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Justiça de São Paulo impõe prazo para prefeitura comprovar retomada do aborto legal no Cachoeirinha

Justiça de São Paulo impõe prazo para prefeitura comprovar retomada do aborto legal no Cachoeirinha
Mônica Bergamo

A Justiça de São Paulo concedeu um prazo de 15 dias para que a gestão municipal, sob Ricardo Nunes (MDB), apresente provas concretas da efetiva retomada do serviço de aborto legal no Hospital e Maternidade Vila Nova Cachoeirinha. A decisão surge após a juíza Vanessa Velloso Silva Saad Picoli, da 9ª Vara da Fazenda Pública, considerar insuficiente a documentação previamente apresentada pela prefeitura, que alegava o restabelecimento do atendimento desde 18 de março.

O caso, que se arrasta por meses, ganhou novos contornos com a exigência judicial de informações detalhadas. A interrupção do serviço, ocorrida em dezembro de 2023, gerou uma série de questionamentos e ações por parte de parlamentares do PSOL, que buscam garantir o acesso a um direito fundamental previsto em lei.

Exigências da Justiça e a Insuficiência de Provas

A magistrada destacou que o documento da Secretaria Municipal da Saúde, embora afirme a retomada do serviço de aborto legal, é unilateral e carece de especificidade. Para dissipar as dúvidas, a Justiça solicitou uma série de comprovantes que detalham a operacionalização do atendimento no Hospital e Maternidade Vila Nova Cachoeirinha.

Entre os documentos exigidos estão as escalas completas das equipes médica, de enfermagem, serviço social e psicologia, além dos registros de frequência desses profissionais desde a data de 18 de março. A prefeitura também deverá apresentar os protocolos internos adotados pelo hospital e explicar o fluxo para atendimentos de urgência, bem como para casos que ocorram fora do horário ambulatorial.

Um ponto crucial da solicitação judicial é o esclarecimento sobre o atendimento de gestações avançadas resultantes de violência sexual. A Justiça quer saber se a assistolia fetal, um procedimento específico para esses casos, é realizada no próprio Cachoeirinha. Caso haja encaminhamento para outra unidade, a prefeitura terá de comprovar a existência de vaga regulada e a continuidade do atendimento, garantindo que as pacientes não fiquem desassistidas. Além disso, um relatório detalhado com o número de acolhimentos, consultas, procedimentos realizados e encaminhamentos desde a anunciada retomada é aguardado.

Histórico de Interrupção e Batalha Judicial

A controvérsia em torno do serviço de aborto legal no Cachoeirinha teve início em dezembro de 2023, quando a gestão municipal decidiu interromper o atendimento. Essa medida provocou uma imediata reação de parlamentares do PSOL, incluindo a deputada federal Luciene Cavalcante, o deputado estadual Carlos Giannazi e o vereador Celso Giannazi, que moveram uma ação questionando a decisão.

Em março deste ano, a 5ª Câmara de Direito Público do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) já havia determinado a retomada do serviço. A persistência da interrupção levou a uma nova decisão em julho, quando o mesmo colegiado manteve a aplicação de uma multa de R$ 24,8 milhões à prefeitura pelo período em que a ordem judicial não foi cumprida. Na recente decisão, a juíza também determinou que o município deposite o valor dessa multa, que será destinado ao Fundo Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente (Fedca).

O Aborto Legal no Contexto da Saúde Pública

No Brasil, o aborto é permitido por lei em três situações específicas: em casos de estupro, quando a gravidez oferece risco à vida da mulher e em casos de anencefalia fetal. O Hospital e Maternidade Vila Nova Cachoeirinha é uma referência importante para o atendimento de saúde pública na capital paulista, e a interrupção de um serviço essencial como o aborto legal impacta diretamente mulheres em situação de vulnerabilidade, que dependem da rede pública para acessar seus direitos.

A questão da assistolia fetal, mencionada nas exigências da Justiça, é particularmente sensível. Trata-se de um procedimento médico que visa interromper a atividade cardíaca do feto em gestações mais avançadas, conforme as normas técnicas do Ministério da Saúde para casos de aborto legal decorrente de violência sexual. A garantia de que este procedimento seja oferecido, ou que haja um fluxo claro de encaminhamento, é fundamental para assegurar o direito à saúde e à dignidade das mulheres.

Posicionamento da Prefeitura e Próximos Passos

Procurada, a Secretaria Municipal de Saúde reafirmou que o serviço de aborto legal está sendo realizado não apenas na unidade Cachoeirinha, mas também em outros quatro hospitais municipais: Cármino Caricchio (Tatuapé), Fernando Mauro Pires da Rocha (Campo Limpo), Tide Setúbal (São Miguel Paulista) e Mário Degni (Jardim Sarah). A pasta também informou que a prefeitura irá recorrer da multa aplicada, argumentando que sua aplicação “ainda não é definitiva”.

Enquanto isso, o Ministério Público havia solicitado que o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) realizasse uma fiscalização no hospital. Contudo, a juíza rejeitou o pedido, entendendo que a apuração deve ser feita a partir dos documentos oficiais da prefeitura e de eventuais inspeções realizadas pelo próprio Ministério Público e pela Defensoria Pública. Os próximos 15 dias serão decisivos para que a prefeitura demonstre, com a documentação exigida, a efetividade da retomada do serviço e para que a Justiça avalie o cumprimento das determinações.

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