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Saúde mental de comunidades tradicionais sob ameaça da crise climática

9.abr.26/Folhapress
9.abr.26/Folhapress

A crise climática transcendeu a esfera das preocupações ambientais futuras para se consolidar como uma emergência presente, com impactos profundos e crescentes na saúde física e, de forma alarmante, na saúde mental de populações em todo o mundo. No Brasil, essa realidade é particularmente sentida por povos indígenas e comunidades quilombolas, que veem seus modos de vida, suas culturas e seu bem-estar psíquico diretamente ameaçados pela intensificação de eventos extremos.

Relatórios recentes da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Lancet Countdown on Health and Climate Change sublinham a gravidade da situação. Esses documentos apontam que fenômenos como secas prolongadas, incêndios florestais, ondas de calor e inundações não apenas causam destruição material, mas também desencadeiam e agravam quadros de ansiedade, sofrimento psicológico, depressão e deslocamentos forçados, especialmente entre grupos historicamente vulnerabilizados.

Impactos Diretos da Crise Climática na Vida e no Psíquico

As mudanças climáticas não são apenas um fenômeno distante; elas se manifestam em eventos que alteram drasticamente o cotidiano das comunidades. Para povos indígenas e quilombolas, cuja existência está intrinsecamente ligada à natureza e aos seus territórios, a degradação ambiental é uma agressão direta à sua identidade e à sua saúde mental.

A perda de recursos naturais essenciais, como água e alimentos, a destruição de ecossistemas sagrados e a incerteza sobre o futuro geram um estresse crônico. Este cenário de emergência não declarada exige uma preparação antecipada e um alerta precoce das populações, utilizando conceitos já validados por organismos internacionais como o Comitê Permanente Interinstitucional (IASC), que incluem planejamento, avaliação de riscos e treinamento para desastres.

A Invisibilidade da Saúde Mental nas Políticas Climáticas

Apesar da crescente evidência dos impactos psicossociais da crise climática, a dimensão da saúde mental permanece, em grande parte, invisível nas políticas globais de adaptação climática. Essa lacuna impede a formulação de respostas abrangentes que considerem o ser humano em sua totalidade, para além dos aspectos puramente físicos e materiais.

A integração da saúde mental nas estratégias climáticas é um desafio urgente. É fundamental que os planos de resposta a desastres e as políticas de mitigação e adaptação incorporem o suporte psicológico e o reconhecimento do trauma ambiental como componentes essenciais para a resiliência das comunidades afetadas.

Iniciativas Brasileiras em Busca de Soluções

No Brasil, o debate sobre a intersecção entre saúde mental e mudanças climáticas começa a ganhar força. Pesquisadores, movimentos sociais, organizações da sociedade civil e as próprias comunidades afetadas estão se articulando para pressionar por mudanças e desenvolver soluções.

Um exemplo promissor é o projeto recentemente aprovado pela United for Global Mental Health (UnitedGMH), em parceria com o Vertentes – Ecossistema de Saúde Mental. A iniciativa visa fortalecer a integração da saúde mental nas políticas públicas brasileiras relacionadas ao clima. Para isso, prevê o mapeamento de políticas existentes, a identificação de lacunas e oportunidades, e a elaboração de uma estratégia de advocacy baseada em evidências para articular ações concretas.

Vozes da Floresta: Relatos de Impacto Direto

As comunidades da Amazônia, como as do Tapajós, Marajó e quilombolas do Pará, são testemunhas diretas de que a crise climática é também uma crise de saúde mental, de memória e de continuidade dos modos de vida. Seus relatos trazem à tona a profundidade do sofrimento.

No Território Indígena Kumaruara, no Baixo Tapajós, Tainan Kumaruara, 27, descreve a severidade da situação: “Essa seca foi diferente… Houve um momento em que o igarapé secou, e as famílias foram obrigadas a sair.” A falta de água não é apenas uma questão de subsistência; ela desestrutura a vida social e emocional. Arlete Kumaruara, 60, liderança indígena, complementa: “A gente não tinha água, não tinha como sobreviver… e tudo isso afeta o psicológico, principalmente das mulheres e das crianças.”

Para os Kumaruara, a floresta é um sistema de cuidado, fonte de alimento, cura, pertencimento e equilíbrio espiritual. Alain Kumaruara, 29, expressa a dimensão espiritual da perda: “Se a floresta queimar, não há como buscar a cura.” O Pajé Naldinho, 31, reforça a interconexão: “O Pajé faz a conexão com os encantados, que trazem cura psicológica, espiritual e física.” Sem a floresta, essa conexão vital se fragiliza, comprometendo a possibilidade de cura e a própria razão de resistir.

Nas comunidades quilombolas do Pará, o cenário é igualmente desafiador. Lideranças relatam que o avanço do desmatamento, da monocultura, das grandes fazendas e da poluição dos rios gera sofrimento psicológico, ansiedade, medo e uma sensação de perda coletiva. Em Salvaterra, no Marajó, um líder quilombola destaca como a restrição ao acesso ao território e às áreas tradicionais de cultivo, pesca e coleta de ervas medicinais afeta não apenas a soberania alimentar, mas também o bem-estar comunitário e a saúde mental, com casos de adoecimento mental relacionados a essas perdas.

O Papel dos Saberes Tradicionais e a Necessidade de Políticas Integradas

A intensificação das secas históricas, queimadas e ondas de calor na Amazônia torna o projeto Vertentes Saúde Mental e Clima ainda mais relevante. O desafio central é transformar o reconhecimento dos impactos emocionais da crise climática em políticas públicas integradas e efetivas. Isso implica fortalecer os sistemas públicos de saúde mental nos territórios mais vulnerabilizados e ampliar as estratégias de promoção e prevenção diante dos eventos extremos.

É crucial também reconhecer os saberes tradicionais como parte fundamental das respostas climáticas. As comunidades amazônicas demonstram que a adaptação climática é inviável sem a floresta em pé, sem a proteção dos territórios e sem o cuidado com os corpos, as memórias e os modos coletivos de viver.

A crise climática exige uma abordagem multifacetada que valorize a ciência, mas também os conhecimentos ancestrais, garantindo que a saúde mental seja um pilar central na construção de um futuro mais resiliente e justo para todos.

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