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A ascensão do ‘food noise’ e o debate sobre a medicalização do apetite

A ascensão do 'food noise' e o debate sobre a medicalização do apetite
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O termo ‘food noise’, ou ‘ruído alimentar’, emergiu rapidamente como um fenômeno de destaque nas discussões sobre saúde e bem-estar, especialmente impulsionado pela popularização das canetas emagrecedoras. O conceito, que descreve uma constante e intrusiva preocupação com a comida, tem gerado um intenso debate entre especialistas, levantando questionamentos sobre a patologização de um desejo humano fundamental e os interesses comerciais por trás dessa nova narrativa.

Bruno Gualano, professor do Centro de Medicina do Estilo de Vida da Faculdade de Medicina da USP e autor de ‘Bel, a Experimentadora’, trouxe o assunto à tona, criticando a construção do ‘food noise’ como um problema a ser medicalizado. Em um artigo recente publicado na revista científica Appetite, Gualano e colaboradores argumentam que, embora o relato de usuários de canetas emagrecedoras sobre a ‘aversão à comida’ seja apresentado como uma conquista, a própria existência do ‘food noise’ como um construto distinto merece uma análise mais aprofundada.

A ascensão do ‘food noise’ e suas definições controversas

O ‘food noise’ ganhou notoriedade no discurso popular, com a hashtag explodindo no TikTok em 2024. Curiosamente, pesquisas com pacientes bariátricos realizadas antes de 2023 não revelavam a presença de um fenômeno semelhante, sugerindo que o ‘ruído’ pode ter se tornado ‘audível’ com a chegada das canetas emagrecedoras ao mercado.

A falta de consenso é um dos pontos centrais da crítica. As definições do ‘ruído’ divergem: seria um eco persistente ou um chiado constante? Ele responde a estímulos externos, como o cheiro de um bolo ou uma propaganda de hambúrguer, ou brota de forma autônoma? Sem uma compreensão clara do que constitui o ‘food noise’ e qual seria um nível ‘normal’, torna-se impossível determinar o que, de fato, representaria uma ‘cura’ para essa condição.

Interesses comerciais por trás da patologização do apetite

A crítica se aprofunda ao questionar a necessidade de rebatizar condições já conhecidas. As escalas desenvolvidas para aferir o ‘food noise’ se sobrepõem a instrumentos antigos que medem a fissura e a obsessão alimentar, indicando que podem estar capturando o mesmo fenômeno. A pergunta que surge é: qual o interesse em dar um novo nome a algo já estudado?

A resposta, segundo os críticos, pode estar no rastro do dinheiro. Uma das escalas de ‘food noise’ foi criada em parceria com a WW International, antiga Weight Watchers, uma empresa com vasta experiência em lucrar ao convencer indivíduos de que seu apetite é um problema. Outra escala pertence à Ro, uma plataforma de telessaúde que comercializa testes para que o consumidor descubra se deve ‘calar a fome com remédio’. A situação levanta um alerta: quem diagnostica o ‘mal’ também vende a ‘cura’, criando um ciclo de dependência e consumo.

Da fome biológica ao estigma social: o paradoxo da medicalização

A medicalização do ‘food noise’ arrasta a fome de um campo moral para um biológico, abrindo caminho para a intervenção farmacológica. Embora essa mudança possa, para os otimistas, aliviar a culpa que recai sobre o indivíduo obeso, ela não elimina o estigma social. Na vida real, e em muitos consultórios, a pessoa não é vista como alguém que sofre de ‘ruído alimentar’, mas sim como alguém com ‘cabeça de gordo’, perpetuando preconceitos.

A patologização do desejo não é uma inovação na história da humanidade. Filósofos estoicos e epicuristas, por exemplo, já consideravam a paixão (*páthos*) como uma doença da alma. Para os estoicos, a fome não era em si uma paixão, mas um impulso que se tornava *páthos* apenas quando o juízo lhe concedia o comando. Os epicuristas, por sua vez, incluíam a alimentação entre os desejos naturais e necessários.

Lições da antiguidade: educar o desejo versus sufocar farmacologicamente

O contraste entre a tradição antiga e a abordagem contemporânea é marcante na terapêutica. Os antigos prescreviam o que Michel Foucault consagraria como ‘práticas de si’, que incluíam abstinências dietéticas, mas com o objetivo de fortalecer o juízo e educar o desejo, e não de erradicá-lo. A perspectiva moderna, no entanto, tende a sufocar o apetite farmacologicamente, buscando uma solução rápida para um problema complexo.

O paradoxo contemporâneo, como aponta Alexandra Brewis, primeira autora do artigo de Gualano, reside no fato de que essa cultura que celebra a contenção e moraliza o corpo floresce em um ambiente tecnologicamente desenhado para nos fazer pensar constantemente em comida. Produtos formulados para serem irresistíveis, porções cada vez maiores e um marketing agressivo que nos atinge de outdoors a redes sociais criam um ciclo vicioso: um lado do sistema fabrica o ‘barulho’, enquanto o outro vende o ‘silêncio’.

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