Uma operação da Polícia Federal, autorizada pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), revelou indícios de um complexo esquema de triangulação financeira envolvendo ao menos R$ 6,1 milhões. Os valores, oriundos de um contrato de Wi-Fi da Prefeitura de São Paulo, teriam sido movimentados entre empresas e entidades ligadas à empresária Karina da Gama, com suspeitas de lavagem de dinheiro e desvio de recursos públicos. A investigação aponta conexões com a produtora do filme Dark Horse, intensificando o escrutínio sobre a gestão de verbas públicas na capital paulista.
A ação da PF, deflagrada nesta quinta-feira (10), mira a produtora do filme e diversos empresários envolvidos no esquema. A empresária Karina da Gama, figura central na apuração, é responsável pela instalação dos pontos de Wi-Fi na cidade, um serviço essencial para milhares de cidadãos.
Detalhes da Operação e o Fluxo Financeiro Suspeito
O relatório da Polícia Federal, base para a decisão de Flávio Dino, detalha como os R$ 6,1 milhões teriam sido movimentados. Segundo a investigação, o dinheiro saiu do Instituto Conhecer Brasil (ICB), entidade de propriedade de Karina da Gama, que detém um contrato de R$ 157 milhões com a Prefeitura de São Paulo para a manutenção do programa Wi-Fi Livre.
Os recursos foram então repassados a empresas terceirizadas que prestavam serviços ao ICB. Posteriormente, uma parcela significativa desses valores retornava para outra entidade em nome da empresária: a Academia Nacional de Cultura (ANC), uma organização social da cultura (OSC). É notável que tanto o ICB quanto a ANC operam no mesmo endereço, no bairro dos Jardins, no Centro de São Paulo, o que levantou suspeitas sobre a legitimidade das transações.
O ministro Flávio Dino, em seu documento, destacou que “As movimentações narradas apresentam fortes indícios de retorno dos recursos públicos pagos ao ICB para a esfera de disponibilidade dos próprios responsáveis pela OSC, com potencial caracterização de desvio e contornos de lavagem de dinheiro”. Essa triangulação financeira é o cerne da investigação da Polícia Federal.
Os Atores Envolvidos e as Medidas da Polícia Federal
Para executar a suposta triangulação, Karina da Gama teria utilizado quatro empresas terceirizadas. A Complexsys Soluções Integradas Ltda. e a Fastfuture Tecnologias Emergentes Ltda., ambas pertencentes ao casal André Feldman e Débora Gomes Feldman, prestaram serviços no contrato de Wi-Fi. Outras empresas envolvidas seriam a Ultra IP Tecnologia e Serviços Ltda., de William Silva Ferreira, e a Distribuidora de Produtos LMS Ltda.
A investigação detalha os valores repassados à ANC por essas empresas:
- Complexsys: R$ 2.626.949,69 e R$ 1.308.986,33
- Ultra IP: R$ 1.336.201,50
- Fastfuture: R$ 603.136,12
- Distribuidora LMS: R$ 300.000,00
O total triangulado, conforme a PF, soma R$ 6.175.273,64. Os empresários André Feldman, Débora Gomes Feldman e William Silva Ferreira foram alvo de busca e apreensão e estão proibidos de deixar o Brasil, evidenciando a gravidade das acusações.
O Contrato de Wi-Fi Livre e Histórico de Controvérsias
O programa Wi-Fi Livre, que visa democratizar o acesso à internet em São Paulo, é um serviço de grande relevância social. No entanto, o contrato sob investigação com o ICB, no valor de R$ 157 milhões, agora se vê no centro de um escândalo de corrupção. A conexão com o filme Dark Horse, que teria como um dos alvos o ex-presidente Jair Bolsonaro e o ex-secretário de Cultura Mario Frias, adiciona uma camada política à apuração.
Não é a primeira vez que o programa de Wi-Fi público na capital paulista enfrenta controvérsias. A gestão municipal anterior, do ex-prefeito Fernando Haddad, também teve seu contrato de 2014 julgado irregular pelo Tribunal de Contas do Município (TCM-SP) devido a falhas de autenticação, monitoramento e qualidade do serviço. Naquela época, o custo de manutenção por ponto de Wi-Fi era significativamente maior, chegando a R$ 8.899,13, em contraste com os R$ 1.280,80 atuais.
As Respostas dos Citados e a Posição da Gestão Municipal
Diante da operação, as defesas dos envolvidos se manifestaram. A defesa de Karina da Gama informou ter ajuizado uma reclamação constitucional perante a Presidência do STF, afirmando que a cliente estava cooperando voluntariamente com a investigação, tendo entregue mais de 20 mil laudas de documentos. A defesa insiste na garantia do devido processo legal e na competência do juiz natural.
A empresa Complexys, por sua vez, declarou que a operação da Polícia Federal comprovará que os recursos recebidos foram utilizados exclusivamente na manutenção da rede de Wi-Fi em São Paulo, sem qualquer vínculo com o financiamento do filme Dark Horse. A empresa menciona uma perícia independente que já teria comprovado a ausência de relação com a produtora Go UP.
A Prefeitura de São Paulo, sob a gestão de Ricardo Nunes (MDB), repudiou qualquer tentativa de associar projetos municipais à produção cinematográfica, reiterando que a obra não recebeu recursos da prefeitura. A administração municipal afirmou que a assinatura e execução do termo de colaboração com o ICB não apresentam irregularidades identificadas e que o Programa Wi-Fi Livre segue em pleno funcionamento, com 3.200 pontos instalados e mais de 760 milhões de acessos registrados, conforme pode ser verificado em wifilivrecomunidades.org/sp. A Controladoria Geral do Município (CGM) acompanha as investigações desde as primeiras denúncias e instaurou procedimento em maio de 2026, que segue em andamento.
A investigação da Polícia Federal continua em curso, e o M1 Metrópole seguirá acompanhando de perto os desdobramentos deste caso que envolve vultosos recursos públicos e levanta questões sobre a transparência e a fiscalização de contratos na maior cidade do país. Para ficar por dentro de todas as atualizações e análises aprofundadas sobre este e outros temas relevantes, continue acessando nosso portal e confira nossa variedade de informações contextualizadas e de qualidade.