda e o Apelo por Moradia Segura

Rosa deixa três filhos e quatro netos, incluindo uma criança de apenas um ano e meio. A filha, Ritiene Fidelis, descreveu a mãe como uma mulher guerreira, generosa e o pilar da família. “Minha mãe era uma pessoa… ela era tudo, era mãe, amiga, tudo”, lamentou Ritiene, que também expressou a angústia da família em não ter condições financeiras para deixar a área de risco. “Se ela tivesse assim, um dinheiro, dava para a gente sair”, desabafou.

Cozinheira de profissão e conhecida pela disposição em ajudar o próximo, Rosa era, nas palavras da filha, alguém de “coração gigante”. Sua morte, registrada no 72º Distrito Policial (DP) na Vila Penteado, com perícia requisitada pela polícia, ressalta a urgência de políticas habitacionais e de prevenção de desastres que ofereçam segurança e dignidade às populações mais vulneráveis. A história de Rosa Fidelis Gaspar é um lembrete doloroso de que, para muitos, a casa que deveria ser um refúgio se torna um perigo iminente.

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