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Insônia: avanços farmacológicos e o impacto duradouro do estilo de vida na busca pelo sono

Burdun/Adobe Stock
Reprodução Folha

A dificuldade para dormir, conhecida como insônia, afeta milhões de pessoas globalmente, impactando diretamente a qualidade de vida e a saúde. Enquanto a medicina avança na busca por soluções mais eficazes e com menos efeitos colaterais, a discussão sobre o papel fundamental do estilo de vida na prevenção e tratamento desse distúrbio ganha cada vez mais relevância. Recentes desenvolvimentos farmacológicos, como a aprovação de um novo medicamento em 2025 no Brasil, prometem uma nova abordagem, mas especialistas reforçam que a rotina diária permanece como um pilar inabalável para um sono reparador.

O Dilema dos Tratamentos Convencionais: Riscos e Dependência

Por décadas, o tratamento da insônia frequentemente se apoiou em medicamentos que, embora eficazes no curto prazo, apresentavam um perfil de segurança questionável para uso contínuo. Os benzodiazepínicos, como clonazepam e diazepam, e as chamadas drogas Z, que incluem zolpidem, atuam potencializando o neurotransmissor GABA, que desacelera as funções cerebrais e induz a sedação.

Contudo, o uso prolongado dessas substâncias pode levar a uma série de efeitos indesejados. O neurologista Rodrigo Meirelles Massaud, do Einstein Hospital Israelita, alerta para a tolerância, dependência, prejuízo cognitivo, sonolência residual e aumento do risco de quedas associados aos benzodiazepínicos. As drogas Z, por sua vez, podem causar dependência, amnésia e comportamentos complexos do sono, como sonambulismo.

Essa adaptação do organismo à medicação exige doses cada vez maiores para o mesmo efeito, culminando em dependência física e psicológica. A interrupção abrupta pode desencadear sintomas de abstinência e a temida insônia rebote, onde a dificuldade para dormir retorna com intensidade ainda maior.

Lemborexante: Uma Nova Abordagem Fisiológica para a Insônia

Em meio a esse cenário, o lemborexante, que será comercializado como Dayvigo, surge como uma esperança. Aprovado no Brasil em 2025, este fármaco pertence à classe dos antagonistas duplos do receptor de orexina (DORA). Sua ação é distinta dos tratamentos convencionais, focando nos receptores de orexina 1 e 2 (OX1 e OX2).

A orexina, ou hipocretina, é um neuropeptídeo crucial na manutenção da vigília e do estado de alerta. Ao reduzir os sinais que mantêm o cérebro ativo, o lemborexante facilita uma transição para o sono que se assemelha mais ao processo fisiológico natural de adormecimento. Segundo o neurologista Rodrigo Meirelles Massaud, essa abordagem neurobiológica evita “desligar” o cérebro de forma generalizada, promovendo um sono de qualidade superior.

Estudos clínicos robustos corroboram a eficácia do lemborexante. O SUNRISE 1, publicado em 2019 na revista JAMA, demonstrou que o medicamento reduziu o tempo de adormecimento e proporcionou mais de 60 minutos adicionais de sono por noite em voluntários com insônia. O SUNRISE 2, cujos resultados foram divulgados em 2020 na revista Sleep, confirmou a eficácia e segurança da substância ao longo de seis meses, com taxas de resposta significativamente maiores para o início e a manutenção do sono em comparação com placebo. A Agência Einstein, fonte desta reportagem, tem acompanhado de perto esses avanços.

Apesar dos benefícios, o lemborexante não é isento de efeitos adversos, podendo causar sonolência diurna, fadiga, sonhos vívidos, paralisia do sono e piora do desempenho quando combinado com álcool ou outros depressores do sistema nervoso central. Por isso, a supervisão médica é indispensável.

A Epidemia da Insônia e o Estilo de Vida Moderno

A insônia é um problema de saúde pública de proporções globais. Uma pesquisa publicada em 2025 na revista Sleep Medicine Reviews estima que cerca de 852 milhões de pessoas, ou aproximadamente 16% da população mundial, sofrem com o distúrbio. Essa prevalência alarmante é, em grande parte, um reflexo do estilo de vida contemporâneo.

O neurologista Massaud explica que o ser humano evoluiu para sincronizar seu ciclo circadiano com a luz solar, a atividade física diurna e períodos previsíveis de descanso. No entanto, o ambiente moderno, com sua constante exposição a telas, jornadas de trabalho exaustivas, estresse crônico e falta de rotina, é biologicamente incompatível com a fisiologia natural do sono.

A luz artificial, especialmente a azul emitida por dispositivos eletrônicos, interfere na produção de melatonina, o hormônio do sono. O sedentarismo, a alimentação inadequada e o consumo excessivo de cafeína e álcool também contribuem para desregular o relógio biológico, dificultando o adormecimento e a manutenção de um sono profundo e reparador.

Tratamento Individualizado e o Caminho para um Sono Saudável

O tratamento da insônia deve ser sempre individualizado e prescrito por um médico, destinado a adultos com diagnóstico confirmado. Rodrigo Nascimento, diretor médico da farmacêutica Eisai, ressalta que a insônia é um transtorno flutuante e dinâmico, diferente de condições crônicas como hipertensão ou diabetes.

Isso significa que, com o tempo e a estabilização de fatores de vida, pode ser possível até mesmo a retirada da medicação. A abordagem mais eficaz frequentemente combina o tratamento farmacológico com mudanças significativas no estilo de vida, como a higiene do sono, que inclui manter horários regulares para dormir e acordar, criar um ambiente propício ao descanso e evitar estimulantes antes de deitar.

A busca por um sono saudável é uma jornada contínua que exige atenção à saúde mental, física e aos hábitos diários. Compreender a complexidade da insônia e as opções de tratamento disponíveis, aliando-as a um estilo de vida consciente, é o caminho para milhões de pessoas reencontrarem o descanso necessário e melhorarem sua qualidade de vida.

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