O inverno, com suas temperaturas mais amenas e, por vezes, quedas bruscas, traz consigo não apenas a necessidade de agasalhos, mas também um alerta importante para a saúde cardiovascular. Especialistas apontam que o frio sobrecarrega o coração, elevando significativamente o risco de eventos graves como infarto e Acidente Vascular Cerebral (AVC). Este cenário se torna ainda mais preocupante para grupos vulneráveis, que precisam redobrar a atenção e adotar medidas preventivas.
Dados do Instituto Nacional de Cardiologia (INC) indicam que a incidência de infartos pode crescer em até 30% durante os períodos de baixas temperaturas, especialmente quando os termômetros marcam abaixo de 14°C. Paralelamente, os índices de AVC também registram um aumento, chegando a 20%. Essas estatísticas sublinham a importância de compreender os mecanismos pelos quais o frio afeta o sistema circulatório e como a população pode se proteger.
Como o frio sobrecarrega o sistema cardiovascular
A relação entre o frio e coração não é um mito, mas um fenômeno fisiológico bem documentado. Quando o corpo é exposto a baixas temperaturas, ele ativa uma série de mecanismos para manter sua temperatura interna estável. Um dos principais é a vasoconstrição, um processo no qual os vasos sanguíneos se contraem. Essa contração tem o objetivo de reduzir a perda de calor para o ambiente, concentrando o sangue nos órgãos vitais.
No entanto, a vasoconstrição exige que o coração trabalhe com mais intensidade para bombear o sangue através de vasos mais estreitos, aumentando a pressão arterial. Além disso, o organismo libera mediadores químicos, como a adrenalina e outros hormônios relacionados ao estresse. Esses hormônios aceleram o metabolismo e aumentam a frequência cardíaca, contribuindo para a geração de calor. O cardiologista Fernando Ribas, da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, explica que essa liberação de adrenalina, embora essencial para o controle térmico, pode ser perigosa para indivíduos com predisposição a problemas cardiovasculares.
O perigo da adrenalina e as comorbidades
Para quem já possui fatores de risco, como hipertensão, diabetes ou aterosclerose (acúmulo de gordura nas paredes das artérias), a descarga de adrenalina representa um risco adicional. A instabilização de placas de aterosclerose, por exemplo, pode ser desencadeada por esse estresse hormonal, culminando em um infarto ou AVC. A aterosclerose é uma condição silenciosa que, muitas vezes, só se manifesta em situações de sobrecarga.
O frio também pode descompensar quadros de hipertensão e diabetes. A interferência da adrenalina nos níveis pressóricos e de glicose pode dificultar o controle dessas doenças crônicas, tornando os pacientes ainda mais vulneráveis. A liberação de mais glicose, um hormônio contrarregulador no metabolismo do diabetes, ocorre para fornecer energia extra ao corpo, mas pode desequilibrar o controle glicêmico.
Histórias reais e o alerta para a prevenção
A microempresária Rosângela Gusmão, de 65 anos, vivenciou de perto os perigos do frio. Em 10 de junho de 2025, em São Paulo, um dia com temperatura mínima de cerca de 14°C, ela sentiu uma dor súbita no peito, falta de ar e enjoo. Apesar de manter uma rotina saudável com alimentação balanceada, pilates e musculação, Rosângela tinha um entupimento em uma veia do coração causado por um coágulo, um problema que ela desconhecia.
“Em menos de 10 minutos, eu já sentia uma forte queimação na região do coração. A dor irradiou para o braço e a escápula do lado esquerdo”, relata Rosângela. Levada ao hospital por um vizinho, ela foi diagnosticada com infarto. Após angioplastia com implante de dois stents e dois meses de reabilitação cardiopulmonar, sua vida voltou ao normal, mas com uma nova percepção sobre os sinais do corpo. A história de Rosângela serve como um lembrete de que, mesmo sem sintomas aparentes ou comorbidades conhecidas, o frio pode ser um gatilho para problemas cardíacos.
Estratégias para se proteger do frio e do coração
Diante dos riscos que o frio impõe ao coração, é fundamental adotar medidas preventivas. A proteção começa com o agasalho adequado, utilizando camadas de roupas que ajudem a manter a temperatura corporal estável. Evitar a exposição prolongada a ambientes muito frios e a mudanças bruscas de temperatura também é crucial. Para mais orientações sobre a saúde do coração, consulte fontes confiáveis como o Ministério da Saúde.
Para quem já possui doenças cardiovasculares, hipertensão ou diabetes, o acompanhamento médico regular é indispensável. Manter a medicação em dia, seguir as orientações do profissional de saúde e monitorar a pressão arterial e os níveis de glicose são passos essenciais. Além disso, é importante estar atento aos sinais de alerta do corpo, como dor no peito, falta de ar, tontura ou mal-estar, e procurar atendimento médico imediato caso surjam.
- Mantenha-se aquecido: Use roupas em camadas, gorros, luvas e cachecóis.
- Evite mudanças bruscas de temperatura: Ao sair de um ambiente aquecido, agasalhe-se bem.
- Hidrate-se: Beba bastante água, mesmo que a sensação de sede seja menor no frio.
- Alimentação saudável: Mantenha uma dieta equilibrada para fortalecer o sistema imunológico e cardiovascular.
- Atividade física: Continue se exercitando, mas prefira ambientes internos ou horários mais quentes do dia.
- Controle de comorbidades: Não descuide do tratamento de hipertensão, diabetes e outras condições.
- Atenção aos sintomas: Em caso de dor no peito, falta de ar ou outros sinais, procure ajuda médica imediatamente.
A conscientização sobre os riscos do frio para o coração é o primeiro passo para uma prevenção eficaz. Ao adotar hábitos saudáveis e buscar acompanhamento médico, é possível desfrutar do inverno com mais segurança e bem-estar.
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