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Japão oferece valiosas lições de respeito coletivo e harmonia com a natureza, aponta Betty Milan

Daigo Oliva/Folhapress
Daigo Oliva/Folhapress

Em um mundo cada vez mais individualista, o Japão emerge como um farol de uma cultura que prioriza o bem-estar coletivo e uma profunda conexão com o ambiente natural. Essa é a essência das observações da escritora e psicanalista Betty Milan, membro da Academia Paulista de Letras, que, movida por uma imensa curiosidade, embarcou para o país do sol nascente em busca de compreender os pilares dessa sociedade.

Ao retornar, Milan compartilhou suas impressões sobre uma nação onde o homem é visto como parte integrante do cosmos, e não seu centro exclusivo, uma perspectiva que contrasta fortemente com a supervalorização do ego na cultura ocidental. Suas experiências revelam um modelo de civilidade e reverência que se manifesta tanto nas interações urbanas quanto na sacralização da paisagem.

O Respeito Coletivo nas Cidades Japonesas

Uma das primeiras e mais marcantes lições que o Japão oferece, segundo Betty Milan, é a organização impecável do espaço público e o silêncio que permeia suas cidades. Ruas limpas e tranquilas são a norma, um reflexo direto do respeito mútuo entre os cidadãos. A escritora relata que, mesmo em avenidas movimentadas como a principal de Ginza, em Tóquio, o barulho é mínimo, um contraste notável com a cacofonia de grandes metrópoles ocidentais.

A estação central de Tóquio, por onde transitam milhões de pessoas diariamente, exemplifica essa cultura de ordem e limpeza. Milan observou que, além das salas de espera, é possível sentar-se no chão sem preocupação com sujeira, um testemunho da manutenção constante e do cuidado coletivo com o ambiente. Essa atenção se estende aos transportes: nos trens-bala Shinkansen, a limpeza dos vagões é realizada de forma eficiente e imediata após o desembarque dos passageiros, antes mesmo que a próxima leva embarque.

Outro ponto que chama a atenção é a conduta nos transportes públicos. Apesar do uso generalizado de smartphones, a prática de falar ao celular é evitada, demonstrando uma consideração silenciosa pelo espaço e pelo conforto alheio. Essa discrição e o senso de coletividade são pilares que sustentam a harmonia social japonesa.

A Essência da Cortesia e o Papel do Budismo

A prestimosidade dos japoneses com os estrangeiros é um traço cultural que Betty Milan destaca com admiração. Mais de uma vez, ao pedir informações sobre como chegar a um determinado lugar, a escritora foi acompanhada por desconhecidos até seu destino, superando a barreira do idioma com gestos de gentileza e disposição para ajudar.

Essa conduta altruísta e a equanimidade observada nos japoneses podem ser atribuídas, em parte, à forte influência do budismo. A filosofia budista, que prega valores como sabedoria, compaixão e a busca pelo equilíbrio, permeia as interações sociais e a forma como os indivíduos se relacionam uns com os outros e com o mundo ao seu redor. Essa base espiritual contribui para a construção de uma sociedade onde a empatia e o auxílio mútuo são práticas cotidianas.

A Reverência à Natureza e o Xintoísmo

Além do respeito coletivo, a harmonia com a natureza é um pilar fundamental da cultura japonesa, enraizada na religião autóctone do país: o xintoísmo. Essa crença diviniza a natureza, celebrando os kami, espíritos sagrados que habitam montanhas, rios, árvores e outros elementos naturais. Essa visão de mundo estabelece uma profunda conexão e reverência pelo ambiente, que é visto como sagrado e merecedor de veneração.

Um exemplo eloquente dessa relação é encontrado em Nikko, uma cidade a aproximadamente uma hora de Tóquio. O local abriga um complexo de templos e santuários, conhecido como Nikko Zan, que é Patrimônio Mundial da UNESCO devido à sua importância histórica e beleza singular. As montanhas circundantes não são apenas paisagens, mas objetos de veneração, refletindo a crença de que a divindade reside na grandiosidade natural.

Nikko: O Santuário da Harmonia Religiosa e Natural

O complexo de Nikko Zan é um testemunho da fusão entre a história, a religião e a natureza. Durante o período Edo (1603-1868), o xogunato visava transformar Nikko em uma capital que rivalizasse com Kyoto, e a escolha do local foi estratégica, em grande parte devido à sua majestosa floresta de cedros, que serve de cenário grandioso para os templos e santuários.

Fundado pelo monge budista Shodo Sonin, o complexo inclui o templo budista Rinno-ji, onde três imensos budas são identificados com as três montanhas sagradas (vulcões) de Nikko. Ao lado, encontra-se o santuário Futorasan, dedicado à veneração dessas mesmas montanhas, e o Tosho-gu, um santuário construído por Ieyasu, o xogum que unificou o Japão. A coexistência pacífica e sincrética do budismo e do xintoísmo em Nikko é um espetáculo que maravilha os visitantes, simbolizando a capacidade japonesa de integrar diferentes crenças em uma harmonia maior, sempre em profunda conexão com a natureza exuberante que os cerca.

As lições de respeito coletivo, civilidade e a veneração pela natureza que Betty Milan trouxe de sua viagem ao Japão oferecem uma perspectiva valiosa para a sociedade contemporânea. Elas nos convidam a refletir sobre a importância de um equilíbrio entre o indivíduo e a coletividade, e entre a humanidade e o meio ambiente. Para aprofundar-se em análises e reportagens que conectam diferentes culturas e seus ensinamentos, continue acompanhando o M1 Metrópole, seu portal de informação relevante e contextualizada. Saiba mais sobre o Patrimônio Mundial de Nikko.

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