A postura do senador Flávio Bolsonaro (PL) durante a crise sanitária da pandemia de Covid-19 tem sido um ponto de constante debate e reavaliação. Embora atualmente se apresente como um defensor da vacinação, buscando uma imagem de moderação em contraste com a de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, o parlamentar adotou posições que, em um primeiro momento, contrariavam abertamente o consenso científico e as recomendações de especialistas em saúde pública.
No auge da emergência sanitária, quando o mundo buscava respostas para conter o avanço do novo coronavírus e antes da disponibilidade de imunizantes, Flávio Bolsonaro foi um ferrenho defensor de medicamentos sem eficácia comprovada e um crítico veemente das medidas de distanciamento social, essenciais para frear a disseminação do vírus.
A postura de Flávio Bolsonaro no auge da pandemia
Em setembro de 2020, o senador utilizou suas redes sociais para celebrar sua recuperação da Covid-19, atribuindo a cura a medicamentos como a hidroxicloroquina e a azitromicina. Em sua publicação, ele afirmou: “Estou curado da Covid-19, graças a Deus! Tratei, desde os primeiros sintomas, com hidroxicloroquina e azitromicina, com acompanhamento médico! Comigo, já são quase 3,3 milhões de brasileiros recuperados!”. Essa declaração ecoava a narrativa do então governo federal, que promovia o chamado “tratamento precoce” apesar da falta de evidências científicas robustas que comprovassem a eficácia desses fármacos contra a doença.
A defesa de Flávio Bolsonaro por esses medicamentos se dava em um cenário global de incertezas e busca por soluções, mas ia de encontro às orientações de agências de saúde e organizações médicas internacionais, que alertavam para os riscos e a ausência de benefícios. A Organização Mundial da Saúde (OMS), por exemplo, reiterou diversas vezes que não havia comprovação científica para o uso da cloroquina no tratamento da Covid-19, como pode ser verificado em relatórios e atualizações da entidade.
Críticas ao isolamento social e o slogan “O Brasil Não Pode Parar”
Além da defesa de tratamentos controversos, Flávio Bolsonaro também se alinhou à visão de seu pai ao criticar as medidas de restrição de circulação e o distanciamento social, amplamente recomendados por cientistas para achatar a curva de contágio. Em 24 de março de 2020, ele defendeu a transição para o “isolamento vertical”, uma estratégia que preconizava o isolamento apenas de grupos de risco, como idosos e pessoas com comorbidades, enquanto o restante da população manteria suas atividades normais.
Em uma postagem daquele dia, o senador escreveu: “Vamos sair do isolamento horizontal para o vertical, protegendo os mais vulneráveis e permitindo que pessoas voltem a trabalhar”. No mesmo contexto, ele parabenizou o presidente Jair Bolsonaro por defender a circulação de pessoas, utilizando a hashtag #OBrasilNaoPodeParar. “Mantendo-se o isolamento total das pessoas, a previsão é de chegarmos a 40 milhões de desempregados. Certamente muito mais pessoas morreriam. Parabéns, presidente Jair Bolsonaro, pela coragem de agir no agora e pensar no pós-crise. Isso que se espera de um estadista”, declarou, ignorando os alertas sobre o potencial colapso do sistema de saúde que um relaxamento precoce das medidas poderia causar.
A guinada pró-vacina e o contexto político
A narrativa de Flávio Bolsonaro começou a mudar significativamente a partir do primeiro semestre de 2021, quando os primeiros imunizantes contra a Covid-19 já estavam sendo distribuídos e a campanha de vacinação ganhava força. Foi nesse período que o senador passou a se posicionar como um defensor das vacinas, contrastando com a postura negacionista que seu pai mantinha.
Em março de 2021, ao responder a críticas do então presidente da Câmara, Rodrigo Maia, sobre a ineficácia de certos medicamentos, Flávio afirmou que “tratamento precoce e vacina são totalmente complementares”, um aceno inicial à importância da imunização. A mudança de tom foi percebida como uma estratégia política, visando mitigar o desgaste do governo federal, cuja avaliação pública era severamente afetada pela gestão da pandemia e pela lentidão na aquisição de vacinas.
Ainda em março de 2021, o senador chegou a compartilhar um vídeo polêmico que comparava governadores a nazistas por dividirem as atividades econômicas em essenciais e não essenciais, uma crítica contundente às medidas restritivas adotadas pelos estados. No entanto, foi nesse mesmo mês que ele começou a dar sinais mais claros de apoio à vacinação, inclusive ao firmar uma parceria com o senador Randolfe Rodrigues (PT-AP) para elaborar um projeto de lei relacionado à imunização. Essa guinada, de um crítico ferrenho das medidas sanitárias e defensor de tratamentos sem base científica para um apoiador da vacina, reflete a complexa dinâmica política e social que marcou a pandemia no Brasil.
Para continuar acompanhando as análises aprofundadas sobre os principais temas da política brasileira e global, fique ligado no M1 Metrópole. Nosso compromisso é trazer informação relevante, atual e contextualizada, com a credibilidade que você espera de um portal multitemático.