A chegada de um filho é um marco transformador, tradicionalmente associado a intensas mudanças emocionais e psicológicas para as mães. Contudo, o impacto dessa transição na saúde mental dos pais tem recebido crescente atenção da ciência. Um novo conjunto de estudos revela que a licença-paternidade, especialmente quando remunerada, desempenha um papel crucial na proteção contra a depressão e a ansiedade em homens que se tornam pais.
Pesquisadores apontam que a oportunidade de se afastar do trabalho para cuidar dos recém-nascidos não é apenas um benefício trabalhista, mas uma questão de saúde pública com repercussões profundas para a família e o desenvolvimento infantil. A evidência sugere que a ausência de um período adequado para essa transição pode expor os pais a riscos significativos de problemas de saúde mental.
O impacto da licença remunerada na saúde mental paterna
Um estudo conduzido pela Universidade Northwestern e pelo Hospital Infantil Ann & Robert H. Lurie, em Chicago, nos Estados Unidos, analisou dados da Pesquisa sobre a Paternidade em Ohio de 2022-2023. Esta pesquisa é uma das mais abrangentes sobre as experiências de pais no período perinatal. Os resultados, publicados na revista American Journal of Public Health, são claros: pais que não conseguem tirar o tempo necessário para cuidar dos filhos têm um risco elevado de desenvolver ansiedade e depressão.
Entre os 4.290 pais de primeira viagem participantes, 6,6% apresentavam sintomas de depressão e 11% de ansiedade. A análise detalhada revelou que a licença não remunerada estava associada a um aumento de 58% na probabilidade de sintomas de ansiedade, em comparação com aqueles que tiveram licença remunerada. Mais alarmante ainda, a ausência total de licença parental foi fortemente ligada a um maior risco para a saúde mental.
A pesquisa também destacou o principal obstáculo: 75% dos pais que desejavam tirar licença, mas não o fizeram, citaram motivos financeiros. Deste grupo, 75% apresentavam sintomas depressivos e 71% sintomas de ansiedade. Craig Garfield, autor principal do estudo e pediatra do Hospital Lurie, enfatiza que a licença remunerada oferece tempo e recursos essenciais para uma boa transição para a paternidade.
O equilíbrio ideal: lições da Suécia sobre a duração da licença
Em paralelo, um segundo estudo, também publicado na American Journal of Public Health e realizado por pesquisadores do Instituto Karolinska, na Suécia, trouxe uma perspectiva sobre a duração ideal da licença-paternidade. Acompanhando 746 pais suecos por 18 meses, a partir dos nove meses de idade de seus filhos, os cientistas investigaram a relação entre o tempo de afastamento e o bem-estar psicológico.
Os resultados indicaram que pais que tiraram entre 14 e 40 semanas de licença apresentaram uma probabilidade significativamente menor de desenvolver sintomas depressivos nos primeiros anos de vida dos filhos, em comparação com aqueles que se afastaram por até quatro semanas. Curiosamente, licenças mais curtas (entre 5 e 13 semanas) ou excessivamente longas (mais de 40 semanas) não mostraram o mesmo padrão protetor.
Michael Wells, professor do Departamento de Saúde da Mulher e da Criança do Instituto Karolinska, concluiu que “nossos resultados sugerem que pais que tiram uma licença parental superior a 90 dias, mas que não ultrapassa 60% do total do tempo de licença disponível, podem ter melhor saúde mental”. Este achado ressalta a importância de um período equilibrado, que permita o vínculo e o cuidado sem gerar outras pressões.
Licença-paternidade como questão de saúde pública no Brasil
As descobertas desses estudos têm implicações significativas para países como o Brasil, onde a licença-paternidade padrão é de apenas cinco dias, podendo ser estendida para 20 dias em empresas que aderem ao programa Empresa Cidadã. Essa realidade contrasta drasticamente com os períodos estudados na Suécia, um país conhecido por suas políticas de apoio à família.
A discussão sobre a licença-paternidade transcende a esfera trabalhista e se insere no debate mais amplo sobre saúde pública e equidade de gênero. Permitir que os pais participem ativamente dos primeiros meses de vida de seus filhos não só fortalece o vínculo familiar e o desenvolvimento infantil, mas também alivia a carga sobre as mães e promove uma distribuição mais equitativa das responsabilidades parentais. A saúde mental dos pais, portanto, impacta diretamente a dinâmica familiar e o bem-estar de todos os seus membros.
Desafios e oportunidades para políticas públicas e empresas
Os estudos apontam para oportunidades concretas para formuladores de políticas públicas e empregadores. Ampliar programas de licença parental remunerada, reduzir barreiras econômicas e normalizar o uso desse direito pelos pais poderiam ter um impacto mensurável na saúde da população. A cultura corporativa também desempenha um papel vital, incentivando e apoiando os pais a tirarem suas licenças sem receio de prejuízos profissionais.
Ainda em 2025, um estudo anterior de Craig Garfield já havia revelado que 64% dos homens nos EUA tiram menos de duas semanas de licença após o nascimento do filho, enquanto apenas 36% tiram mais de duas semanas. Esses números sublinham a necessidade de mudanças culturais e estruturais para que a licença-paternidade seja vista e utilizada como uma ferramenta essencial para a saúde e o bem-estar familiar. Investir na saúde mental dos pais é investir no futuro das crianças e na construção de sociedades mais saudáveis e equilibradas. Para mais informações sobre saúde e bem-estar, visite o site da Organização Mundial da Saúde.
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