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A perigosa banalização do uso de medicamentos para emagrecer sem orientação médica

A perigosa banalização do uso de medicamentos para emagrecer sem orientação médica
Rubens Cavallari - 01.jun.26/Folhapress

O avanço de tratamentos farmacológicos eficazes contra a obesidade trouxe uma nova esperança para milhões de pacientes, mas também abriu margem para um fenômeno preocupante: a automedicação desenfreada. O uso de substâncias como semaglutida e tirzepatida, adquiridas sem prescrição, via internet ou por canais informais, transformou-se em um desafio crítico de saúde pública no Brasil.

Os riscos da procedência duvidosa e da falta de controle

O perigo começa pela origem do produto. Medicamentos importados na bagagem, comprados em sites de procedência incerta ou manipulados sem rigor sanitário não oferecem garantia de eficácia nem de segurança. Sem o selo de aprovação da Anvisa, o paciente ignora a composição real da substância, a dosagem exata e as condições de armazenamento, que são fundamentais para a estabilidade da molécula.

A ausência de rastreabilidade expõe o usuário a riscos imediatos. Além da possibilidade de contaminação, a falta de pureza do princípio ativo pode desencadear reações adversas graves, como pancreatites, infecções sistêmicas e quadros severos de hipoglicemia. O que deveria ser um aliado no controle de uma doença crônica torna-se, na prática, um fator de risco adicional à saúde.

A importância do diagnóstico clínico e do acompanhamento

A obesidade é uma condição biológica complexa e não uma simples questão de estética ou falta de força de vontade. O tratamento médico adequado exige, obrigatoriamente, uma avaliação clínica prévia. O profissional de saúde é quem determina se há indicação real para o uso de fármacos, considerando o histórico do paciente, possíveis contraindicações e a necessidade de mudanças estruturais no estilo de vida.

O acompanhamento contínuo é o que diferencia o tratamento responsável do improviso. Durante o uso, é necessário monitorar a tolerância do organismo, ajustar doses gradualmente e manejar efeitos colaterais comuns, como náuseas e vômitos. Ignorar essa etapa, como ocorre na automedicação, é negligenciar a própria segurança em busca de resultados rápidos que podem custar caro ao organismo.

Critérios para o tratamento em diferentes faixas etárias

A indicação clínica para o uso de medicamentos é estreita e deve ser pautada por evidências científicas. Estudos como o STEP e o SURMOUNT demonstram a eficácia das moléculas, mas reforçam que elas não são destinadas a quem busca perder poucos quilos por motivos puramente estéticos. A distinção entre obesidade clínica e pré-clínica, conforme discutido em publicações como a The Lancet Diabetes & Endocrinology, é fundamental para definir a urgência e o tipo de intervenção necessária.

No caso de crianças e adolescentes, o rigor deve ser ainda maior. Embora existam aprovações específicas para certas faixas etárias, como a liraglutida para maiores de 12 anos, o uso é estritamente condicionado a protocolos médicos rigorosos. A automedicação nessa fase da vida é particularmente perigosa, dado o desenvolvimento biológico em curso, e deve ser combatida com informação de qualidade e acesso ao cuidado especializado.

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