A quebra de confiança e o início das denúncias
O que deveria ser um ambiente de acolhimento e cuidado médico transformou-se em um cenário de traumas para Esther Neves, hoje com 27 anos. A advogada, que frequentou o consultório do ginecologista Osmar Trojan entre 2014 e 2022, na Zona Sul de São Paulo, denunciou o profissional por uma série de abusos sexuais que teriam ocorrido durante consultas de rotina. O caso, que agora é objeto de um inquérito policial no 1º Distrito Policial de Itapecerica da Serra, revela como a proximidade familiar e a figura de autoridade do médico foram utilizadas para submeter a paciente a situações de constrangimento e violência.
A relação entre a família de Esther e o médico era antiga e permeada por uma profunda confiança. Trojan, que realizou o parto da jovem e frequentava o mesmo círculo social e religioso, era visto por ela como uma figura paterna. Segundo o relato da vítima ao portal g1, a ausência de cobrança por honorários médicos criava uma falsa sensação de dívida moral, o que, somado à autoridade do cargo, dificultava qualquer questionamento sobre os procedimentos realizados a portas fechadas.
Relatos de abusos e procedimentos invasivos
Os detalhes descritos por Esther no inquérito policial descrevem um padrão de comportamento abusivo que se estendeu por quase uma década. A jovem relata que, desde os 16 anos, era submetida a exames sem o uso de luvas, além de ser alvo de solicitações invasivas. Entre as acusações mais graves, a paciente afirma que o médico exibia vídeos pornográficos durante as consultas, utilizando o material para fazer comentários sobre o corpo dela e sugerir o uso de acessórios sexuais.
Além da exposição a conteúdo pornográfico, Esther aponta que foi convencida a realizar sessões de fotos íntimas no consultório, sob a justificativa de que as imagens comporiam um artigo científico sobre câncer de mama. A prática, segundo a denúncia, evoluiu para registros de outras partes do corpo, incluindo a região genital e anal. Em um dos episódios mais traumáticos relatados, a jovem afirma que o médico chegou a sugar seus seios, alegando que o procedimento visava verificar a secreção mamária, uma conduta que não possui respaldo em protocolos médicos ginecológicos.
Impactos na saúde mental e o desenrolar do processo
O reconhecimento da violência sofrida só ocorreu após anos de terapia e tratamento psiquiátrico. Esther relata que, durante o período em que era atendida por Trojan, sofreu com crises severas de ansiedade, labilidade emocional e sintomas somáticos que impactaram diretamente sua vida cotidiana e profissional. Um atestado médico corrobora o quadro de ansiedade aguda, destacando o prejuízo funcional causado pelas experiências traumáticas vividas no consultório.
Em sua defesa, o médico Osmar Trojan, de 82 anos, nega todas as acusações. Por meio de seu advogado, Alessandro Fischer Martins Silveira, a defesa sustenta que o profissional nunca praticou atos de conotação sexual e que os exames foram realizados com o devido rigor técnico, muitas vezes na presença de terceiros. O advogado enfatiza que o inquérito tramita sob sigilo e que a presunção de inocência deve ser respeitada até que o contraditório seja plenamente exercido na fase processual.
O caso, que traz à tona a vulnerabilidade de pacientes em ambientes de consulta, segue em fase de investigação policial. O desenrolar do inquérito é acompanhado de perto pelo Ministério Público, enquanto a sociedade debate a importância de protocolos rígidos de atendimento e a necessidade de denúncia imediata diante de qualquer conduta que fuja aos padrões éticos da medicina. O M1 Metrópole segue acompanhando os desdobramentos deste caso e reafirma seu compromisso com a apuração rigorosa de fatos que impactam a segurança e a integridade da comunidade.