O cenário político de São Paulo foi abalado nesta semana com a prisão do vereador Senival Moura, figura conhecida na Câmara Municipal e com longa atuação no setor de transportes da capital. Detido na última quinta-feira (24) sob a grave acusação de lavagem de dinheiro para o Primeiro Comando da Capital (PCC), o parlamentar rapidamente solicitou seu afastamento do Partido dos Trabalhadores (PT), em um movimento que busca desvincular a sigla dos recentes acontecimentos e permitir que ele se dedique integralmente à sua defesa.
A notícia, confirmada pelo diretório municipal do PT em São Paulo, lança luz sobre uma complexa teia de investigações que conectam o vereador a um suposto esquema de movimentação financeira ilícita, utilizando uma empresa de ônibus como fachada. As apurações, que se estendem por anos, revelam detalhes de uma trama que envolve desde repasses informais de grandes somas até um suposto “tribunal do crime” da facção.
As acusações contra Senival Moura e a Operação Última Parada
A prisão de Senival Moura é o ápice da Operação Última Parada, deflagrada pela Polícia Civil e pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP). O inquérito aponta que a empresa Transunião Transportes S.A. teria sido instrumentalizada para ocultar patrimônio e movimentar recursos do PCC, com o vereador no centro do esquema. Mensagens interceptadas pelos investigadores indicam que movimentações financeiras informais e repasses semanais de R$ 70 mil, destinados a “acertar os cara”, dependiam da anuência ou intervenção prévia do parlamentar.
As investigações revelam que o esquema de lavagem de dinheiro envolvia um círculo de confiança do vereador, incluindo familiares como sua esposa, Maria de Lourdes Andrade de Moura, seus filhos Ítalo e Vitor Andrade de Moura, e seu irmão, Rubens Pereira de Moura. Além do núcleo familiar, assessores parlamentares como Adão Lino dos Santos e o motorista Devanil Sousa Nascimento, conhecido como “Sapo”, são apontados como peças operacionais cruciais para o controle de Senival sobre a empresa e suas subsidiárias.
Relatórios de inteligência financeira indicam que Senival Moura movimentou cerca de R$ 4,39 milhões entre 2019 e 2022, com uma diferença superior a R$ 2,4 milhões em relação aos rendimentos oficialmente declarados. A posse de imóveis de alto padrão, como um apartamento na Vila Madalena e uma propriedade rural em Extrema, Minas Gerais, também está sob escrutínio. Para mais informações sobre a atuação de facções criminosas no Brasil, consulte grandes portais de notícia.
O assassinato de Adauto Jorge e o suposto tribunal do crime
O ponto de partida para as investigações remonta a março de 2020, com o assassinato de Adauto Soares Jorge, ex-diretor financeiro da Transunião. Adauto, que atuava como um dos “laranjas” ou “testas de ferro” de Senival Moura na direção da empresa, teria sido executado a tiros no estacionamento de uma padaria no bairro do Lajeado, na Zona Leste de São Paulo.
Segundo o Ministério Público, o crime foi motivado por uma “quebra de confiança” financeira. Adauto estaria desviando valores da Transunião para um “caixa dois” da campanha de reeleição de Senival em 2020, em detrimento dos repasses que deveriam ser feitos ao PCC. Diante disso, o operador Leonel Martins, vulgo “Cabeça Branca”, teria sido escalado para resolver a questão por meio de um “debate” no tribunal do crime da facção, que culminou na ordem de execução de Adauto.
As conclusões mais recentes da investigação sugerem um desdobramento ainda mais sombrio: tanto Adauto quanto Senival teriam sido “condenados à morte” pelo PCC. Contudo, o vereador teria sido perdoado em razão de sua influência política e capacidade financeira de ressarcir parte do prejuízo apontado pela facção. Como contrapartida a esse “perdão”, Senival teria concordado com a morte de Adauto, seu próprio representante.
Senival Moura: uma trajetória política sob escrutínio
A trajetória de Senival Moura no cenário político e de transportes de São Paulo é longa e complexa. Atuante desde a década de 1970, ele construiu sua base eleitoral na Zona Leste, especialmente em Itaquera e Artur Alvim, regiões para as quais destinou emendas parlamentares e onde se tornou uma espécie de porta-voz dos antigos “perueiros”. Sua influência foi notável durante o processo de regularização do setor de transporte alternativo, que se consolidou em empresas como a Transunião.
Em seu sexto mandato na Câmara Municipal, Senival ocupa atualmente os cargos de primeiro-secretário da Mesa Diretora e de presidente da Comissão de Trânsito, Transporte e Atividade Econômica, um colegiado estratégico para as políticas do setor. Sua atuação e conexões no transporte público, que remontam a linhas clandestinas operadas com Kombis, agora estão sob a lupa da Justiça, levantando questionamentos sobre a permeabilidade do crime organizado em esferas de poder.
Vale ressaltar que Senival não é o único de sua família a enfrentar investigações por supostas ligações com o crime. Seu irmão, Luiz Moura, também foi investigado por suspeita de relações com facções criminosas quando era deputado estadual.
A posição do PT e a defesa do vereador
Diante da gravidade das acusações, o Partido dos Trabalhadores emitiu uma nota confirmando o pedido de afastamento de Senival Moura. A justificativa apresentada pelo partido é que o vereador possa “se dedicar à sua defesa e de não vincular os últimos acontecimentos ao partido”. Este movimento é comum em casos de alta repercussão, onde a sigla busca preservar sua imagem enquanto o processo judicial segue seu curso.
A defesa de Senival Moura, por sua vez, reitera a inocência do parlamentar. O advogado Márcio Sayeg afirmou que o vereador recebeu a decretação de sua prisão temporária com “profunda indignação” e que está tomando as providências necessárias para prestar todos os esclarecimentos à Justiça. As conclusões apresentadas pelo MP-SP e pela Polícia Civil representam a linha de investigação das autoridades e serão submetidas ao contraditório e à ampla defesa ao longo do processo judicial.
A prisão e o afastamento de Senival Moura do PT marcam um momento de intensa turbulência política em São Paulo, com implicações que transcendem o âmbito individual do vereador. O caso levanta discussões cruciais sobre a integridade do sistema de transportes, a influência do crime organizado na política e a necessidade de transparência nas relações entre agentes públicos e o setor privado. O M1 Metrópole continuará acompanhando de perto os desdobramentos desta investigação, trazendo as informações mais relevantes e contextualizadas para nossos leitores, reforçando nosso compromisso com o jornalismo de qualidade e a apuração aprofundada dos fatos que impactam a sociedade.