A cada eleição, a saúde pública emerge como um dos temas mais sensíveis e prioritários para a população. Em São Paulo, o maior estado do Brasil, as responsabilidades do governo estadual nessa área são vastas e impactam diretamente a vida de milhões de cidadãos, desde a distribuição de medicamentos essenciais até a complexa gestão de transplantes. Com as eleições de 2026 no horizonte, entender o papel do Executivo paulista na saúde é fundamental para avaliar as propostas e os desafios que se apresentam.
A rotina de famílias como a de Josicleide dos Santos Moura, que há sete anos busca garantir a medicação de alto custo para sua filha com epilepsia em uma farmácia especializada do SUS na Zona Leste, ilustra a dependência de uma estrutura que, embora muitas vezes invisível, é vital. Mensalmente, mais de 80 toneladas de medicamentos são distribuídas pelo governo estadual para unidades de saúde em todos os 645 municípios paulistas, uma engrenagem que sustenta tratamentos essenciais.
A Complexa Teia do SUS e o Papel Estadual
O Sistema Único de Saúde (SUS), pilar da saúde pública brasileira, opera sob uma divisão de responsabilidades entre União, estados e municípios. Enquanto as prefeituras concentram seus esforços na atenção básica – por meio de Unidades Básicas de Saúde (UBSs), Assistências Médicas Ambulatoriais (AMAs) e Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) –, o governo do estado de São Paulo assume a maior parte dos atendimentos de média e alta complexidade. Estes são os serviços que demandam estrutura especializada e investimentos significativos, além de financiar parte das ações municipais.
A médica sanitarista e doutora em Saúde Pública, Aparecida Linhares Pimenta, ressalta a importância dessa atribuição: “O estado de São Paulo tem mais de 60% dos municípios com menos de 20 mil habitantes. Esses municípios não têm condições de ter um hospital de alta complexidade, de ter um ambulatório de alta complexidade. Então, é responsabilidade do governo do estado garantir este atendimento de média e alta complexidade para todos os municípios do estado.”
Infraestrutura Essencial: De Remédios a Hospitais
A rede estadual de saúde de São Paulo é robusta e diversificada, composta por uma vasta infraestrutura que busca atender às necessidades da população. Atualmente, ela engloba:
- 90 hospitais públicos, que oferecem desde internações gerais até cirurgias complexas.
- 63 Ambulatórios Médicos de Especialidades (AMEs), focados em consultas e exames especializados.
- A Central de Regulação de Ofertas de Serviços de Saúde (Cross), que organiza as filas para acesso a diversos procedimentos e internações, incluindo os de alta complexidade.
Essa estrutura é crucial para a regionalização da saúde, uma lógica que permite que hospitais e ambulatórios atendam pacientes de diversas cidades, otimizando recursos e expertise. A Maternidade Estadual de Franco da Rocha, na Grande São Paulo, é um exemplo. A unidade não apenas serve a sua cidade, mas também municípios vizinhos como Caieiras, Cajamar, Francisco Morato e Mairiporã, realizando entre 190 e 210 partos por mês e cerca de 1,2 mil atendimentos mensais no pronto-socorro.
Desafios Crônicos: Desigualdade e Mortalidade Materna
Garantir o acesso equitativo a serviços de saúde para os 46 milhões de habitantes do estado é um dos maiores desafios da administração paulista. A distribuição de profissionais de saúde, por exemplo, é um gargalo persistente. Apesar de São Paulo concentrar um grande número de médicos, a concentração é desigual, com vastos “vazios de atendimento” no sul e oeste do estado. Quase 90% dos municípios paulistas têm menos de três médicos para cada mil habitantes, evidenciando a necessidade de políticas que incentivem a fixação de especialistas em regiões carentes.
Outro ponto crítico, apontado pela Dra. Aparecida Linhares Pimenta, é a mortalidade materna. “No estado de São Paulo, nós temos poucos ambulatórios de pré-natal de alto risco e poucas maternidades para dar assistência às mulheres que vão fazer um parto numa situação de alto risco. Isso faz com que a nossa mortalidade materna venha aumentando desde a pandemia”, alerta a especialista. A redução desses índices ao nível pré-pandemia deve ser uma prioridade para o próximo governador.
A Espera por uma Nova Chance: As Filas de Transplante
A atuação do estado também se estende a uma das áreas mais complexas e sensíveis do SUS: os transplantes. A Central de Regulação de Ofertas de Serviços de Saúde (Cross) é a responsável por gerenciar as filas para esses procedimentos de alta complexidade. Em 2025, foram realizados quase 9 mil transplantes em São Paulo. Contudo, a demanda ainda é imensa, com mais de 28 mil pessoas aguardando por um órgão.
A história de Marcelo Cruz da Silva, de 42 anos, é um reflexo dessa realidade. Após complicações cardíacas, renais e pancreáticas decorrentes de uma pneumonia, ele depende de hemodiálise e entrou em abril de 2024 na fila para um transplante duplo de rim e pâncreas. “Durante muito tempo eu vivi um dia por vez. Mas, quando te dão uma esperança, mesmo que mínima, as coisas desabrocham”, compartilha Marcelo, expressando a esperança que move milhares de pacientes.
A complexidade da saúde pública em São Paulo exige um olhar atento e uma gestão eficiente do governo estadual. Desde a garantia de medicamentos até a organização de transplantes, as decisões tomadas hoje moldarão o futuro da saúde para milhões de paulistas. Acompanhar de perto as propostas e os planos dos candidatos para 2026 é essencial para que a população possa escolher líderes comprometidos com um sistema de saúde mais justo e acessível. Para mais informações sobre este e outros temas relevantes, continue acompanhando o M1 Metrópole, seu portal de notícias com informação relevante, atual e contextualizada.