A tranquilidade da Riviera de São Lourenço, um dos mais exclusivos balneários do litoral paulista, foi abalada por uma investigação que expõe a profunda infiltração do crime organizado em esferas aparentemente distantes de sua atuação tradicional. Uma casa de luxo avaliada em R$ 2 milhões, localizada neste condomínio de alto padrão em Bertioga, tornou-se o epicentro de uma disputa que, surpreendentemente, foi parar nas mãos do Primeiro Comando da Capital (PCC), a maior facção criminosa do país. A revelação veio à tona com a Operação Janus, deflagrada nesta terça-feira (21) pelo Ministério Público de São Paulo, que resultou na prisão de ao menos 13 pessoas e desvendou um complexo esquema de lavagem de dinheiro e o uso de um “tribunal do crime” para resolver conflitos comerciais.
A investigação aponta que um empresário, um dos principais alvos da operação, teria recorrido voluntariamente a esse mecanismo paralelo de “justiça” da facção para solucionar um impasse financeiro envolvendo a venda do imóvel. O caso ilustra a ousadia e a capilaridade do PCC, que não apenas atua no tráfico de drogas e armas, mas também se estabelece como uma espécie de “estado paralelo”, oferecendo “serviços” de resolução de conflitos a quem busca alternativas à Justiça formal, mesmo que isso signifique se submeter às suas regras e hierarquia.
Operação Janus: o cerco ao crime organizado e seus tentáculos
A Operação Janus, conduzida pelo Ministério Público de São Paulo, teve como objetivo desarticular uma rede de financiamento do PCC e suas conexões com o mundo empresarial. No total, 13 pessoas foram presas, sendo 11 em novas ações e duas que já estavam sob custódia. Contudo, cinco investigados permanecem foragidos, entre eles Leonardo Meirelles, que já era procurado em outras operações. A Justiça decretou a prisão preventiva de nove indivíduos diretamente ligados à disputa pela casa na Riviera, incluindo os empresários envolvidos, intermediários e figuras apontadas como lideranças da facção.
As prisões e apreensões são fruto de uma minuciosa análise de celulares e outros dispositivos eletrônicos, que revelaram a teia de contatos e a dinâmica de atuação do grupo. A operação lança luz sobre como a facção consegue expandir sua influência para além dos presídios e das periferias, alcançando setores da sociedade que, a princípio, deveriam estar distantes do submundo do crime. A atuação do PCC, que se estende por diversas regiões do Brasil, tem sido objeto de inúmeras investigações que revelam sua capacidade de operar como uma verdadeira organização criminosa complexa.
A disputa milionária pela casa na Riviera de São Lourenço
O cerne do conflito que atraiu a atenção do PCC é a negociação de uma residência de alto padrão na Riviera de São Lourenço. De um lado, o empresário Cléber Azevedo dos Santos, apontado como vendedor do imóvel. Do outro, Marcelo de Morais Oliveira, identificado como o comprador. A disputa girava em torno do pagamento de R$ 2 milhões referentes à transação.
Segundo o Ministério Público, o impasse extrapolou as negociações comerciais e, em determinado momento, foi levado para a alçada de integrantes do PCC. Tanto Cléber quanto Marcelo estão entre os investigados que tiveram a prisão preventiva decretada na Operação Janus, evidenciando a gravidade de suas participações no imbróglio e a seriedade das acusações de envolvimento com a facção.
O “tribunal do crime” entra em cena
A investigação detalha como a disputa pela casa foi submetida ao sistema paralelo do PCC. Cléber Azevedo dos Santos teria contado com a ajuda de Antonio Carlos Ubaldo Júnior e Marlon Antonio Fontana – ambos também alvos de prisão preventiva e já denunciados na Operação Bazaar – para se aproximar de membros da facção. Entre esses contatos estava Leonardo Monteiro Moja, conhecido como Léo do Moinho, apontado pelo MP como uma das lideranças do PCC e também com prisão decretada.
Em maio de 2023, uma reunião na Zona Sul de São Paulo foi realizada para discutir o impasse. Cléber relatou a um interlocutor ter participado do encontro, onde Marcelo de Morais Oliveira compareceu acompanhado de outros faccionados, em uma aparente tentativa de intimidação. Como não houve acordo, o caso foi encaminhado para o “resumo de SP”, uma expressão que, para os investigadores, se refere ao sistema interno do PCC para a resolução de conflitos entre pessoas ligadas à organização.
Evidências e a submissão às “ideias do comando”
As provas coletadas são contundentes. Um grupo de WhatsApp intitulado “Assunto Pertinente a casa Riviera” foi encontrado, contendo gravações em áudio do suposto “tribunal do crime”. Os investigadores identificaram nas gravações a participação de lideranças da facção, como um homem conhecido como “Zoio” e Antonio Carlos Sampaio, o “Compadre” ou “Kaka”, já condenado por organização criminosa. Mensagens indicam que “Compadre” chegou a manifestar disposição para manter pessoas envolvidas na disputa em cativeiro.
Cléber, em mensagens analisadas, referia-se a integrantes do PCC como “irmãos” e a Marcelo como “companheiro” da organização, agradecendo pela atenção recebida. Embora afirmasse não ser um membro formal da facção, o Ministério Público sustenta que ele se submetia às regras e à hierarquia do grupo. Essa não seria a primeira vez que Cléber buscava a facção para resolver uma disputa privada; ele já havia recorrido ao PCC em um conflito anterior envolvendo a aquisição de um galpão na Zona Leste de São Paulo, do qual também eram sócios Leonardo Meirelles e Raphael Flores Rodriguez.
Os desdobramentos da investigação e os envolvidos
Um encontro presencial para tratar do caso foi identificado em novembro de 2023, com o endereço compartilhado por Cléber com Antonio Carlos Ubaldo Júnior, Antonio Carlos Sampaio, Danillo Vinicius da Silva Rosário e André de Souza Haddad, conhecido como “Minhoca”, outro investigado com histórico criminal. Antonio Carlos Ubaldo Júnior é apontado como o responsável por aproximar Cléber de Léo do Moinho, que teria usado sua posição dentro do PCC para intervir na disputa.
A lista dos que tiveram a prisão preventiva decretada inclui Cléber Azevedo dos Santos, Antonio Carlos Ubaldo Júnior, Marlon Antonio Fontana, Leonardo Monteiro Moja, André de Souza Haddad, Antonio Carlos Sampaio, Alexandre Viriato da Silva, Danillo Vinicius da Silva Rosário e Marcelo de Morais Oliveira. Todos, em diferentes graus, participaram das negociações, da intermediação com o PCC ou do próprio “tribunal do crime” que teria analisado o conflito. A Operação Janus continua a desvendar a complexa rede que conecta o crime organizado a transações financeiras e disputas que deveriam ser resolvidas pela Justiça, mas que, na prática, acabam submetidas a um sistema paralelo e violento.
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