O tradicional clube Madame Satã, localizado na região central de São Paulo, veio a público nesta sexta-feira (11) para esclarecer sua participação em uma festa de Halloween realizada em 2023, que agora figura como um dos pontos de interesse na investigação da Polícia Federal (PF) envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro e o caso Banco Master. A casa noturna afirmou categoricamente que não teve contato ou negociação direta com Vorcaro, limitando sua atuação à locação do espaço para o evento.
Em nota oficial, o estabelecimento, conhecido por sua rica história na cena underground paulistana, detalhou que o espaço foi alugado por meio de um contrato formal a uma agência ou produtora de eventos terceirizada. Segundo o clube, a organização da festa, a lista de convidados e a condução do evento eram de total responsabilidade dos contratantes, eximindo a administração do Madame Satã de qualquer envolvimento direto com as atividades ou convidados.
O Esclarecimento do Madame Satã e a Locação do Espaço
A manifestação do Madame Underground Club surge após a divulgação de informações sobre a festa, ocorrida em 31 de outubro de 2023, em seu endereço na Rua Conselheiro Ramalho, 873. A revista piauí, na noite de quinta-feira (10), revelou mensagens que indicavam o envolvimento de Vorcaro na organização do evento e na gestão de convidados, o que motivou a casa a emitir seu posicionamento.
A direção do clube enfatizou que, além de sua programação cultural própria, o local funciona como um espaço para locações diversas, incluindo eventos corporativos, produções audiovisuais, sessões de fotos e comemorações privadas. No caso específico da festa de Halloween, a administração reiterou que sua atuação se restringiu à disponibilização da infraestrutura, sem qualquer vínculo com as pessoas físicas mencionadas nas reportagens.
O Madame Satã também repudiou qualquer tentativa de associar sua marca a ilícitos, reforçando que a locação de suas instalações não implica apoio, participação ou envolvimento do clube com as atividades ou condutas dos contratantes e seus convidados. A produtora responsável pela contratação do espaço, contudo, não foi identificada na nota.
A Investigação da PF e o Pedido de Apagamento em Redes Sociais
Documentos da investigação da PF, cujo sigilo foi levantado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça nesta quinta-feira, revelam que Daniel Vorcaro teria solicitado a um homem identificado como Felipe Mourão, conhecido como “Sicário”, que apagasse uma publicação no Instagram relacionada à festa. O relatório da PF, ao qual o g1 teve acesso, registra essa conversa.
Em novembro de 2023, o banqueiro teria enviado a Mourão o link de uma publicação que exibia um vídeo sobre uma apresentação dos DJs Solomun, Vintage Culture e Swedish House Mafia. A legenda do post indicava que os artistas haviam tocado em uma festa particular no clube Madame, também conhecido como Madame Satã. A publicação foi feita pelo perfil @anatrackid, especializado em notícias de música eletrônica.
Apesar da conversa entre Vorcaro e Mourão sobre a remoção do conteúdo, e da aparente dúvida do banqueiro sobre a ação, a publicação não foi apagada e permanece disponível no Instagram. Este episódio se insere em uma investigação mais ampla da PF sobre a atuação de pessoas próximas a Vorcaro para monitorar e remover conteúdos de redes sociais que pudessem contrariar os interesses do banqueiro.
Táticas de Monitoramento e Remoção de Conteúdo Digital
A investigação da PF aponta que o grupo ligado a Vorcaro utilizava táticas sofisticadas para controlar a narrativa digital. Além do pedido de apagamento da postagem sobre a festa, Vorcaro teria solicitado a “Sicário” outras vezes que monitorasse ou removesse perfis nas redes sociais. Em um dos casos, após ser bloqueado por uma mulher no Instagram, ele teria ordenado que a conta dela fosse acompanhada para que pudesse agir caso publicações desfavoráveis fossem feitas.
Em outro episódio, Vorcaro teria determinado “derrubar e ir pra cima”, levando Mourão a acionar “hackers”, referidos como “os meninos”, para conseguir o banimento de uma conta no Instagram. O grupo também teria derrubado o WhatsApp de um desafeto e invadido sua conta no iCloud, após comentários críticos feitos em um grupo.
Para derrubar um perfil falso que utilizava dados da namorada de Vorcaro e identificar seu autor, “Sicário” teria recorrido a um ofício fraudulento atribuído ao Ministério Público do Ceará. Essa solicitação simulava um pedido oficial à Meta e foi enviada pelo e-mail institucional de uma servidora real, resultando no banimento da conta no mesmo dia, conforme detalhado pela PF.
A História e Relevância do Madame Underground Club
O endereço que abrigou a festa de Halloween tem uma história que se estende por mais de quatro décadas. Inaugurado em 21 de outubro de 1983 como Restaurante Cultural Madame Satã, o espaço rapidamente se transformou em um dos principais pontos da cena underground de São Paulo, com a adição de pista de dança, palco e áreas para apresentações.
Pelo palco do Madame Satã passaram bandas icônicas do rock brasileiro, como Legião Urbana, RPM, Ira!, Ultraje a Rigor, Capital Inicial, Plebe Rude, Inocentes, Fellini e Engenheiros do Hawaii. O local se tornou um caldeirão cultural, reunindo punks, góticos, músicos, artistas, performers e o público LGBT+, sendo inclusive incluído pela FAU-USP entre os lugares de memória LGBT+ da cidade.
O nome da casa é uma homenagem a João Francisco dos Santos, o lendário Madame Satã da boemia carioca. Após períodos de fechamento e mudanças de nome, como Morcegóvia e The The, o endereço foi reaberto em 2012 como Madame, mantendo a atmosfera do antigo clube com programação focada em rock, música eletrônica e cultura alternativa. Atualmente, o estabelecimento se apresenta como Madame Underground Club, continuando a ser um ponto de referência cultural na cidade.
A investigação da Polícia Federal prossegue, buscando esclarecer todos os detalhes das ações atribuídas a Daniel Vorcaro e seus colaboradores. O caso ressalta a complexidade das interações no ambiente digital e as implicações legais do uso indevido de ferramentas de monitoramento e remoção de conteúdo. O M1 Metrópole continuará acompanhando os desdobramentos desta e de outras notícias relevantes, oferecendo aos seus leitores informação aprofundada e contextualizada sobre os fatos que moldam a realidade local, regional e nacional.