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Neurociência e peregrinação: o que Santiago de Compostela revela sobre a mente humana

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Reprodução Folha

A jornada científica em direção a um destino milenar

A neurocientista Suzana Herculano-Houzel, pesquisadora da Universidade Vanderbilt, nos Estados Unidos, protagonizou recentemente uma jornada que une o rigor acadêmico à experiência humana de deslocamento. Após participar de uma conferência em Bilbao, na Espanha, a cientista decidiu percorrer a costa noroeste do país em direção ao norte de Portugal. No trajeto, um ponto de parada tornou-se inevitável: a histórica cidade de Santiago de Compostela.

Conhecida mundialmente como o destino final de uma das mais antigas rotas de peregrinação cristã, a cidade abriga uma catedral que atrai dezenas de milhares de visitantes anualmente. Para a neurocientista, contudo, o interesse pelo local não reside na fé religiosa, mas na observação comportamental e neurológica dos indivíduos que ali chegam após jornadas exaustivas sob o sol espanhol.

O fenômeno da euforia após o esforço físico

Ao observar os caminhantes reunidos na praça da catedral, Herculano-Houzel identifica um padrão claro de euforia coletiva. A conclusão de uma longa jornada, marcada pelo desgaste físico, desencadeia uma resposta cerebral que valoriza os prazeres imediatos. O alívio após o esforço, traduzido em pequenos atos como o consumo de uma bebida gelada ou o descanso merecido, é um reflexo da busca humana por recompensas após a superação de desafios.

Essa análise dialoga com o que a ciência compreende sobre o sistema de recompensa do cérebro. A peregrinação, independentemente do credo, funciona como um ritual que organiza a experiência humana, permitindo que o indivíduo ressignifique o cansaço e a dor em um sentimento de conquista e pertencimento.

A busca pela absolvição sob a ótica da neurociência

Um dos pontos centrais da reflexão da pesquisadora é o conceito de absolvição. Enquanto a tradição religiosa promete o perdão dos pecados ao final do caminho, a neurociência busca entender como o cérebro processa o perdão. Em consultas ao PubMed, a cientista aponta que a literatura acadêmica é vasta sobre o ato de perdoar o próximo — processo que envolve empatia e a redução de impulsos de retaliação —, mas escassa sobre a experiência de ser perdoado.

A reflexão avança para o campo da autoabsolvição. Segundo a autora, estudos anatômicos indicam que regiões cerebrais ligadas à ruminação e à culpa são ativadas em momentos de conflito interno. A conclusão é que a verdadeira absolvição é um processo íntimo: a capacidade de o cérebro ser caridoso consigo mesmo, permitindo que o indivíduo supere a culpa e volte a enxergar perspectivas positivas no futuro.

Compreensão e ressignificação da jornada

A experiência de Suzana Herculano-Houzel em Santiago de Compostela serve como um convite para pensarmos sobre como lidamos com nossas próprias “pedras no caminho”. Seja por meio de rituais religiosos, terapia ou reflexões pessoais, o objetivo final parece ser o mesmo: a busca por um estado mental que permita a superação de traumas e a renovação da esperança.

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