A jornalista e comentarista política Dora Kramer, em sua coluna na Folha de S.Paulo, lança luz sobre um fenômeno recorrente na política brasileira: a chamada “ofensiva populista” por parte de governos em busca de reeleição ou de perpetuação de sua influência. A análise de Kramer, que repercute no cenário nacional, aponta para a utilização da máquina estatal como uma ferramenta eleitoral, revelando não apenas a força desse aparelho, mas também um possível grau de preocupação com a viabilidade da reeleição do atual presidente.
A discussão proposta por Kramer transcende a mera crítica política, mergulhando nas raízes históricas e nas implicações éticas e legais do uso da estrutura governamental para fins de campanha. A prática, embora frequentemente associada a períodos eleitorais, é apresentada como um traço mais profundo da cultura política brasileira, onde a fronteira entre a gestão pública e os interesses partidários pode se tornar tênue.
O populismo e a máquina do Estado na campanha
A “farra populista”, como descrita por Kramer, manifesta-se no uso estratégico de recursos e ações governamentais para angariar apoio popular e votos. Essa tática, segundo a jornalista, demonstra que o governo, apesar de eventuais dificuldades, está “bem vivo” e sem constrangimentos em mobilizar a estrutura pública para atender às necessidades eleitorais de seu líder. A percepção de que o aparelho de Estado é uma força a ser subestimada ganha contornos mais nítidos quando se observa a intensidade com que tais movimentos são articulados.
A preocupação com a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é um dos pontos centrais da análise. A ofensiva populista seria, nesse contexto, um indicativo de que há uma avaliação interna sobre os riscos de não conseguir um novo mandato, levando à intensificação de ações que buscam reverter ou consolidar o apoio popular em um curto espaço de tempo.
Raízes históricas do uso da máquina pública
Dora Kramer faz questão de desvincular a prática do abuso de poder da instituição da reeleição, que foi estabelecida no Brasil em 1997. Ela recorda que o uso da máquina pública para fins eleitorais é um expediente muito anterior a essa regra. Exemplos históricos são citados, como o esforço de Lula para eleger Dilma Rousseff (PT) e, anos antes, a atuação do emedebista Orestes Quércia, que teria “quebrado o Banespa” para impulsionar a candidatura de Luiz Antônio Fleury ao governo de São Paulo, em um período em que a reeleição não era uma possibilidade para o Executivo.
Essa perspectiva histórica reforça a tese de que o problema reside não na legislação em si, mas na conduta de indivíduos que desrespeitam a lei e nos mecanismos de fiscalização e punição que, em muitos casos, se mostram lentos ou tolerantes. A impunidade ou a demora na aplicação de sanções contribuem para a perpetuação de tais práticas, criando um ciclo vicioso na política.
O embate entre benesses e avaliação de desempenho
A jornalista também traça um paralelo com a experiência de Jair Bolsonaro, que, embora tenha recorrido a métodos semelhantes, não obteve sucesso em sua tentativa de reeleição. Para Kramer, o “desgoverno golpista e negacionista” de Bolsonaro pesou mais na decisão do eleitorado do que as benesses oferecidas. No caso de Lula, a questão que se impõe é qual fator terá maior peso na decisão do eleitor: as “benesses de última hora” ou a avaliação do desempenho do governo nos três anos anteriores.
A análise da gestão de Lula aponta para uma concentração de esforços na economia, com foco na arrecadação, e na política externa, buscando destaque internacional e embate ideológico com a direita emergente. Contudo, Kramer observa que o presidente não teria utilizado suas habilidades políticas para avançar em projetos consistentes em áreas cruciais, como a segurança pública. A oposição, embora feroz, é um elemento constante na política, e governos anteriores souberam contorná-la para implementar reformas essenciais, como o plano que pôs fim à inflação.
Desafios e o futuro da política brasileira
A discussão sobre o populismo eleitoral e o uso da máquina pública é fundamental para a saúde democrática do Brasil. A capacidade de discernimento do eleitorado, a atuação dos órgãos de controle e a vigilância da imprensa são elementos cruciais para mitigar os efeitos de tais estratégias. O debate proposto por Dora Kramer convida à reflexão sobre a responsabilidade dos governantes e a necessidade de um sistema político mais transparente e equitativo.
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