Rodrigo Antonio — Raio X Pesquisas
Felipe Nunes, da Quaest, publicou ontem um artigo honesto. Honesto porque diz, com todas as letras, que não acredita que a abstenção cairá o bastante para produzir uma virada, e que a chance de Lula estaria em outro lugar: nos brancos e nulos, como em 2014, quando Dilma converteu quase 4 milhões de votos anulados em votos válidos e virou sobre Aécio na última semana. Concordo com o diagnóstico dos três fluxos. Discordo da conclusão, e a discordância nasce de algo que o agregado de pesquisas mostra e que nenhuma pesquisa isolada consegue mostrar.
Acompanhamos 14 institutos e 30 rodadas de pesquisa de segundo turno desde 8 de outubro. O retrato consolidado é conhecido: Flávio à frente em 12 delas, Datafolha empatado em 50 a 50, Vox com Lula na frente por 1,2 ponto, e 11 dos 14 institutos dentro da margem de erro. A mediana da vantagem de Flávio em votos válidos é de 2,0 pontos. Nas urnas de 4 de outubro foi de 1,9. Duas semanas de campanha, um debate, quase trinta medições, e o número que sai do outro lado é o mesmo que entrou.
É aqui que a dúvida legítima aparece, e ela me foi colocada por um leitor atento: se os eleitores de Cury, Caiado e Renan migraram majoritariamente para Flávio, como todas as pesquisas registram, por que a vantagem dele não cresceu? A conta é simples e vale fazer em voz alta. Flávio teve 56,1 milhões de votos, Lula 53,9. Se cada um mantivesse os seus e os 9,3 milhões de votos de terceiros se dividissem como Datafolha (46 a 32) ou Quaest (43 a 37) medem, Flávio ganharia algo entre 0,6 e 1,3 milhão de votos líquidos e a diferença iria para perto de 3 pontos. As pesquisas mostram 2. Falta explicar um milhão de votos.
A própria Quaest explica. A retenção de 95% de Lula contra 94% de Flávio parece simétrica, mas sobre bases de 54 e 56 milhões devolve 600 mil votos a Lula. E o terceiro fluxo de Nunes, o dos 33,4 milhões que não compareceram em outubro, divide-se 40 a 36 para Lula, o que soma 1,3 milhão a favor dele. Somando os três movimentos, o resultado é Flávio com 69,0 milhões e Lula com 67,7, ou 50,5 a 49,5. A Quaest publicou 50,6 a 49,4. A pesquisa está coerente consigo mesma: o ganho de Flávio com os terceiros é anulado pelo que Lula recupera entre os ausentes.
“Então, onde está a falha na Matrix? Nenhuma pesquisabrasileira advinha o future e separa quem vai votar de quem nãovai. O universo é o eleitor de 16 anos ou mais, a ponderação é por sexo, idade, escolaridade e região, e quem faltou em 4 de outubro responde com o mesmo peso de quem compareceu. O ausente que a pesquisa alcança, porém, é uma fração do ausentereal: a Veritá encontra 6% que admitem ter faltado, contra 21% nas urnas, e esse que aparece é o que atende o telefone e diz que desta vez vai. O ausente típico não está na pesquisa nem emsimulação nenhuma. O que isso significa é que o empate técnicodas pesquisas descreve um eleitorado mais mobilizado do que o de outubro; se domingo repetir outubro, a conta que vale é a da urna, e ela favorece Flávio.”
Isso abre duas eleições possíveis e inverte a direção do risco. Se a abstenção repetir os 21% do primeiro turno e os mesmos 33 milhões ficarem em casa, sobra o fluxo dos terceiros, e o resultado real tende a 3 ou 3,5 pontos para Flávio, mais folgado do que o empate técnico das pesquisas sugere. Se os ausentes voltarem, as pesquisas acertam e a disputa se decide no detalhe. Nunes, com razão, não aposta na primeira hipótese. Mas a consequência disso é que o empate técnico das pesquisas é o teto de Lula, não o piso.
Há um segundo sinal, que aparece quando se olha uma amostra grande por dentro. A Veritá, com 15 mil entrevistas por robô de voz, encontra 4,8% de eleitores que declaram ter votado em Cury, Renan ou Caiado, contra 7,8% reais, e 6% que admitem ter faltado, contra 21% reais. Os dois grupos que mais ajudam Flávio, o migrante de terceiros, e o que mais ajuda Lula, o ausente, estão ambos subrepresentados, mas o primeiro é subrepresentado em um terço e o segundo em dois terços. O ausente que atende ao telefone e admite não ter votado é o ausente engajado, não o típico. É exatamente esse grupo que, na Veritá, dá 56 a 36 para Lula e produz o único cenário da semana em que ele vira. Não acredito nesse número pelo mesmo motivo que Nunes não acredita na queda da abstenção: ele descreve quem respondeu, não quem vai votar.
Resta o argumento dos brancos e nulos, que é o coração do artigo de Nunes. Em 2014 funcionou porque eram 4 milhões de votos anulados que migraram quase inteiramente para um lado. Em 2026, o primeiro turno teve 5,8 milhões de brancos e nulos, e as pesquisas desta semana registram entre 1% e 6% de intenção de branco e nulo no segundo. O problema é que o recorte da Quaest junta ausentes e brancos/nulos no mesmo grupo de 40 a 36. Se os brancos e nulos se comportam como esse grupo, cada 4 milhões convertidos rendem a Lula 160 mil votos líquidos, nada perto dos 2 milhões de que ele precisa. Para o caminho de 2014 se repetir, o eleitor de branco e nulo teria de se comportar de modo radicalmente diferente do ausente com quem a pesquisa o agrupa, algo como 65 a 35, e nenhuma pesquisa publicada mediu isso em separado. A pesquisa de sábado da Quaest, que Nunes promete com os três fluxos abertos, é a única chance de ver esse número antes das urnas.
A pergunta que fica para quem decide nas últimas 48 horas é menos “quem está na frente” e mais “qual dos dois grupos invisíveis é mais real”: o ausente que diz à pesquisa que vai votar em Lula, ou o eleitor de Caiado e Renan que a amostra enxerga pela metade. Se for o primeiro, a eleição é de um ponto e cabe inteira dentro da mobilização de domingo. Se for o segundo, as pesquisas estão subestimando Flávio pela terceira eleição seguida, e desta vez com o eleitor de terceiros, não com o bolsonarista envergonhado, como explicação.
Dados: resultado oficial do 1º turno (TSE); Quaest 21/10 (retenção, transferência por candidato, recorte de ausentes); Datafolha 13 e 22/10; Veritá BR-06396/2026; agregado Raio X Pesquisas de 14 institutos e 30 rodadas, 08 a 23/10/2026.