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Inteligência artificial na mamografia pode revelar riscos cardíacos em mulheres

11.mar.24/Folhapress
11.mar.24/Folhapress

A mamografia, exame fundamental na detecção precoce do câncer de mama, está prestes a ganhar uma nova e crucial dimensão. Pesquisadores nos Estados Unidos, utilizando inteligência artificial (IA), observaram que o procedimento pode ir além da oncologia, identificando sinais precoces de alterações nas artérias que indicam um maior risco de doenças cardiovasculares em mulheres. Essa inovação promete transformar a abordagem da saúde feminina, integrando o rastreamento mamário a uma avaliação mais abrangente da saúde do coração.

O estudo, publicado em março no prestigiado European Heart Journal, analisou um vasto conjunto de dados de 123.762 mulheres que realizaram mamografias de rotina e não possuíam histórico prévio de doença cardiovascular. A aplicação da IA permitiu uma análise detalhada da presença de depósitos de cálcio nas artérias mamárias. Esses depósitos, embora comuns com o envelhecimento, são um indicativo do enrijecimento dos vasos sanguíneos, um processo diretamente ligado ao aumento do risco de eventos cardiovasculares graves, como infarto, acidente vascular cerebral (AVC) e insuficiência cardíaca.

Avanço tecnológico e a saúde do coração feminino

A cardiologista Sofia Lagudis, do Einstein Hospital Israelita, destaca a importância desses achados, ressaltando uma lacuna na percepção de risco entre as mulheres. “O estudo traz uma boa notícia, pois pesquisas mostram que as mulheres temem o câncer de mama, mas não têm tanta consciência de risco cardíaco que mata muito mais do que um tumor nessa parte do corpo. Por isso, elas fazem muito mais mamografias do que exames preventivos do coração”, explica a especialista. Essa nova capacidade da mamografia, impulsionada pela inteligência artificial, poderia preencher essa lacuna, oferecendo uma ferramenta já estabelecida para um novo tipo de rastreamento.

A incorporação dessa tecnologia à rotina de exames poderia fornecer informações valiosas para a identificação precoce da doença aterosclerótica. Além disso, auxiliaria na estratificação do risco cardíaco e na orientação de medidas preventivas de forma mais personalizada. Contudo, os especialistas alertam que, embora promissora, a abordagem ainda necessita de validação adicional por meio de mais estudos, considerando a existência de outros métodos já validados e específicos para a avaliação cardiovascular.

Limites e o caminho para a validação da mamografia como preditor

Apesar do entusiasmo com o potencial da IA, é crucial entender as limitações atuais. O cardiologista Tito Paladino, da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), pondera que “não se justifica a solicitação de uma mamografia com o objetivo primário de investigar doença coronária, uma vez que existem métodos diagnósticos mais específicos e direcionados para essa finalidade, especialmente no contexto de suspeita clínica, apesar de o exame das mamas apontar informações importantes nesse caso”.

A calcificação arterial observada na mamografia não é um indicativo direto e isolado de eventos coronários ou infarto agudo do miocárdio. Na verdade, ela reflete uma manifestação da aterosclerose sistêmica, um processo difuso que afeta o organismo como um todo. Por essa razão, aprofundar esses achados em novas análises é fundamental. A Dra. Lagudis complementa que “ainda é imprescindível validá-los em mais estudos, adaptar a ferramenta de IA ao equipamento convencional de mamografia, bem como avaliar a capacidade dos diversos aparelhos que fazem o exame em fornecer informação adequada”.

Estratégias de prevenção e o papel do autocuidado

Independentemente dos avanços tecnológicos, a prevenção continua sendo a pedra angular da saúde cardiovascular. A calcificação das artérias é um processo cumulativo e irreversível, o que reforça a necessidade de controlar os fatores de risco da melhor forma possível. As medidas protetivas incluem manter a pressão arterial, a glicemia e o colesterol em níveis adequados, além de adotar hábitos de vida saudáveis.

Entre esses hábitos, destacam-se não fumar, evitar o consumo excessivo de álcool, seguir uma alimentação equilibrada, praticar atividade física regularmente e preservar um peso saudável. Para as mulheres, essa atenção se torna ainda mais crítica com a chegada do climatério e o avanço da idade, fases em que a proteção hormonal diminui e o risco cardiovascular tende a aumentar significativamente. O entendimento desses fatores e a adoção de um estilo de vida consciente são essenciais para mitigar os riscos e promover uma vida longa e saudável.

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