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Movimento Custo de Vida completa 50 anos e Colégio Santa Maria celebra legado de resistência

Letícia Dauer/g1
Letícia Dauer/g1

Há exatos 50 anos, o Colégio Santa Maria, uma instituição tradicional da Zona Sul de São Paulo, abriu suas portas para a histórica Assembleia do Povo. Este encontro, que reuniu cerca de 5 mil integrantes do Movimento Custo de Vida (MCV) em plena ditadura militar, marcou um capítulo fundamental na luta por direitos e melhores condições de vida no Brasil. Neste sábado (20), o colégio volta a ser palco de um ato comemorativo, reunindo participantes históricos, familiares e ativistas para relembrar e celebrar essa importante mobilização.

A programação do evento inclui uma roda de conversa com lideranças do MCV, a instalação de uma placa comemorativa e uma apresentação do Grupo de Teatro da Vila Remo. O local escolhido é o mesmo amplo corredor que, em 1976, conectava as salas de aula à capela da escola, testemunhando as discussões e a efervescência de um movimento que teve como protagonistas mulheres das periferias paulistanas.

Movimento Custo de Vida: A Gênese da Mobilização Popular

O Movimento Custo de Vida emergiu em meados da década de 1970, com suas raízes fincadas nos bairros do Jardim Ângela e M’Boi Mirim, no extremo Sul da capital paulista. Diferente dos movimentos estudantis e sindicais, frequentemente associados à resistência contra a ditadura, o MCV nasceu da organização de donas de casa, em sua maioria mulheres negras, ligadas às comunidades eclesiais de base da Igreja Católica.

Essas mulheres, muitas das quais nunca haviam participado ativamente da vida política, encontraram nos Clubes de Mães um espaço para além do crochê e do tricô. Ali, compartilhavam suas preocupações com a crescente carestia e a precariedade dos serviços públicos em seus bairros, que sofriam com a falta de escolas, transporte, iluminação, saneamento básico e saúde.

Através de pesquisas de porta em porta, elas identificaram a alta do preço dos alimentos da cesta básica como a principal angústia das famílias periféricas. Esse diagnóstico culminou na elaboração de uma carta das “mães da periferia”, que denunciava a carestia e chegou a ser lida no programa de rádio “A Voz do Brasil”, impulsionando uma campanha massiva de coleta de assinaturas em feiras, praças e igrejas.

Colégio Santa Maria: O Refúgio e o Palco da Resistência

A escolha do Colégio Santa Maria para sediar a Assembleia do Povo não foi aleatória. A instituição, fundada pela Congregação das Irmãs da Santa Cruz, era conhecida por seu apoio a causas progressistas. Entre as décadas de 1970 e 1980, as religiosas acolheram dezenas de perseguidos políticos, inclusive estrangeiros, oferecendo refúgio nas casas das freiras localizadas no mesmo terreno do colégio.

A pedagoga Luciana Dias, filha de Ana Dias, uma das lideranças do MCV, e do operário Santo Dias da Silva (assassinado pela ditadura em 1979), lembra-se de brincar pelos corredores do colégio aos 8 anos, enquanto seus pais organizavam o evento. A estrutura física do colégio e a postura progressista das irmãs Ana Maria Batista e Ruth Evelyn, ligadas às comunidades eclesiais de base, tornaram o espaço ideal para uma assembleia de tamanha magnitude, facilitando o acesso de moradores da Zona Sul.

A Força Feminina da Periferia e a Luta contra a Carestia

O Movimento Custo de Vida representou uma forma de resistência popular muitas vezes invisibilizada nas narrativas oficiais da ditadura. As “donas de casa de uma coragem ímpar”, como descreve Luciana Dias, demonstraram que a política não se restringia aos espaços tradicionais, mas brotava da vida cotidiana e das necessidades mais urgentes da população. A mobilização em torno da carestia, um problema que afetava diretamente a subsistência das famílias, uniu milhares de pessoas em um objetivo comum.

O auge do movimento foi alcançado em 1978, quando o abaixo-assinado contra o alto custo de vida reuniu impressionantes 1,3 milhão de assinaturas. No mesmo ano, mais de 20 mil pessoas participaram de uma manifestação na Praça da Sé, em São Paulo. Embora tenha começado pacificamente, com cantos e palavras de ordem, a concentração foi brutalmente reprimida por agentes do regime militar, resultando em bombas de gás lacrimogêneo, prisões e dezenas de feridos, evidenciando a coragem dos manifestantes e a truculência do regime.

Memória Viva: O Legado do Movimento para a Democracia Atual

Para participantes como a irmã Michael Nolan, advogada e defensora dos direitos humanos, relembrar a Assembleia do Povo é mais do que uma celebração; é um convite à reflexão sobre os desafios da democracia contemporânea. Em um tempo marcado pelo individualismo e pela polarização, a memória do MCV ressalta a importância da comunidade e do diálogo para a construção de consensos e o fortalecimento da participação popular.

Luciana Dias enfatiza que preservar essas histórias é um ato de resistência contra o apagamento de experiências de organização popular, garantindo que as novas gerações compreendam a profundidade e a diversidade da luta pela democracia no Brasil. O ato deste sábado no Colégio Santa Maria não é apenas uma volta ao passado, mas um reforço da relevância de um legado que continua a inspirar a busca por justiça social e equidade. Para mais informações sobre o período da ditadura militar no Brasil, você pode consultar fontes como o Memórias da Ditadura.

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