O deputado federal Kim Kataguiri (União-SP) trouxe à tona uma análise perspicaz sobre as estratégias de comunicação política no Brasil, afirmando que o movimento bolsonarista adotou a forma de comunicação do Movimento Brasil Livre (MBL), mas falhou em replicar o conteúdo. A declaração foi feita durante sua participação no programa Frente a Frente, do Canal UOL, e levanta questões importantes sobre a eficácia e a substância por trás das mensagens políticas na era digital.
A observação de Kataguiri, um dos fundadores do MBL, sugere uma distinção crucial entre a estética e a essência da comunicação política. Enquanto a maneira de se expressar, os canais utilizados e o tom podem ser imitados, a base ideológica, os argumentos e as propostas que dão corpo a essa comunicação seriam, em sua visão, elementos não replicados pelos apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro.
A gênese da comunicação do MBL e sua influência
O MBL emergiu no cenário político brasileiro como um ator fundamental nas manifestações de 2013 e, posteriormente, nos protestos pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Sua ascensão foi marcada por uma comunicação inovadora para a época, que soube explorar as redes sociais de forma orgânica e impactante. A estratégia incluía o uso massivo de memes, vídeos curtos e diretos, linguagem acessível e a criação de narrativas simplificadas que ressoavam com uma parcela significativa da população.
Essa abordagem, que priorizava a agilidade e a viralização, permitiu ao MBL furar a bolha da mídia tradicional e dialogar diretamente com o público. A pauta liberal e a bandeira anticorrupção eram veiculadas de maneira descontraída, mas assertiva, conquistando engajamento e mobilizando apoiadores. A capacidade de traduzir ideias complexas em mensagens curtas e de fácil digestão tornou-se um modelo para outros grupos políticos que buscavam influência digital.
A estratégia bolsonarista e a replicação de táticas
Com o passar dos anos, e especialmente a partir de 2018, o movimento bolsonarista demonstrou uma notável capacidade de dominar o ambiente digital. Plataformas como WhatsApp, Telegram e YouTube se tornaram ferramentas poderosas para a disseminação de suas mensagens. A comunicação bolsonarista adotou muitas das características que o MBL havia popularizado: a linguagem direta, a criação de um senso de comunidade entre os apoiadores, o uso de memes e a polarização de debates.
A construção de um ecossistema de informações, muitas vezes independente dos veículos de imprensa tradicionais, permitiu que a base bolsonarista fosse constantemente alimentada com conteúdos que reforçavam suas convicções. Essa tática de comunicação, focada na mobilização e na desconstrução de narrativas adversárias, mostrou-se extremamente eficaz em momentos eleitorais e na manutenção da lealdade de seus seguidores.
A distinção crucial: forma versus conteúdo na comunicação política
A crítica de Kim Kataguiri, no entanto, vai além da mera observação de táticas. Ao apontar que os bolsonaristas copiaram a forma, mas não o conteúdo, ele sugere uma lacuna fundamental. Para Kataguiri, o MBL, apesar de sua comunicação popular, sempre esteve ancorado em uma base ideológica liberal clara e em propostas políticas específicas, como a defesa do livre mercado, a redução da burocracia e a reforma do Estado.
A implicação é que, enquanto a comunicação bolsonarista pode ter sido igualmente eficaz em termos de engajamento e viralização, ela careceria da mesma profundidade ou consistência programática. Essa distinção levanta um debate importante sobre o que realmente sustenta um movimento político a longo prazo: a capacidade de engajar e mobilizar por meio de uma comunicação eficiente ou a solidez de suas ideias e propostas para a sociedade. A discussão sobre forma e conteúdo é central para entender a evolução do discurso político no Brasil e os desafios para a construção de um debate público mais qualificado.
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