Um episódio de tensão e controvérsia em uma escola municipal de São Paulo deixou marcas profundas em uma educadora. A professora da EMEI Antônio Bento, localizada na Zona Oeste da capital paulista, revelou ao g1 que desenvolveu sintomas de estresse pós-traumático e precisou se afastar do cargo após a entrada de policiais militares armados na unidade, em novembro do ano passado. Na ocasião, ela atuava interinamente como diretora da escola, que se viu no centro de uma denúncia inusitada: um pai-policial se revoltou com um desenho de Iansã, orixá de religiões de matriz africana, feito por sua filha de 4 anos.
O incidente, que levantou debates sobre intolerância religiosa, autonomia pedagógica e a atuação policial em ambientes educacionais, expôs a vulnerabilidade de profissionais da educação diante de situações de conflito e a complexidade das relações entre família, escola e Estado.
A denúncia e a entrada da Polícia Militar na EMEI Antônio Bento
O estopim para a crise na EMEI Antônio Bento foi a denúncia de um pai, que também é soldado da Polícia Militar. Ele alegou que a escola estaria “obrigando” a criança a ter “aula de religião africana” após sua filha de 4 anos desenhar Iansã, uma divindade do Candomblé e da Umbanda. Em resposta à denúncia, um efetivo de 12 policiais militares, alguns deles armados, entrou na unidade de ensino infantil.
Câmeras corporais dos PMs registraram todo o atendimento da ocorrência, incluindo o momento em que o tenente Ronald Camacho, comandante da equipe, confrontou a então diretora. Ele a acusou de tentar “ditar sua ideologia” ao explicar as atividades sobre cultura afro-brasileira desenvolvidas pela escola. A educadora, com 20 anos de experiência, defendeu que o trabalho seguia a legislação e o currículo estabelecido pela Secretaria Municipal da Educação, baseado nas leis federais 10.639/03 e 11.645/08, que tornam obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e indígena nas escolas.
O impacto psicológico na educadora: estresse pós-traumático e ansiedade
A experiência de ser confrontada por policiais armados dentro da escola, enquanto defendia o trabalho pedagógico, teve um custo alto para a professora. Ela relatou ter adoecido, precisando de medicação para controlar transtornos de ansiedade e apoio psicológico intensivo. “No dia e no mês que se seguiram, eu fiquei afastada, precisei de apoio psicológico, pois tive sintomas de estresse pós-traumático. Eu fui atendida em casa pela médica, não tinha condição de sair. Então, não foi uma situação fácil nem tranquila”, desabafou a educadora, que preferiu não ser identificada.
O impacto não se limitou a ela. Seu filho, que também era aluno da EMEI e presenciou a cena, desenvolveu medo da polícia e precisou de acompanhamento psicológico. Ele chegou a ter crises nervosas ao ouvir viaturas se aproximando, questionando se eram “aqueles policiais do mal de novo”. A educadora descreveu a abordagem como hostil, com o tenente elevando o tom de voz e adotando uma postura “impositiva e machista”, tentando deslegitimar suas explicações com a autoridade da farda.
Debate sobre a atuação policial e a autonomia pedagógica
A professora questionou a justificativa para a presença de policiais armados em uma escola de educação infantil para tratar de uma questão pedagógica. “Um policial que é um tenente, que usa aquele tipo de armamento, poderia ter se resguardado. Que perigo será que eu ou as crianças da escola estavam oferecendo?”, indagou. Ela argumentou que a situação configurava uma forma de coação contra a escola e seus funcionários.
Durante a discussão, o tenente Camacho insistiu que o desenho de Iansã tinha caráter religioso, apesar da diretora explicar que a atividade era cultural e literária, baseada no livro infantil “Ciranda de Aruanda”, parte do acervo municipal. A obra aborda a mitologia dos orixás em uma perspectiva cultural. A situação escalou até a intervenção de uma supervisora de ensino da Diretoria Regional de Educação do Butantã, que, em ligação telefônica, esclareceu ao tenente que se tratava de uma “tratativa pedagógica” e não de intolerância religiosa, que ocorre quando há desrespeito a uma religião, e não discordância de um conteúdo escolar.
Repercussões legais e o cenário de intolerância
A atuação dos policiais e as imagens das câmeras corporais estão sob investigação por meio de um Inquérito Policial Militar (IPM), conduzido pela Secretaria da Segurança Pública (SSP). Contudo, a Polícia Civil concluiu que os PMs seguiram o protocolo ao entrar armados na escola. Por outro lado, o pai que acionou a PM foi indiciado por intolerância religiosa, evidenciando a complexidade e as múltiplas camadas do caso.
Para a educadora, o episódio reflete um ambiente de crescente intolerância e tensão na relação entre famílias e escolas. Ela ressalta a importância da formação de agentes públicos para lidar com temas de diversidade e liberdade religiosa, criticando a influência de crenças pessoais na atuação de servidores. O caso da EMEI Antônio Bento se tornou um símbolo da necessidade de proteger a autonomia pedagógica das escolas e garantir um ambiente seguro e livre de coação para educadores e alunos.
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