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Tirana, capital albanesa, ressurge com força no turismo e gastronomia após ditadura

Figurniy Sergey / Adobe Stock
Figurniy Sergey / Adobe Stock

Tirana, a vibrante capital da Albânia, emerge como um destino europeu fascinante, revelando uma transformação notável após décadas de isolamento sob um regime comunista. O que antes era uma cidade fechada ao mundo, hoje pulsa com uma energia contagiante, visível nas ruas movimentadas até altas horas da noite. Em uma terça-feira, por volta das 23h, bares e restaurantes estão repletos, evidenciando uma efervescência cultural e social que surpreende os visitantes. Esta vitalidade recém-descoberta posiciona Tirana em um ponto único: um local onde a modernidade e a tradição se encontram, ainda intocado pelo turismo de massa que já descaracterizou muitas outras capitais do continente.

O Renascimento Gastronômico e a Liberdade à Mesa

A eclosão de novos estabelecimentos gastronômicos é um dos pilares dessa renovação. O chef Ndoc Shtjefni, à frente do restaurante N’Tinga, inaugurado há menos de um ano, exemplifica essa nova fase. Sua cozinha, especializada em massas frescas com frutos do mar, não é apenas uma proposta culinária, mas um reflexo das mudanças profundas que o país atravessa. Shtjefni relata que “dez anos atrás não existia nada disso”, sublinhando a velocidade da transformação.

Durante os mais de 40 anos de ditadura comunista, que se estendeu até o início dos anos 1990, a Albânia vivenciou um período de severas restrições. A prioridade do regime era a agricultura e a pecuária para a produção em massa de alimentos básicos tabelados, resultando em uma drástica falta de diversidade alimentar. Frutos do mar frescos, por exemplo, eram considerados artigos de luxo, associados à Itália e à Grécia, países vistos como inimigos ideológicos e refúgios para exilados albaneses. O isolamento imposto pelo governo era tão rigoroso que até barcos de pesca tinham seu uso restrito ou proibido, temendo que servissem como rotas de fuga. Consequentemente, a população não apenas era privada de consumir peixes, como também era impedida de frequentar as praias do próprio país.

Com a abertura econômica e o acesso a ingredientes antes inacessíveis, chefs como Shtjefni celebram a liberdade de criar. Ele se orgulha de servir um cappelletti de tinta de lula recheado com o próprio molusco e ricota, finalizado com um molho agridoce de laranja, uma iguaria que custa o equivalente a R$ 47. Para ele, é uma forma de resgatar hábitos alimentares pré-ditadura e, ao mesmo tempo, homenagear a forte influência cultural da vizinha Itália.

Essa valorização da culinária local se estende a outros estabelecimentos, como o Mullixhiu, situado às margens do lago artificial do Grande Parque. O chef e proprietário Bledar Kola foca em ingredientes locais e preparações típicas albanesas. Seu menu degustação, que sai por cerca de R$ 180, inclui a truta cozida com ervas e vinho kallmet – uma variedade de uva nativa – além de clássicos como a ali pasha, uma sopa com almôndegas de carne, arroz e ervas, e o qifqi, um bolinho de arroz com ovos. Kola faz questão de recomendar vinhos da casa, sempre rótulos albaneses, que variam conforme a estação e sua inspiração.

A Ascensão dos Vinhos Albaneses e Marcas da História

O ressurgimento da gastronomia albanesa caminha lado a lado com o crescimento da viticultura local, que vem superando o preconceito da própria população. Muharrem Çobo, um dos proprietários da vinícola que leva seu sobrenome e do restaurante Shendeverë, destaca a mudança: “Antigamente, só se achava que os vinhos italianos eram bons. Hoje mudamos essa imagem”. Seus rótulos, que variam entre R$ 120 e R$ 1.680, são vendidos em seu restaurante, localizado dentro do histórico Castelo de Tirana, uma construção remanescente da era bizantina e uma das atrações mais emblemáticas da capital.

A partir do castelo, é fácil explorar outros marcos da cidade, como a icônica Praça Skanderbeg e o museu Bunk’Art 2. A praça, batizada em 1968 em homenagem ao herói nacional albanês Skanderbeg, que liderou uma rebelião contra o Império Otomano no século XV, é um testemunho das políticas nacionalistas do regime. Um dos prédios que a cercam exibe uma fachada com o rosto de Skanderbeg, reforçando essa memória histórica. Já o Bunk’Art 2, instalado em um dos milhares de bunkers construídos durante a ditadura, oferece uma imersão na história desse período sombrio do país, servindo como um poderoso lembrete do passado.

Blloku: De Reduto Político a Coração Boêmio

Poucos lugares em Tirana ilustram tão bem as transformações da cidade quanto o bairro de Blloku. Outrora uma área residencial restrita exclusivamente aos membros da elite do partido comunista – onde cidadãos comuns eram proibidos de circular –, Blloku se reinventou completamente nas últimas décadas. Com a abertura do país e as mudanças governamentais, a região nobre se transformou no principal polo de vida noturna da cidade, abrigando alguns dos bares mais badalados, como o Nouvelle Vague e o Spy Speakeasy.

Sofokli Cali, um dos sócios do Nouvelle Vague, personifica essa nova geração que está moldando a Tirana contemporânea. Filho de exilados do regime, Cali nasceu na Grécia e retornou ao seu país de origem para abrir um bar de drinques autorais, utilizando ingredientes tradicionais albaneses. O raki, um destilado de uvas, e um vinho fortificado feito com uvas kallmet – as mesmas empregadas na cozinha do Mullixhiu – são a base de sua versão do negroni, o Deviated Negroni, que custa R$ 54. A poucas quadras dali, o Spy Speakeasy, com sua atmosfera secreta e exigência de alguns minutos de espera antes de revelar a entrada para o subsolo, dedica-se aos clássicos da coquetelaria. Antes de encerrar a noite, uma visita ao Oda Garden, onde a música folclórica ao vivo acompanha uma seleção de pratos típicos, oferece uma experiência cultural autêntica.

Desafios e o Futuro do Turismo em Tirana

Embora a ausência de um turismo massivo ainda preserve a originalidade e o charme de Tirana, a cidade enfrenta o desafio da falta de museus e outras atrações para quem planeja estadias mais longas. Em maio, por exemplo, a Galeria Nacional de Artes estava fechada para reforma, e o Museu Histórico Nacional tem sua reabertura prevista apenas para março de 2028. Essa lacuna, no entanto, pode ser vista como uma oportunidade para os visitantes explorarem a cidade de uma maneira mais autêntica, caminhando por seus bairros, descobrindo sua história viva e interagindo com a cultura local, em vez de seguir roteiros pré-determinados. A cidade convida à descoberta, oferecendo uma experiência genuína de um país em plena efervescência. Para mais informações sobre a Albânia, clique aqui.

A jornada de Tirana, de uma capital isolada a um vibrante centro cultural e gastronômico, é um testemunho da resiliência e da capacidade de reinvenção de seu povo. Para continuar acompanhando as transformações e as histórias que moldam o cenário global, regional e local, mantenha-se conectado ao M1 Metrópole. Nosso compromisso é trazer informação relevante, atual e contextualizada, garantindo que você esteja sempre por dentro dos fatos que realmente importam.

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