A ascensão de um sonhador cearense
A história de Rosier Alexandre, aos 58 anos, é um testemunho de que a determinação pode romper as barreiras geográficas e sociais mais profundas. O montanhista, que nasceu em uma casa de taipa no interior do Ceará, viu sua trajetória ser imortalizada no documentário O Engraxate que Escalou o Everest, que estreia nesta quinta-feira (10) no Canal OFF. A obra, que já acumula reconhecimentos como o prêmio de Melhor Longa-Metragem Nacional no Festival Internacional YVY e o Troféu Corcovado no Rio Mountain Festival, narra como um menino do sertão se tornou o primeiro nordestino a atingir o cume da montanha mais alta do planeta.
O filme não se limita a registrar a conquista esportiva, mas mergulha na formação humana de Alexandre. Com filmagens realizadas em quatro países e três continentes, o longa mescla depoimentos de referências do montanhismo mundial com registros reais de expedições em condições extremas. Para o protagonista, o projeto é uma forma de compartilhar uma mensagem de resiliência: “Nasci em meio à escassez, na caatinga sertaneja, acreditando que o trabalho poderia me levar para uma vida diferente. Mas nunca imaginei que chegaria tão longe a ponto de minha história virar um filme”, relata.
O despertar para o mundo e a geografia
A origem do desejo de explorar o globo remonta à infância em Monsenhor Tabosa. Aos 9 anos, o contato com um estrangeiro trazido por um médico local foi o estopim para uma mudança de paradigma. Naquela época, o jovem Rosier, de origem indígena, ainda compreendia o mundo de forma limitada, acreditando que a Terra era plana e que o sol orbitava sua cidade natal. A explicação do médico sobre a esfericidade do planeta e a existência de outros países funcionou como uma revelação.
“Aquela chave que virou e me fez entender o tal mundo redondo fez nascer minha paixão. Em todos os meus escritórios e cômodos da minha casa, hoje, tenho um globo terrestre”, conta. A curiosidade infantil transformou-se em um propósito de vida, que o levou a buscar conhecimento e a planejar viagens que, anos depois, o colocariam diante dos maiores desafios naturais do mundo.
A virada de chave e o projeto dos sete cumes
A transição entre a infância no sertão e a vida de montanhista profissional não foi linear. Após estudar técnico agrícola em Fortaleza e enfrentar dificuldades financeiras e emocionais aos 28 anos, Alexandre decidiu resgatar o sonho de infância. Ele estabeleceu o audacioso projeto de escalar os sete cumes mais altos de cada continente. O processo exigiu mais de cinco anos de dedicação intensa, estudos teóricos e treinamento prático em escalada.
Quando anunciou publicamente seus planos em 2002, o montanhista enfrentou o ceticismo da imprensa local, que via a proposta como uma “maluquice”. No entanto, a persistência de Rosier provou que o planejamento e a disciplina podem superar a falta de tradição esportiva em regiões desfavorecidas. Sua jornada serve hoje como um símbolo de que o acesso à informação e a coragem de sonhar são ferramentas poderosas de transformação social.
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