A recente prisão de Felipe Linares de Oliveira Dell Aquilla, conhecido como “Don” ou “Dom”, nos Estados Unidos, desencadeou uma série de questionamentos e estranhezas entre as autoridades brasileiras. Anunciada nesta segunda-feira (15) pelas autoridades migratórias americanas (ICE), a detenção de Dell Aquilla foi inicialmente divulgada com a informação de que ele seria um ex-chefe das facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV), alegação que rapidamente foi refutada por órgãos de inteligência e investigação no Brasil.
A discrepância entre as informações divulgadas pelos Estados Unidos e a realidade apurada no Brasil levanta importantes discussões sobre a cooperação internacional e a precisão na identificação de criminosos de alta periculosidade. Enquanto o mandado de prisão que levou à inclusão de Dell Aquilla na difusão vermelha da Interpol é decorrente de uma condenação definitiva por extorsão no Brasil, a narrativa americana o posicionou como uma figura de liderança nas maiores organizações criminosas do país, um ponto que as investigações brasileiras não corroboram.
Autoridades brasileiras contestam vínculo com facções
Fontes da Polícia Federal, dos Ministérios Públicos de São Paulo e do Rio de Janeiro, das polícias civis dos dois estados e dos serviços de inteligência foram unânimes em afirmar que não reconhecem Felipe Linares de Oliveira Dell Aquilla como um integrante relevante ou, muito menos, uma liderança do PCC ou do Comando Vermelho. A surpresa foi generalizada, uma vez que, caso ele realmente ocupasse tal posição, seu nome seria amplamente conhecido pelos setores de inteligência e combate ao crime organizado no Brasil.
Em São Paulo, por exemplo, não há qualquer registro de inteligência que aponte Dell Aquilla como membro do PCC ou sequer como faccionado no estado, sem histórico de entrada em penitenciárias paulistas. Investigadores consultados pela reportagem ressaltaram que a informação divulgada pelas autoridades americanas causou estranheza, pois não há indícios que o vinculem formalmente a essas organizações criminosas no Brasil. Sua atuação, segundo apuração, estaria mais ligada ao ramo do entretenimento, tendo trabalhado em uma produtora musical cujo proprietário já foi alvo de investigação por suspeitas de lavagem de dinheiro.
Histórico criminal de Dell Aquilla no Brasil
O mandado de prisão que embasou a inclusão de Dell Aquilla na lista da Interpol é resultado de uma condenação definitiva pelo crime de extorsão, com pena fixada em nove anos e sete meses de prisão. Além disso, ele é réu em outros processos, incluindo um notório golpe aplicado em um hotel de luxo em Campos do Jordão (SP), em 2018. Na ocasião, ele comprou duas diárias no valor de R$ 9,2 mil, hospedou-se no local e, posteriormente, reportou à empresa de cartão de crédito que não reconhecia a compra, obtendo o reembolso e deixando o hotel no prejuízo.
A investigação do caso de Campos do Jordão revelou que o próprio Dell Aquilla se hospedou, sendo identificado pela placa do carro BMW que utilizava, registrado em seu nome, o mesmo da reserva e do cartão de crédito. Desde 2018, a Polícia Civil e a Justiça paulista tentavam intimá-lo, sem sucesso, resultando em seu julgamento à revelia. O histórico criminal de Felipe Linares de Oliveira Dell Aquilla também inclui acusações de agressão a uma ex-namorada e de não desocupar um imóvel que havia vendido ao antigo proprietário, além de outras apurações por tráfico, estelionato, ameaça e lesão corporal.
A prisão e as acusações nos Estados Unidos
Segundo comunicado divulgado pelo ICE, a prisão de Felipe Linares de Oliveira Dell Aquilla ocorreu após uma perseguição na Carolina do Norte. As autoridades americanas informaram que ele tentava fugir de carro em direção ao México quando foi interceptado durante uma fiscalização de trânsito na cidade de Mooresville. O órgão americano alegou que Dell Aquilla mantinha sua esposa como refém dentro do veículo e, durante a tentativa de fuga, o carro sofreu um acidente, culminando em sua captura. No automóvel, os agentes teriam encontrado uma arma de fogo, dinheiro em espécie e telefones celulares.
As circunstâncias detalhadas da prisão e as acusações adicionais mencionadas pelas autoridades americanas, como a suposta retenção da esposa como refém, estão sendo apuradas pelas autoridades brasileiras, que buscam entender a totalidade dos fatos e a base para as declarações do ICE. A divergência de informações ressalta a complexidade das operações transnacionais e a necessidade de alinhamento entre as agências de segurança de diferentes países.
Classificação de facções como terroristas: um ponto de discórdia
A controvérsia em torno da identidade de Dell Aquilla ganha um pano de fundo adicional com a decisão dos Estados Unidos de designar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas, ocorrida em 28 de maio. Essa classificação foi feita apesar da oposição do governo brasileiro, que, em maio de 2025 (sic), por meio do secretário nacional de Segurança Pública, Mario Sarrubbo, negou o pedido americano para tal designação. Sarrubbo argumentou que as facções não se enquadram na definição de terrorismo prevista na Constituição brasileira, que exige atos motivados por xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia ou religião, visando provocar terror social ou generalizado.
A designação americana, que difere da interpretação legal brasileira, pode influenciar a forma como os Estados Unidos caracterizam indivíduos supostamente ligados a essas facções, como no caso de Dell Aquilla. Essa diferença de perspectiva legal e de inteligência entre os dois países é um fator crucial para entender a disparidade nas informações divulgadas sobre o perfil do preso.
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