O cenário político paulista foi sacudido nesta quinta-feira (25) pela Operação Última Parada, que resultou na prisão do vereador Senival Moura, do Partido dos Trabalhadores (PT), sob a acusação de suposta ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC). Em meio ao anúncio de Márcio França (PSB) como seu vice na chapa para o governo de São Paulo, o pré-candidato Fernando Haddad (PT) se pronunciou sobre o caso, defendendo a necessidade de investigações rigorosas e imparciais, ressaltando que “questões éticas não são partidárias” e que “ninguém está imune a investigações”.
A declaração de Haddad sublinha a complexidade do momento, em que a política local se entrelaça com o combate ao crime organizado. O petista enfatizou que a responsabilidade pelos atos é individual e que a ideologia não deve servir como salvo-conduto para ninguém. A fala do pré-candidato não apenas abordou a situação de seu colega de partido, mas também ampliou o debate, cobrando investigações sobre outras frentes, como contratos do governo estadual e da prefeitura de São Paulo, em uma clara tentativa de contextualizar e despolitizar a ação contra o vereador.
Operação Última Parada: o cerco ao crime organizado no transporte
Deflagrada pelo Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) e pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de São Paulo (MP-SP), a Operação Última Parada mirou um sofisticado esquema de lavagem de dinheiro do PCC no setor de transporte público. A ação cumpriu cinco mandados de prisão temporária e 104 de busca e apreensão em São Paulo, região metropolitana e Extrema (MG), revelando a profundidade da infiltração criminosa em um serviço essencial à população.
Entre os presos estão o vereador Senival Moura, Jair Ramos de Freitas, conhecido como “Cachorrão” e diretor informal da empresa Transunião, e Devanil de Souza Nascimento, o “Sapo”, motorista e homem de confiança do vereador. A investigação aponta que Moura, identificado em documentos como “véio”, tomava decisões cruciais na viação, inclusive financeiras, mesmo sem figurar formalmente no quadro de diretores. Lourival Monário (“Orelha”), atual presidente da Transunião, e Leonel Moreira Martins (“Cabeça Branca”), supervisor operacional, também são alvos, acusados de serem nomeados pelo PCC para garantir o escoamento de recursos ilícitos e atuar como interlocutores diretos da facção.
A posição do PT e a defesa da ética na política
Diante da repercussão da prisão de um de seus membros, o Partido dos Trabalhadores em São Paulo se manifestou. Hélio Rodrigues, presidente do Diretório Municipal do PT, expressou surpresa com a prisão de Senival Moura e reiterou que “o PT não compactua com o crime organizado”. Em nota oficial, o diretório informou que acompanhará as investigações e que o caso foi encaminhado à Comissão de Ética do partido. Este procedimento interno pode levar a medidas disciplinares, incluindo afastamento cautelar e até a expulsão do filiado, sempre com a garantia do direito de defesa e do devido processo legal.
A postura de Fernando Haddad, ao defender a não seletividade das investigações, busca reforçar a ideia de que a luta contra a corrupção e o crime deve ser apartidária. “Ideologia não é salvaguarda pra nada e ninguém”, sentenciou Haddad, ecoando um sentimento de que a justiça deve ser aplicada a todos, independentemente de filiação política. Essa fala ressoa em um momento de polarização política, onde acusações de seletividade em operações policiais e judiciais são frequentes.
Haddad amplia o foco: críticas a outras gestões
Aproveitando o ensejo, Haddad não hesitou em direcionar críticas a outras esferas de poder, sugerindo que o Ministério Público também investigue a gestão de Tarcísio de Freitas (Republicanos) no governo de São Paulo e a administração de Ricardo Nunes (MDB) na prefeitura da capital. O pré-candidato questionou as relações do governo estadual com o Banco Digimais, do bispo Edir Macedo, e a suposta mudança de critérios para favorecer a instituição em empréstimos consignados para servidores estaduais. “Foi um revés para salvar a situação de um banco que todo mundo sabia que estava em dificuldade?”, indagou.
No âmbito municipal, Haddad cobrou investigação sobre o contrato de wi-fi livre da Prefeitura de SP com a ONG Instituto Conhecer Brasil (ICB), da empresária Karina da Gama. Ele citou uma reportagem da Folha que apontava a ONG por ter repassado R$ 12 milhões para uma empresa cujo dono estaria ligado ao PCC e preso. “O que a Polícia e o Ministério Público vão fazer sobre a gestão do Ricardo Nunes? Tem que investigar também”, afirmou, buscando equilibrar a balança das cobranças por transparência e combate à ilicitude.
O intrincado esquema e os desdobramentos no transporte público
As investigações revelaram que a Transunião, empresa que opera 51 linhas e transporta cerca de 389 mil passageiros diariamente na Zona Leste de São Paulo, era utilizada como uma sofisticada engrenagem de lavagem de dinheiro do crime organizado. O inquérito teve início com a apuração do assassinato de Adauto Soares Jorge, ex-presidente da Transunião, em 2020. Documentos do PCC, os chamados “salves”, indicaram que Adauto e Senival Moura foram condenados à morte pela facção por desvios de valores.
A facção teria descoberto que Adauto desviava dinheiro para um “caixa dois” nas eleições de 2020, beneficiando a campanha de reeleição de Senival. O vereador, por sua vez, teria sido “perdoado” pelo PCC devido à sua influência política e capacidade de ressarcir o prejuízo, concordando com a execução de seu braço-direito. Após o crime, o PCC teria nomeado novos diretores para garantir o fluxo financeiro. A fraude atingiu até a constituição da empresa, com o capital social saltando de pouco mais de R$ 100 mil para mais de R$ 50 milhões sem comprovação da origem, permitindo que a Transunião vencesse licitações da prefeitura.
A Justiça determinou o bloqueio de R$ 194 milhões em contas bancárias, 117 veículos, 21 imóveis e 3 embarcações ligadas aos investigados. A diretoria da Transunião foi afastada, e a Prefeitura de São Paulo, por meio da SPTrans, precisa agora garantir a continuidade do serviço essencial, seja por intervenção direta ou repasse das linhas para outras viações. O prefeito Ricardo Nunes assegurou que o serviço segue normal e que as medidas cabíveis serão tomadas após a notificação oficial, lembrando que sua gestão já rompeu contratos com outras empresas por ligações com o crime organizado.
As investigações ainda apontam conexões com outras grandes operações, como a Carbono Oculto, Vérnix e a Operação Mafiusi, esta última da Polícia Federal, que expôs a ligação direta entre o PCC e a máfia italiana ‘Ndrangheta, evidenciando a complexidade e o alcance transnacional do crime organizado.
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