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Fifa impõe pausas obrigatórias na Copa do Mundo apesar de alertas de jogadores e cientistas

Paul Childs/Reuters
Paul Childs/Reuters

A Copa do Mundo de 2026, que já se desenrola com intensas disputas em campo, trouxe à tona uma das maiores controvérsias desta edição: a implementação das pausas obrigatórias para hidratação. A decisão da Federação Internacional de Futebol (Fifa) de instituir dois “cooling breaks” de três minutos em cada partida tem gerado um debate acalorado entre treinadores, jogadores e torcedores, mas, sobretudo, levanta questionamentos sobre a priorização da saúde dos atletas frente a interesses comerciais. A medida foi adotada apesar de alertas e recomendações de entidades representativas dos jogadores e de um painel internacional de cientistas.

A voz dos atletas e da ciência ignorada

Em agosto do ano passado, o Fifpro, sindicato internacional de jogadores, divulgou os resultados de um estudo aprofundado, realizado em parceria com sua contraparte portuguesa e a federação de futebol local. A pesquisa detalhava os impactos do calor extremo na performance e na saúde dos atletas, reforçando uma antiga recomendação à Fifa para que revisasse suas diretrizes de proteção. O objetivo era garantir condições adequadas para os profissionais em campo, mitigando riscos de exaustão e problemas de saúde relacionados ao calor.

Ainda em maio, um mês antes do pontapé inicial do Mundial, um grupo de 21 especialistas de renome global, abrangendo áreas como medicina do esporte, saúde pública, desempenho atlético e ciência do clima, publicou uma carta aberta direcionada à Fifa. O documento era categórico ao afirmar que as diretrizes existentes da entidade para lidar com o calor eram “totalmente inadequadas” e colocavam em risco a integridade física dos participantes da Copa do Mundo. A comunidade científica, portanto, já havia sinalizado a urgência de uma abordagem mais robusta e baseada em evidências.

As pausas obrigatórias em debate: campo e comércio

Desde o início do torneio, as pausas obrigatórias para hidratação se tornaram um ponto central de discussão. Enquanto alguns técnicos e atletas as veem como um alívio necessário em condições climáticas adversas, muitos outros as criticam veementemente, argumentando que quebram o ritmo do jogo e interferem na estratégia das equipes. Torcedores também expressam descontentamento, percebendo as interrupções como um elemento artificial que prejudica a fluidez das partidas.

Contudo, por trás da justificativa de proteção aos atletas, emerge uma dimensão comercial significativa. Estimativas apontam que a introdução dessas pausas obrigatórias pode gerar um ganho substancial para a Fifa, com a criação de 208 novas janelas publicitárias ao longo dos 104 jogos previstos para esta edição da Copa. Esse número levanta a suspeita de que os interesses financeiros possam ter tido um peso considerável na decisão, sobrepondo-se às preocupações levantadas por jogadores e cientistas.

Os parâmetros da Fifa e a crítica especializada

Ao anunciar a medida em dezembro, a Fifa defendeu sua escolha, explicando que o calendário de jogos foi elaborado com o intuito de “minimizar deslocamentos de equipes e torcedores”, “maximizar os dias de descanso” e “permitir que o maior público global possível acompanhe seus times”. A entidade afirmou que esse “processo complexo” envolveu uma “análise técnica de todas as sedes”, incluindo temperaturas médias e infraestrutura de climatização, além de debates internos com áreas como a médica, de transmissão e de venda de ingressos.

No entanto, a justificativa da Fifa não convenceu os especialistas. Douglas Casa, fisiologista americano e professor emérito do Departamento de Cinesiologia da Universidade de Connecticut, um dos signatários da carta aberta, expressou à Folha sua preocupação. Para ele, “não há necessidade de pausas para hidratação em todos os jogos em locais fechados com controle térmico nem naqueles em que a temperatura não ultrapasse 26°C ou 28°C”. Casa enfatiza que tais interrupções “alteram o ritmo da partida” e “só devem ser adotadas quando estritamente necessárias por questões de segurança e desempenho”.

Impacto na saúde dos jogadores e no ritmo do jogo

A principal crítica dos especialistas reside na generalização da medida. A Fifa instituiu as pausas como obrigatórias, independentemente das condições climáticas específicas de cada jogo. Douglas Casa aponta que o parâmetro geral da Fifa para calor – uma pausa de três minutos caso o índice WBGT (Wet-Bulb Globe Temperature) ultrapasse 32°C – é “totalmente inadequado”. O WBGT é uma medida que combina temperatura do ar, umidade, velocidade do vento e radiação solar, sendo considerado um indicador mais preciso do estresse térmico em atletas do que apenas a temperatura ambiente.

A imposição de pausas em jogos onde o calor não representa um risco iminente não apenas desconsidera a ciência, mas também pode ter efeitos indesejados no espetáculo. O futebol é um esporte de ritmo e fluidez, e interrupções programadas podem quebrar a intensidade do jogo, afetando a performance dos atletas e a experiência dos torcedores. A preocupação com a saúde dos jogadores é legítima e crucial, mas a forma como a Fifa optou por abordá-la, ignorando pareceres técnicos e sindicais, levanta dúvidas sobre a real eficácia e a motivação por trás da decisão. A integridade do esporte e o bem-estar dos atletas deveriam ser prioridades inegociáveis, pautadas por evidências científicas e diálogo com os envolvidos. Para mais informações sobre o impacto do calor no esporte, consulte estudos da American College of Sports Medicine.

A polêmica em torno das pausas obrigatórias na Copa do Mundo de 2026 ilustra um dilema persistente no esporte de alto rendimento: como equilibrar a saúde e segurança dos atletas com os imperativos comerciais e a dinâmica do jogo. A decisão da Fifa, ao desconsiderar as recomendações de sindicatos de jogadores e de um painel de cientistas, reacende o debate sobre a governança do futebol mundial e a transparência em suas escolhas. Para entender como essa e outras questões impactam o cenário esportivo e social, continue acompanhando as análises aprofundadas e as últimas notícias no M1 Metrópole, seu portal de informação relevante e contextualizada.

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