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Gordura abdominal e vitamina D: a dupla que eleva o risco de morte após os 50 anos

Gordura abdominal e vitamina D: a dupla que eleva o risco de morte após os 50 anos
10.out.21/AFP

Uma pesquisa recente acende um alerta importante para a saúde pública, especialmente entre a população com mais de 50 anos. O estudo, que acompanhou milhares de indivíduos, revelou que a combinação de obesidade abdominal e deficiência de vitamina D mais que dobra o risco de mortalidade. Esta descoberta sublinha a urgência de abordar essas duas condições de saúde, que, embora perigosas isoladamente, tornam-se exponencialmente mais arriscadas quando presentes em conjunto.

Os resultados, publicados em maio na prestigiada revista Diabetes, Obesity and Metabolism, indicam que pessoas com ambas as condições enfrentam um risco de morte 123% maior em comparação com aquelas que não apresentam nem excesso de gordura na região abdominal nem baixos níveis de vitamina D. Este dado reforça a necessidade de um olhar integrado para a saúde, onde diferentes fatores interagem e potencializam seus efeitos negativos.

A Perigosa Sinergia entre Obesidade e Deficiência

A obesidade abdominal é amplamente reconhecida como um fator de risco significativo para diversas doenças crônicas, estando associada a processos inflamatórios e problemas metabólicos que afetam o funcionamento do organismo. Paralelamente, a vitamina D, que na verdade funciona como um hormônio, desempenha papéis cruciais em múltiplos órgãos e sistemas, e sua deficiência compromete uma vasta gama de funções corporais essenciais.

De acordo com Tiago Silva Alexandre, professor do Departamento de Gerontologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e coordenador da pesquisa, a interação entre essas duas condições é particularmente preocupante. “Quando essas duas condições aparecem juntas, uma potencializa os efeitos da outra, elevando ainda mais o risco de morte”, explica o especialista. Ele enfatiza que o acompanhamento dos níveis de vitamina D e o tratamento do excesso de gordura abdominal são medidas preventivas cruciais para evitar mortes prematuras, especialmente após os 50 anos, período em que o corpo passa por transformações naturais.

O Estudo e Seus Alarmantes Dados

A pesquisa, financiada pela Fapesp e realizada em colaboração com cientistas da University College London, no Reino Unido, analisou dados de 5.520 pessoas com 50 anos ou mais ao longo de seis anos. Os participantes fazem parte do English Longitudinal Study of Ageing (ELSA), um dos maiores estudos longitudinais sobre envelhecimento no mundo, o que confere robustez e relevância aos achados.

Os dados coletados revelaram que a deficiência de vitamina D, definida por níveis abaixo de 30 nanomoles por litro de sangue, por si só já representa um risco de morte maior do que a obesidade abdominal isolada. Enquanto a obesidade abdominal, caracterizada por uma circunferência maior que 102 centímetros para homens e 88 centímetros para mulheres, aumenta o risco de morte em 47%, a deficiência de vitamina D pode elevar esse risco em até 81%. Contudo, é a combinação desses fatores que se mostra mais devastadora, duplicando o risco de mortalidade.

O Ciclo Vicioso e os Impactos Sistêmicos

Alexandre detalha que as duas condições criam um verdadeiro ciclo vicioso no organismo. A gordura abdominal tem a capacidade de “sequestrar” a vitamina D circulante, armazenando-a nos adipócitos, as células de gordura. Isso impede que a vitamina D seja liberada na corrente sanguínea para desempenhar suas funções vitais em outros órgãos e sistemas. Ou seja, mesmo que o corpo tenha reservas da vitamina, ela não está biodisponível para uso.

Além disso, pessoas com obesidade frequentemente apresentam uma menor expressão das enzimas necessárias para o metabolismo da vitamina D, o que reduz ainda mais sua disponibilidade. “A obesidade abdominal reduz a vitamina D circulante e essa deficiência, por sua vez, prejudica o sistema imunológico, agravando a inflamação crônica já causada pelo excesso de gordura e elevando drasticamente o risco de mortalidade”, explica Alexandre à Agência Fapesp.

O processo natural de envelhecimento é marcado por um estado de inflamação crônica de baixo grau, conhecido como inflammaging. Em condições normais, a vitamina D atua como um regulador do sistema imunológico, ajudando a controlar essa inflamação. Quando seus níveis estão baixos e há excesso de gordura abdominal, estabelece-se um ambiente sistêmico desfavorável que acelera o desenvolvimento de doenças cardiovasculares, metabólicas e a perda muscular, impactando diretamente a qualidade de vida e a longevidade.

A Importância do Acompanhamento e Prevenção

Este estudo é o mais recente de uma série de trabalhos que o grupo de pesquisa tem conduzido sobre o papel da vitamina D no envelhecimento. Pesquisas anteriores já haviam identificado um efeito em cascata, onde a deficiência de vitamina D leva à perda de força, redução da velocidade de caminhada e, consequentemente, maior perda de autonomia e dependência nas atividades diárias. Outro estudo do grupo também associou a deficiência de vitamina D ao aumento do risco de declínio cognitivo.

A vitamina D é um hormônio multifuncional, participando da regulação da pressão arterial, frequência cardíaca, sistema nervoso central, sistema imunológico e endócrino. A manutenção de níveis adequados é, portanto, fundamental para a saúde geral e para um envelhecimento mais saudável. Para mais detalhes sobre a pesquisa, o artigo completo pode ser acessado em Diabetes, Obesity and Metabolism.

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