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Smartwatches: o potencial dos dados vestíveis para a saúde e seus limites atuais

Hiroko Masuike/The New York Times
Hiroko Masuike/The New York Times

Os smartwatches e outros dispositivos vestíveis (wearables) têm se consolidado como ferramentas cada vez mais presentes no cotidiano de milhões de pessoas, prometendo uma revolução no monitoramento da saúde pessoal. Com a capacidade de coletar uma vasta gama de dados – desde a contagem de passos e a frequência cardíaca até a qualidade do sono e as calorias gastas –, esses aparelhos são vistos por muitos como um caminho para que os indivíduos assumam um papel mais ativo em seu próprio bem-estar.

A visão de figuras públicas, como Robert F. Kennedy Jr., ex-secretário de saúde dos EUA, que os descreve como uma “peça-chave” para tornar a América mais saudável, reflete o otimismo em torno dessa tecnologia. Pesquisas recentes indicam que cerca de 40% dos americanos já utilizam algum tipo de dispositivo vestível, com maior adesão entre os mais jovens, saudáveis e preocupados com a forma física. Contudo, enquanto o entusiasmo cresce, a comunidade médica adota uma postura mais cautelosa, avaliando quais dessas métricas são, de fato, clinicamente úteis e em que contextos.

A ascensão dos dispositivos vestíveis na busca por bem-estar

A popularização dos smartwatches e outros wearables é inegável. Eles se tornaram acessórios comuns, integrados à rotina diária, oferecendo um fluxo constante de informações sobre o corpo. Essa profusão de dados, acessível na palma da mão ou no pulso, empodera os usuários a observar padrões, identificar anomalias e, teoricamente, tomar decisões mais informadas sobre seus hábitos de vida. A promessa é de uma saúde mais proativa, onde o monitoramento contínuo pode antecipar problemas e otimizar o desempenho físico.

Para muitos, a facilidade de acesso a essas informações é um diferencial. Não é raro que pacientes cheguem aos consultórios médicos munidos de capturas de tela de seus dispositivos, buscando interpretações para leituras que consideram confusas ou preocupantes. Essa interação, embora por vezes desafiadora para os profissionais de saúde, demonstra o impacto crescente da tecnologia na percepção individual sobre a própria saúde e a busca por respostas.

O olhar da medicina: entre o ceticismo e a utilidade clínica

Enquanto a indústria de tecnologia avança, a medicina tradicional ainda está em processo de adaptação e validação. Médicos como Zahi Fayad, diretor do Instituto de Engenharia Biomédica e Imagem do Hospital Mount Sinai, em Nova York, reconhecem o potencial dos dispositivos para monitorar pacientes remotamente e detectar sinais precoces de doenças. No entanto, ele ressalta que muitas das métricas fornecidas pelos wearables ainda não atingem os padrões médicos rigorosos, e há uma carência de dados robustos que comprovem uma melhoria direta nos resultados de saúde a longo prazo.

É fundamental diferenciar os dispositivos vestíveis de consumo daqueles de grau médico, como os monitores contínuos de glicose, que são prescritos e regulamentados. Para os smartwatches e similares, os profissionais de saúde tendem a focar em um número limitado de métricas que já demonstraram relevância clínica. Essa seletividade é crucial para evitar a sobrecarga de informações irrelevantes ou, pior, a interpretação equivocada de dados imprecisos que podem gerar ansiedade desnecessária nos pacientes.

Métricas confiáveis: o que os smartwatches fazem bem

Apesar das limitações, alguns dados coletados pelos smartwatches já se mostram bastante úteis e confiáveis. A detecção de **fibrilação atrial**, uma arritmia cardíaca potencialmente perigosa, é um exemplo notável. Um estudo com o Apple Watch, por exemplo, revelou que os alertas de pulso irregular do dispositivo correspondiam à fibrilação atrial em 84% das vezes, quando comparados a leituras de um eletrocardiograma de grau médico. Essa capacidade pode ser um diferencial na identificação precoce de condições que exigem intervenção médica, como aponta Erica Spatz, diretora do programa de saúde cardiovascular preventiva da Escola de Medicina de Yale.

Outras medições, como a **contagem de passos**, oferecem insights valiosos sobre o nível de atividade física ou sedentarismo do usuário. Estudos já associaram a meta de cerca de 7.000 passos por dia a uma redução significativa no risco de doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2 e demência. Além disso, os padrões básicos de sono – como o horário de dormir, de acordar e a duração total do sono – são igualmente importantes. Pesquisadores testaram três wearables populares e constataram que eles concordavam com um estudo do sono padrão-ouro em mais de 90% das vezes ao distinguir sono de vigília, conforme destacado por Cheri Mah, professora-adjunta no Centro de Medicina do Sono de Stanford. A consistência e a duração do sono são fatores cruciais para a saúde geral, e o monitoramento pode ajudar a identificar problemas.

Os desafios das medições: onde a tecnologia ainda precisa avançar

Nem todas as métricas dos smartwatches são igualmente precisas ou clinicamente relevantes. Erica Spatz adverte que medições como pressão arterial, oxigênio no sangue e os estágios específicos do sono (sono leve, profundo, REM) frequentemente não são aferidas com a exatidão necessária pelos dispositivos de consumo. Outras, como o **VO2 máximo** (capacidade máxima de oxigênio durante o exercício) e a **variabilidade da frequência cardíaca** (VFC), podem oferecer estimativas aproximadas de condicionamento físico e recuperação, mas ainda carecem de validação para serem usadas em decisões médicas concretas.

As chamadas “pontuações de bem-estar”, que agregam múltiplos dados em um número simples para indicar idade biológica, nível de estresse ou qualidade do sono, também geram ceticismo. Como explica Jag Singh, professor da Escola de Medicina de Harvard, cada empresa utiliza seus próprios algoritmos proprietários para calcular essas pontuações, o que impede os médicos de compreenderem o que elas realmente medem ou se correspondem a resultados de saúde tangíveis. Essa falta de padronização e transparência dificulta a integração dessas métricas na prática clínica.

Como usar seu smartwatch de forma inteligente para a saúde

Para tirar o melhor proveito dos smartwatches, especialistas como Zahi Fayad recomendam focar em **tendências de longo prazo** em vez de se prender a variações diárias. Uma mudança abrupta pode ser relevante se coincidir com sintomas específicos, como palpitações durante um pico de frequência cardíaca. No entanto, uma única leitura incomum é menos significativa do que uma alteração sustentada ao longo de semanas ou meses. A cautela também se aplica à comparação de dados com outras pessoas, pois métricas como VFC ou VO2 máximo variam amplamente entre indivíduos, mesmo com níveis de condicionamento físico semelhantes.

O verdadeiro valor de um smartwatch reside em sua capacidade de motivar mudanças de comportamento. Se o dispositivo estimula o usuário a aumentar a contagem de passos ou a perceber que o álcool afeta negativamente a frequência cardíaca em repouso, ele cumpre seu papel. Contudo, o uso compulsivo e a fixação em dados podem ser prejudiciais. Pesquisas recentes indicam que cerca de 30% das pessoas que monitoram o sono correm o risco de desenvolver **ortossonia**, uma preocupação não saudável com a perfeição do sono. Nesses casos, a sensação de bem-estar ao acordar, como sugere Ezekiel J. Emanuel, especialista em políticas de saúde da Universidade da Pensilvânia, é um guia mais confiável do que os números da tela. Se a ansiedade se torna um problema, a solução pode ser simplesmente parar de rastrear os dados ou usar o wearable apenas para propósitos específicos e de curto prazo, guardando-o depois de atingir o objetivo.

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