A política de privatizações e concessões do governo de São Paulo, sob a gestão de Tarcísio de Freitas, tem sido alvo de crescentes questionamentos e críticas. Uma análise do jornalista Marcos Augusto Gonçalves, publicada na Folha de S.Paulo, destaca como recentes episódios têm fragilizado a imagem dessas iniciativas, levantando dúvidas sobre a eficácia e a motivação por trás de algumas dessas operações.
Gonçalves aponta que, embora o governador tenha atribuído um caráter político a uma greve de ferroviários já encerrada no estado, o movimento possuía uma dimensão trabalhista clara. Em contrapartida, as próprias concessões e privatizações em curso na capital paulista, segundo a análise, parecem se enquadrar em um rótulo de ações políticas, e muitas vezes, mal executadas.
Concessões ferroviárias: falhas e o recuo do governo
Um dos exemplos mais contundentes citados na análise diz respeito às privatizações das linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade da CPTM. Concedidas à empresa Trivia Trens no final de junho, essas linhas rapidamente apresentaram falhas significativas, culminando em um grave incêndio na linha 12.
Diante da série de problemas e da má prestação de serviço aos usuários, o governador Tarcísio de Freitas tomou a decisão de cancelar a concessão por 90 dias, recolocando os ramais sob o controle da companhia de trens do estado. Esse recuo, para Marcos Augusto Gonçalves, funciona como um “recibo de incompetência técnica e motivação política” inegável, minando a confiança no modelo adotado.
O cenário de dificuldades não é inédito no setor ferroviário paulista. As linhas 8 e 9, concedidas à ViaMobilidade durante o governo de João Doria em 2021, também foram marcadas por mau funcionamento e reclamações constantes dos passageiros, evidenciando um padrão de desafios nas privatizações do transporte sobre trilhos.
Parques urbanos: a mercantilização e seus desafios
Os equívocos na gestão de concessões não se limitam ao transporte. A análise também aborda os problemas acumulados em outras áreas, como as concessões de alguns parques urbanos. O que poderia ser uma alternativa para aprimorar a qualidade dessas importantes áreas verdes da cidade, transformou-se, em muitos casos, em um “portal aberto para a agressão à natureza e a mercantilização desenfreada e pouco inteligente das unidades”.
O jornalista Marcos Augusto Gonçalves compartilha sua experiência como frequentador assíduo do Parque Villa-Lobos, onde os “descalabros vão de vento em popa”. Ele descreve a proliferação de cervejarias chamativas, praças de alimentação de qualidade duvidosa e até mesmo trechos de vegetação cercados e cobertos com LEDs, com cobrança de bilheteria para acesso. Enquanto isso, a infraestrutura básica, como o piso das pistas para pedestres e os bancos, apresenta sinais de deterioração e falta de manutenção.
O dogma liberal e o debate sobre privatizações
A postura do governo Tarcísio de Freitas, ao buscar uma marca eleitoral e agradar ao empresariado e à opinião pública antipetista, tem contribuído para o questionamento do dogma liberal que prega a superioridade intrínseca da iniciativa privada sobre o setor público. As falhas observadas em São Paulo desafiam a premissa de que “aquilo que a iniciativa privada for capaz de fazer, fará melhor do que o setor público”.
O próprio Marcos Augusto Gonçalves se posiciona como não principista em relação às privatizações, reconhecendo suas vantagens em diversos cenários. Ele cita como exemplos positivos as concessões de rodovias em São Paulo, que resultaram em melhorias, e a privatização das empresas de telefonia, como a Telesp e a Telerj, que não deixaram saudades. Contudo, a análise reforça que essa preferência não é universal e que há situações em que a opção pela privatização, se mal planejada e estruturada, pode gerar mais problemas do que soluções.
O debate sobre o papel do Estado e da iniciativa privada na prestação de serviços essenciais e na gestão de bens públicos continua em pauta, com os recentes acontecimentos em São Paulo adicionando camadas de complexidade e urgência à discussão. Para aprofundar a compreensão sobre o tema, leia mais sobre o cenário de privatizações e concessões no Brasil.
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