O impacto silencioso da transição hormonal
As transformações que elevam o risco de doenças cardíacas entre as mulheres não aguardam a menopausa para se manifestar. É na perimenopausa, o período de transição que antecede a última menstruação, que o organismo feminino começa a emitir sinais discretos, mas significativos, sobre a saúde do coração. Alterações como o ganho sutil de gordura abdominal, a piora nos níveis de colesterol e pequenas oscilações na pressão arterial são indicadores que merecem atenção redobrada durante essa fase.
O debate sobre o tema ganha relevância especial no Dia Mundial do Coração, celebrado em 29 de setembro. Estudos recentes reforçam que o período exige um olhar clínico mais atento, já que as mudanças metabólicas iniciadas nesta etapa podem pavimentar o caminho para complicações futuras se não forem monitoradas adequadamente.
Subdiagnóstico e o desafio do tratamento
Um posicionamento da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), divulgado em 2025, aponta que as doenças cardiometabólicas em mulheres ainda são frequentemente subdiagnosticadas e subtratadas. O cenário é preocupante: dados do Ministério da Saúde confirmam que as doenças cardiovasculares representam a principal causa de morte entre o público feminino no Brasil, superando inclusive a incidência de diversos tipos de câncer.
A percepção tardia dos sintomas é um dos maiores obstáculos. Enquanto o infarto é classicamente associado a uma dor aguda no peito que irradia para o braço, em mulheres, o quadro pode ser atípico. Manifestações como cansaço extremo, náuseas, suor frio e dores no estômago são comuns, mas muitas vezes acabam sendo confundidas com crises de ansiedade ou distúrbios gástricos, o que retarda o diagnóstico e o atendimento de emergência.
A biologia por trás da mudança
O estrogênio desempenha um papel fundamental na proteção vascular, na regulação do metabolismo do colesterol e na distribuição de gordura corporal. Segundo Carlos Japhet, presidente do Departamento da Mulher da SBC, a oscilação na produção desse hormônio durante a perimenopausa altera o perfil lipídico e favorece o acúmulo de gordura na região abdominal, um fator de risco direto para o coração.
A ginecologista Lucia Helena Paiva, presidente da Comissão Nacional Especializada em Climatério da Febrasgo, reforça que o processo é gradual. O ganho de peso moderado e as leves subidas na pressão arterial, embora pareçam inofensivos à primeira vista, funcionam como um alerta. “Não são sinais de doença cardiovascular estabelecida, mas indicam que o corpo está mudando e que é preciso intervir para evitar a evolução para hipertensão ou obesidade”, explica a especialista.
O risco crescente na faixa dos 45 aos 55 anos
A gravidade do problema é corroborada por pesquisas acadêmicas. Um estudo da PUC do Paraná, também publicado em 2025, demonstrou que mulheres entre 45 e 55 anos apresentam um risco de morte pós-infarto superior ao de homens na mesma faixa etária. Esse dado reforça a necessidade de que o acompanhamento médico seja preventivo e personalizado, levando em conta o histórico gestacional e o estilo de vida de cada paciente.
A conscientização sobre essas mudanças é o primeiro passo para a prevenção. O M1 Metrópole segue acompanhando os desdobramentos sobre saúde da mulher e inovações na cardiologia preventiva. Continue conosco para se manter informado com conteúdos que priorizam a precisão, a relevância e o compromisso com a sua qualidade de vida.