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Magreza extrema após os 40: riscos à saúde e pressão estética na maturidade

12.mai.26/Reuters
12.mai.26/Reuters

A busca incessante por um corpo esguio, que remete aos padrões estéticos dos anos 1990 popularizados por modelos como Kate Moss, ressurge com força e, agora, atinge um público que enfrenta desafios ainda maiores: mulheres acima dos 40 anos. Celebridades como Olivia Wilde, 42, Nicole Kidman, 59, e Demi Moore, 63, têm sido vistas em eventos públicos exibindo silhuetas cada vez mais finas, o que acende um alerta sobre os perigos de perseguir a magreza extrema em uma fase da vida onde o corpo já passa por transformações naturais e delicadas.

Essa corrida contra o tempo e a biologia, muitas vezes impulsionada por uma pressão estética implacável, expõe essas mulheres a uma série de riscos de saúde que podem ser severos. A tentativa de manter um corpo “adolescente” pode acelerar problemas como a perda de massa magra e força muscular, desnutrição e osteoporose, especialmente quando as dietas adotadas são inadequadas e restritivas.

A Pressão Estética e a Vulnerabilidade Feminina após os 40

A fase da maturidade, especialmente com a chegada da menopausa, é um período de grande vulnerabilidade para muitas mulheres. As mudanças hormonais trazem consigo alterações físicas visíveis, como o acúmulo de gordura na região abdominal, a diminuição do colágeno e o surgimento de rugas. Essas transformações, somadas à pressão social por um ideal de juventude e magreza extrema, podem gerar um conflito intenso com a autoimagem.

Fábio Salzano, psiquiatra e vice-coordenador do Programa de Transtornos Alimentares do IPq (Instituto de Psiquiatria da USP), destaca que este é um momento de transição física e social que pode levar muitas mulheres a recorrer a métodos drásticos. A cultura, infelizmente, muitas vezes recompensa a perda de peso excessiva com elogios, reforçando a ideia de que um corpo magro está associado à felicidade e ao sucesso, mesmo que à custa da saúde.

O Brasil, inclusive, reflete essa busca incessante pela perfeição estética. Dados recentes da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética revelam que somos o país com o maior número absoluto de procedimentos estéticos faciais do mundo, com 910.879 em 2024, superando os Estados Unidos. Também lideramos em cirurgias estéticas gerais (2.354.513 em 2024) e em cirurgias nas pálpebras, indicando uma forte tendência a intervenções para combater os sinais do envelhecimento.

O Perigo da Magreza Extrema e o Uso de Medicamentos

A busca por uma silhueta cada vez menor tem levado muitas mulheres maduras a caminhos perigosos. Um levantamento da Folha, baseado em dados do SNGPC (Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados), revelou que mulheres com idade média de 47 anos são as maiores consumidoras de canetas emagrecedoras no Brasil. O uso desses medicamentos sem indicação e acompanhamento médico, ou a autoprivação alimentar, são atitudes que elevam significativamente os riscos à saúde.

Karen de Marca, endocrinologista e presidente eleita da SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia), alerta que é irrealista esperar manter o corpo, a pele e o cabelo dos 20 ou 30 anos. “É uma loucura o que as mulheres acabam fazendo para tentar obter isso”, afirma. A restrição calórica e a deficiência de nutrientes essenciais, como cálcio e minerais, podem acelerar a perda de tecido ósseo, levando à osteoporose precoce e a um maior risco de fraturas. Além disso, arritmias e outras doenças cardiovasculares se tornam mais prováveis.

A desnutrição resultante de dietas muito restritivas também se manifesta em cabelos e unhas quebradiços e uma pele com aspecto mais envelhecido. Na prática clínica, é comum observar relatos de fraqueza, desânimo e baixa energia em usuárias de canetas emagrecedoras, sinais claros do impacto da falta de substratos necessários para a formação óssea e muscular.

Transtornos Alimentares na Maturidade: Um Risco Real

A ideia de que transtornos alimentares são exclusivos da adolescência ou da juventude é um equívoco perigoso. Um artigo publicado no International Journal of Eating Disorders em 2025 aponta que as mudanças associadas à menopausa podem tornar essa fase da vida tão significativa para o desenvolvimento de transtornos alimentares quanto a puberdade.

O psiquiatra Fábio Salzano explica que fatores como histórico familiar de doenças psiquiátricas, inatividade social, a alteração na autoimagem e a exposição a dietas extremamente restritivas, com ou sem o uso de medicamentos, aumentam consideravelmente esse risco entre pessoas mais velhas. Ele compara a situação a uma “roleta-russa”, questionando a necessidade de se submeter a tais perigos em busca de um ideal estético que compromete a saúde.

A endocrinologista Karen de Marca reforça a importância do músculo, hoje reconhecido como um órgão regulador do metabolismo. Ele não é apenas fonte de força, mas também melhora a sensibilidade à insulina e possui receptores para o GLP-1, um dos fatores que contribuem para a melhora metabólica. Perder massa muscular no processo de emagrecimento, portanto, significa perder também esses benefícios cruciais para a saúde.

Saúde Além da Balança: A Importância da Massa Muscular e do Acompanhamento Médico

Priorizar a saúde em detrimento da magreza extrema é fundamental, especialmente após os 40 anos. Um estudo publicado no Scientific Reports, da Nature, em 2023, que acompanhou mais de 18 mil adultos por quase sete anos, revelou um efeito protetor da gordura. Em mulheres mais velhas, a mortalidade por todas as causas foi maior entre aquelas com o Índice de Massa Corporal (IMC) mais baixo. Isso sugere que um certo nível de gordura corporal pode ser benéfico para a longevidade e a saúde geral na maturidade.

Para a Dra. De Marca, o objetivo não é contraindicar o emagrecimento para essa faixa etária, mas sim garantir que ele seja conduzido de forma consciente, equilibrada e sem radicalismos. A estratégia ideal de perda de peso deve ser sempre associada ao treino de força e a um aporte adequado de proteína, cálcio e vitaminas, tudo sob acompanhamento médico rigoroso. Esse é o caminho para um envelhecimento saudável, que valoriza a vitalidade e o bem-estar acima de padrões estéticos irreais.

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