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Medo de assédio: homens relatam receio ao abordar mulheres em meio a novas dinâmicas sociais

Rafaela Araújo/Folhapress
Rafaela Araújo/Folhapress

Em um cenário de profundas transformações nas relações de gênero, uma preocupação crescente tem sido expressa por homens: o receio de abordar mulheres por medo de serem acusados de assédio. Essa percepção, amplificada pelas redes sociais, reflete uma complexa redefinição das interações sociais e da etiqueta do flerte, gerando debates e desorientação sobre os limites do consentimento e do respeito mútuo.

A discussão ganhou visibilidade com comentários em publicações online, como a de um vídeo do influenciador e humorista Yuri Viana, 28. No conteúdo, que encena um encontro amoroso, enquanto o personagem masculino hesita em se aproximar, a personagem feminina expressa o desejo de ser beijada. As respostas ao vídeo foram inundadas por relatos masculinos sobre a dificuldade de tomar iniciativa, com muitos afirmando que “tudo virou assédio” nos dias atuais.

O debate nas redes sociais e a percepção masculina

A frase “tudo virou assédio” tornou-se um bordão recorrente em plataformas digitais, bares e clubes, onde homens expressam frustração e confusão sobre como interagir com mulheres sem cruzar a linha do desrespeito. Essa reação motivou Yuri Viana a criar conteúdo focado em diferenciar flerte de assédio, utilizando humor e leveza para compartilhar dicas básicas, como a importância de não insistir após um “não” e evitar constrangimentos.

“Tento mostrar que existem formas respeitosas de abordagem e que o ‘não’ faz parte”, afirmou Yuri à Folha, destacando que seu trabalho tem ajudado alguns a compreenderem melhor os limites. Ele ressalta, contudo, que a mudança é um processo gradual e não universal.

A resistência às mudanças nas relações de gênero

Para a advogada Marina Ganzarolli, presidente do Me Too Brasil, o discurso de que “tudo virou assédio” não é um fenômeno recente, mas ganhou maior ressonância com a proliferação das redes sociais. Ela interpreta essa narrativa como uma forma de resistência às necessárias evoluções na estrutura das relações de gênero, que historicamente foram marcadas por dinâmicas de controle e poder.

Ganzarolli enfatiza que a dificuldade em reconhecer e se adaptar a essas mudanças pode gerar desconforto. Além disso, a advogada aponta para a carência de referências e modelos de masculinidade que não estejam atrelados à ideia de controle ou insistência, dificultando a adaptação de homens e meninos a novas formas de interação.

Desorientação masculina e a busca por novos modelos

A psicanalista Luciana Saddi, da Sociedade Brasileira de Psicanálise em São Paulo, corrobora a análise de que os homens se encontram desorientados diante das transformações sociais e das relações de gênero. Segundo Saddi, o modelo tradicional de masculinidade, que historicamente se baseou na autoridade e no papel de provedor, já não serve como referência única, deixando muitos sem um guia claro de comportamento.

Embora reconheça que as expectativas entre homens e mulheres podem ser divergentes e gerar confusão, Saddi é categórica ao afirmar que essa lacuna não pode ser utilizada como justificativa para ignorar limites. “Os homens sabem quando estão ignorando um limite. Não é ingenuidade”, pontua a psicanalista, reforçando a responsabilidade individual na interpretação dos sinais e no respeito ao consentimento.

Medos coexistentes, mas não equivalentes

A psicóloga Mayumi Kitagawa, fundadora da plataforma Sou Pagu, adiciona uma camada crucial à discussão ao destacar a coexistência de dois medos distintos: enquanto homens relatam o receio de serem mal interpretados, mulheres buscam constantemente formas de avaliar riscos e se proteger de perigos reais. “Existem dois medos que coexistem no mesmo espaço, mas eles não são equivalentes”, afirma Kitagawa, sublinhando a assimetria das experiências.

Para Mayumi, essa nova realidade não sinaliza o fim da paquera, mas sim a imperativa necessidade de adaptação a parâmetros renovados de interação. O flerte, que é uma comunicação baseada em códigos e reciprocidade, torna-se mais complexo quando os sinais são menos óbvios, gerando insegurança em ambas as partes. A chave, portanto, reside na capacidade de decifrar esses sinais e garantir que a interação seja sempre consensual e respeitosa. Para mais informações sobre igualdade de gênero e relações sociais, consulte fontes confiáveis como a Organização das Nações Unidas (ONU).

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