A trajetória de mulheres em campos tradicionalmente dominados por homens, como a ciência, frequentemente esbarra em obstáculos que vão além dos desafios acadêmicos e profissionais. A pesquisadora e professora titular da Faculdade de Medicina da USP, Ester Sabino, de 66 anos, é um exemplo contundente dessa realidade. Apesar de um currículo invejável, que inclui a direção do Instituto de Medicina Tropical de São Paulo e a liderança no sequenciamento do genoma do novo coronavírus no Brasil em 2020, Sabino ainda se viu questionada por colegas sobre sua capacidade de liderar pesquisas.
Esse cenário, infelizmente comum, foi um dos pontos abordados por Ester Sabino em sua participação na pesquisa “Imaginário de Poder das Mulheres Brasileiras”. O estudo, conduzido pelo Estúdio Clarice, tem como objetivo investigar e fomentar o poder feminino, revelando as nuances da presença e percepção das mulheres em posições de influência no Brasil. A experiência da cientista lança luz sobre a persistência de uma cultura machista que, muitas vezes de forma sutil, tenta minar a autoridade e o reconhecimento de profissionais femininas.
Machismo na ciência: o peso das credenciais e a dúvida persistente
Mesmo com uma carreira consolidada e contribuições científicas de impacto global, como a identificação do genoma do Sars-CoV-2, Ester Sabino relata episódios onde sua competência era colocada em xeque. “Toda vez que conversamos, não importava o que eu tivesse feito, ele achava que eu não era capaz”, desabafou a pesquisadora sobre a postura de um colega. Essa atitude reflete um padrão de descredibilização que atinge muitas mulheres em áreas de alta exigência intelectual, onde a presunção da incapacidade feminina ainda é uma barreira invisível.
A cientista faz parte de uma minoria, apenas 23% das mulheres entrevistadas na pesquisa do Estúdio Clarice, que se sentem poderosas no ambiente de trabalho. Contudo, essa percepção interna nem sempre se alinha com o reconhecimento externo, especialmente por parte de alguns homens. A dificuldade em identificar e combater o machismo reside justamente em sua natureza muitas vezes velada, como uma “barreira invisível, difícil de ser detectada”, nas palavras de Sabino.
A névoa do machismo e a percepção tardia na carreira científica
Ao longo de sua trajetória, Ester Sabino enfrentou inúmeros casos de machismo, desde a falta de escuta por parte de colegas até a necessidade de engolir “nãos” sem justificativa aparente. Um dos momentos mais marcantes talvez tenha sido sua saída de um grupo de pesquisa, composto exclusivamente por homens, devido a divergências que hoje ela percebe estarem enraizadas em dinâmicas de gênero. A pesquisadora descreve essa jornada como a de uma mulher “cheia de obstáculos no caminho”, em contraste com a aparente facilidade de seus pares masculinos.
A plena consciência desses desafios, no entanto, só veio para Ester Sabino a partir de março de 2020. Com o sequenciamento do genoma do novo coronavírus, ela se tornou uma “cientista conhecida”, passando a conceder entrevistas e a ser convidada para mesas de debate ao lado de feministas. Foi nesse novo contexto que a “névoa” que a impedia de enxergar o problema se dissipou, revelando a extensão do machismo em sua própria vida profissional e na de outras mulheres.
Dissipando a névoa e incentivando novas gerações de cientistas
A partir dessa nova perspectiva, Ester Sabino transformou sua experiência em um motor para a mudança. Ela passou a se dedicar a incentivar outras mulheres a ocuparem lugares de influência e a questionar as normas estabelecidas. “Você tem que treinar uma nova geração a não achar determinadas situações normais”, afirma, destacando a importância da educação e da conscientização para desconstruir padrões machistas enraizados.
A cientista reconhece que, por vezes, ela mesma ainda se pega considerando certas situações como “normais”. Um exemplo disso foi sua participação no grupo Mulheres do Brasil, liderado pela empresária Luiza Trajano, durante a pandemia. Ao ouvir a proposta ambiciosa de abrir um laboratório de sequenciamento em cada capital do país, sua primeira reação foi de ceticismo. No entanto, a crença e o empoderamento transmitidos por Luiza Trajano foram cruciais. “Mas o fato de a Luiza acreditar e dizer ‘vamos fazer’ empodera. Isso muda as coisas. E foi feito”, relata Ester, evidenciando o poder da liderança feminina e da colaboração para superar o que parecia impossível. Para aprofundar-se no tema e conhecer mais sobre a trajetória de Ester Sabino, o leitor pode consultar o artigo original que detalha a entrevista da pesquisadora.
O legado de Ester Sabino e o futuro da presença feminina na ciência
A luta de Ester Sabino e de tantas outras mulheres na ciência é um testemunho da resiliência e da capacidade de superação. A pesquisadora acredita firmemente que o fim da misoginia só será alcançado quando houver uma representação feminina mais significativa em cargos de influência e decisão. Essa mudança não se restringe apenas ao reconhecimento individual, mas à transformação de estruturas que historicamente marginalizaram as contribuições femininas.
Desde 2021, o legado de Ester Sabino é celebrado com o prêmio que leva seu nome, o Prêmio Ester Sabino, uma iniciativa que busca reconhecer e valorizar o trabalho de outras cientistas. Este prêmio não apenas homenageia sua trajetória, mas também serve como um farol para as futuras gerações, mostrando que é possível romper barreiras e alcançar o topo, apesar dos desafios impostos por uma cultura ainda machista. A visibilidade de exemplos como o de Ester Sabino é fundamental para inspirar e pavimentar o caminho para um ambiente científico mais equitativo e inclusivo.
Para continuar acompanhando as análises aprofundadas sobre temas relevantes como a igualdade de gênero, os desafios no mercado de trabalho e as inovações científicas, mantenha-se conectado ao M1 Metrópole. Nosso portal está comprometido em trazer informação de qualidade, contextualizada e com a leitura jornalística que você precisa para entender o mundo ao seu redor.