A busca pela neutralidade institucional
Em um cenário nacional marcado por intensa polarização, a Igreja Adventista do Sétimo Dia (IASD) decidiu reforçar publicamente sua diretriz de neutralidade político-partidária. A organização, uma das maiores denominações religiosas do país, emitiu um documento orientando seus líderes e fiéis a manterem o distanciamento de disputas eleitorais dentro dos templos, reiterando o princípio histórico da separação entre Igreja e Estado.
A necessidade de reiterar essa postura, especialmente com a proximidade de novos ciclos eleitorais, aponta para o desafio crescente de manter o ambiente religioso imune ao avanço de pautas bolsonaristas e outras correntes políticas que buscam influência no meio evangélico. Segundo a liderança, a intenção é garantir que as instituições religiosas cumpram suas funções espirituais sem interferências de agendas partidárias.
Regras rígidas para líderes e fiéis
A posição oficial da igreja é clara: embora reconheça a política como um meio legítimo para a defesa de valores cristãos, a instituição veda qualquer apoio institucional a candidaturas. Jorge Rampogna, diretor de comunicação da IASD na América do Sul, enfatiza que pastores, obreiros e funcionários que decidirem concorrer a cargos eletivos ou atuar em assessorias políticas devem se desvincular de suas funções religiosas.
A norma interna é rigorosa quanto ao uso de recursos. É terminantemente proibido utilizar o dízimo ou qualquer patrimônio da igreja para financiar campanhas ou atividades de propaganda política. Além disso, a denominação tem recomendado prudência extrema no uso das redes sociais, incentivando os fiéis a priorizarem temas de relevância espiritual e missionária em vez de debates políticos inflamados que possam gerar divisões internas.
Contexto escatológico e identidade religiosa
O distanciamento da política não é apenas uma estratégia de gestão, mas possui raízes profundas na teologia adventista. O antropólogo Raphael Khalil observa que a desconfiança em relação ao poder estatal é um elemento central na identidade da denominação. “Eles acreditam que, no fim dos tempos, os governos vão se unir e perseguir os adventistas, proibindo o descanso no sábado”, explica o pesquisador.
Essa visão de mundo molda a relação da igreja com a sociedade brasileira. Conhecida por observar o sábado como dia sagrado, a IASD mantém uma trajetória marcada por batalhas judiciais em defesa do direito à liberdade religiosa, como a garantia de escalas de trabalho adaptadas e a realização de concursos públicos em datas alternativas. Esses pontos de atrito reforçam a ideia de que a igreja deve manter sua autonomia frente às estruturas de poder vigentes.
Um pilar de saúde e missão
Além da postura política, a Igreja Adventista é amplamente reconhecida por sua ênfase na saúde e no bem-estar, baseada na crença de que o corpo é o “santuário do Espírito Santo”. Esse foco, aliado a um forte trabalho missionário, compõe o núcleo das atividades que a liderança deseja preservar da influência de debates partidários. Ao insistir no discurso de neutralidade, a organização tenta assegurar que sua missão principal permaneça inalterada diante das pressões do cenário político contemporâneo.
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