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O movimento da sobriedade consciente ganha força nas redes sociais brasileiras

O movimento da sobriedade consciente ganha força nas redes sociais brasileiras
Karime Xavier/Folhapress

A mudança de hábito além da dependência química

O hábito de consumir bebidas alcoólicas como sinônimo de lazer e socialização está sendo colocado sob uma nova lente. Nas redes sociais, um número crescente de pessoas tem compartilhado suas trajetórias de redução ou interrupção do consumo, não por um diagnóstico de dependência, mas em busca de mais qualidade de vida. Esse movimento, que ganha corpo no Brasil, foca na chamada sobriedade consciente, uma abordagem que questiona o papel do álcool no cotidiano e na interação social.

Anna Gouveia, 38, é uma das vozes que lideram essa discussão. Criadora da página Tem Gente Que Não Bebe, ela relata que a associação entre diversão e álcool foi construída ao longo de anos, desde o ensino médio. Foi apenas em 2023, aos 34 anos, que ela decidiu realizar uma pausa prolongada, transformando sua relação com a substância. Hoje, seu perfil conta com 145 mil seguidores, servindo como um espaço de troca para quem deseja explorar a vida sem o efeito das bebidas, fugindo do tom estritamente clínico ou moralista.

Contexto global e dados sobre o consumo

A tendência de reduzir o álcool reflete uma mudança de comportamento observada em escala global. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que o consumo mundial de álcool apresentou uma queda de aproximadamente 5% entre 2010 e 2019. O cenário foi acentuado pela pandemia de Covid-19, que registrou uma redução adicional de 10% em 2020, período em que muitos hábitos sociais foram interrompidos ou ressignificados.

No Brasil, o cenário acompanha a tendência. Uma pesquisa realizada pelo Datafolha em 2025 revelou que 51% da população brasileira afirmou não ingerir bebidas alcoólicas. Além disso, 53% dos entrevistados declararam ter reduzido o consumo no ano anterior. Esses números sugerem uma mudança cultural relevante, onde a escolha pela abstinência ou pela moderação deixa de ser um tabu e passa a ser uma decisão consciente de bem-estar.

A influência do movimento sober curious

O interesse pelo tema foi impulsionado pelo conceito de sober curious, ou “curiosidade pela sobriedade”, cunhado pela escritora britânica Ruby Warrington. Em sua obra, Warrington narra como o questionamento sobre os efeitos do álcool no corpo — como a ausência de indisposição após um fim de semana sóbrio — mudou sua perspectiva de vida. A autora defende que o foco no bem-estar pessoal deve guiar a relação com a bebida, incentivando as pessoas a testarem períodos de abstinência para observar os benefícios físicos e mentais.

Diferente do transtorno por uso de álcool, que é uma condição crônica caracterizada pela perda de controle e tolerância elevada à substância, a sobriedade consciente foca na autonomia. O Ministério da Saúde alerta, contudo, que o consumo é considerado abusivo quando atinge quatro ou mais doses para mulheres, e cinco ou mais para homens, em uma única ocasião. O movimento atual, portanto, atua como uma forma preventiva e de autocuidado, permitindo que o indivíduo reavalie seus limites antes que o consumo se torne um problema de saúde pública.

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