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Prefeitura de SP aponta R$ 16,5 milhões em notas irregulares de ONG ligada a filme sobre Bolsonaro

Foto: Montagem/g1/Reprodução/Redes Sociais
Foto: Montagem/g1/Reprodução/Redes Sociais

Uma investigação sobre a gestão de recursos públicos na capital paulista revelou um cenário de inconsistências contábeis envolvendo o Instituto Conhecer Brasil. A entidade, que mantém um contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo para a implementação de pontos de wi-fi gratuitos na periferia, apresentou ao menos R$ 16,5 milhões em documentos fiscais considerados irregulares durante sua prestação de contas à gestão de Ricardo Nunes (MDB).

Irregularidades em documentos e notas canceladas

O levantamento, que analisou os registros entregues pela ONG, identificou o uso de notas fiscais que já haviam sido canceladas no sistema oficial da administração municipal. Em um dos casos, uma nota de R$ 2 milhões emitida pela empresa Complexsys Soluções Integradas Ltda. foi incluída na prestação de contas, apesar de ter sido cancelada no mesmo dia de sua emissão, em 6 de novembro de 2025.

Além das notas canceladas, a prestação de contas incluiu faturas sem valor fiscal para justificar despesas milionárias. A empresa Make One Tecnologia Digital Ltda., por exemplo, foi contratada para locação de equipamentos, mas os gastos de R$ 8,5 milhões foram comprovados apenas por faturas que não passaram pelo sistema de nota fiscal eletrônica, impossibilitando o recolhimento de impostos e a validação legal da despesa.

Autocontratação e pareceres técnicos

A análise da documentação revelou ainda uma prática incomum: a emissão de notas fiscais pelo próprio Instituto Conhecer Brasil contra si mesmo. Segundo parecer da Secretaria Municipal de Tecnologia, datado de 26 de fevereiro de 2026, a entidade apresentou ao menos três notas nessa modalidade, somando mais de R$ 1,4 milhão. O documento técnico assinado pelos diretores da pasta classificou a ação como indevida e apontou a existência de pagamentos em duplicidade.

Apesar das ressalvas técnicas, a Secretaria de Tecnologia optou por aprovar a prestação de contas sob a condição de restituição de valores. A gestão municipal informou que a ONG devolveu cerca de R$ 930 mil, o que permitiu a continuidade do contrato para a instalação dos pontos de internet restantes.

Conexões políticas e desdobramentos

A presidente do instituto, Karina Ferreira da Gama, também é proprietária da produtora responsável por um filme biográfico sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), projeto que conta com o deputado federal Mário Frias como roteirista e produtor-executivo. A relação entre a empresária e o parlamentar é alvo de investigações, incluindo um inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a destinação de cerca de R$ 2 milhões em emendas parlamentares para o instituto.

O cenário é agravado por contratos com empresas cujos sócios enfrentam problemas com a justiça. É o caso da Favela Conectada Serviço e Tecnologia Ltda., que possui um contrato de R$ 12 milhões com a ONG e cujo proprietário, Alex Leandro Bispo dos Santos, está preso sob acusação de feminicídio. A Complexsys, outra prestadora de serviços do instituto, também possui vínculos com o gabinete de Mário Frias. Karina Gama afirmou desconhecer os cancelamentos das notas e declarou que as inconsistências estão em processo de correção.

O M1 Metrópole segue acompanhando os desdobramentos desta investigação e os próximos passos dos órgãos de controle sobre a execução deste contrato milionário. Continue conosco para se manter informado sobre a gestão pública e os temas que impactam o cotidiano da cidade.

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