A ministra das Mulheres, Márcia Lopes, defende que a extinção da escala de trabalho 6×1, que prevê apenas uma folga semanal, é uma “exigência do nosso tempo” e representa um passo fundamental para ampliar o acesso das mulheres ao mercado de trabalho no Brasil. A declaração foi feita em um contexto de intenso debate no Congresso Nacional e mobilização social em torno da proposta de redução da jornada de trabalho.
Para a ministra, a mudança não apenas facilitará a inserção feminina, mas também trará benefícios significativos para a saúde e as relações familiares das trabalhadoras. “Elas vão cuidar melhor da saúde, das relações familiares, territoriais. Eu não tenho dúvida que é uma exigência do nosso tempo o fim da escala 6×1”, afirmou Márcia Lopes em entrevista à Agência Brasil na última quarta-feira (29), após participar de um evento no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), no Rio de Janeiro.
A jornada 6×1 e o impacto desproporcional nas mulheres
Márcia Lopes é categórica ao apontar as mulheres como as principais prejudicadas pela atual escala de trabalho 6×1. Historicamente, a sociedade impôs às mulheres uma “dupla, tripla jornada de trabalho”, onde, além do emprego remunerado, recai sobre elas uma vasta carga de trabalho não remunerado.
Essa realidade se manifesta no cotidiano, onde, “quando elas terminam uma etapa do dia de trabalho, apesar do cansaço, elas dão início a outras etapas, seja estudando, cuidando das suas casas, dos filhos, dos afazeres”, explica a ministra. O fim da escala 6×1, portanto, é visto como uma medida essencial para combater essa sobrecarga e promover uma maior igualdade de gênero no ambiente profissional e familiar.
A ministra acredita que a redução da jornada de trabalho não só melhora a qualidade de vida, mas também impulsiona a empregabilidade feminina. “Ao alcançar o fim da escala 6×1 e trabalhar pela igualdade salarial, as mulheres vão tendo muito mais chance de acessar o trabalho e de conquistar espaços e condições de trabalho melhores”, ressaltou, destacando o impacto positivo para mulheres periféricas e negras.
O debate legislativo e a pressão popular pelo fim da escala 6×1
A discussão sobre a jornada de trabalho ganhou força no Congresso Nacional. Atualmente, o Projeto de Lei (PL) 1838/2026, de iniciativa do governo federal, propõe a redução do limite máximo da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais, garantindo dois dias de descanso remunerado sem redução salarial. O governo Lula solicitou regime de urgência para a tramitação do PL, que na quinta-feira (30) aguardava despacho do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB).
Além do PL, tramitam na Câmara duas Propostas de Emenda à Constituição (PEC), a PEC 221/19 e a PEC 8/25, que também abordam o fim da escala 6×1. Uma comissão especial para analisar essas matérias foi instaurada na última quarta-feira (29), sinalizando a relevância do tema na agenda legislativa.
A pauta é também uma das principais bandeiras das manifestações de trabalhadores no feriado de 1º de Maio. A ministra Márcia Lopes, que preside o Conselho Nacional de Direito da Mulher, um fórum de participação da sociedade civil, revelou que grupos de mulheres já estão articulando e pressionando os presidentes da Câmara, Hugo Motta, e do Senado, Davi Alcolumbre, pela aprovação da medida. “As mulheres são fortes, são mobilizadas e já estão fazendo isso”, afirmou a ministra, otimista com a conquista desse direito.
Desigualdade salarial e os reflexos econômicos da mudança
A luta pelo fim da escala 6×1 se entrelaça com o combate à desigualdade salarial de gênero. Dados do 5º Relatório de Transparência Salarial e de Critérios Remuneratórios, divulgado pelo Ministério do Trabalho e Emprego na última segunda-feira (27), mostraram que mulheres brasileiras recebem, em média, 21,3% a menos que homens no setor privado com 100 ou mais empregados. Isso significa que, para cada R$ 1.000 de salário de um homem, a mulher recebe R$ 787.
A Lei nº 14.611, de julho de 2023, já reforça a igualdade salarial entre homens e mulheres para a mesma função, exigindo que empresas com mais de 100 empregados adotem medidas para garantir essa paridade e divulguem seus salários. A redução da jornada de trabalho é vista como mais uma ferramenta para mitigar essas disparidades.
Os impactos econômicos da redução da jornada são objeto de estudos divergentes. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) projeta um prejuízo de R$ 76 bilhões no Produto Interno Bruto (PIB) e um aumento médio de 6,2% nos preços. A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) estima um aumento de 21% nos custos da folha salarial e uma pressão inflacionária de até 13% para o consumidor.
Em contrapartida, um levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), vinculado ao Ministério do Planejamento e Orçamento, sugere que os custos da redução para 40 horas semanais seriam comparáveis aos impactos de reajustes históricos do salário mínimo, indicando que o mercado de trabalho teria capacidade de absorver a medida.
Benefícios para empresas e a sociedade
A ministra Márcia Lopes acredita que o fim da escala 6×1 trará reflexos positivos não apenas para as trabalhadoras, mas também para as empresas e a economia do país. Entre os benefícios esperados estão a redução do absenteísmo (faltas, atrasos e saídas antecipadas) e um aumento na dignidade e qualidade de vida dos trabalhadores.
“Traz muito mais dignidade, traz tempo livre que será utilizado para, inclusive, ir ao cinema, visitar museu, poder se alimentar melhor, organizar a sua comunidade, o seu território, de poder empreender”, listou a ministra. Essa visão é corroborada pela diretora Socioambiental do BNDES, Tereza Campello, que participou do mesmo evento em que a ministra fez suas declarações.
No encontro, o BNDES anunciou um investimento de R$ 80 milhões para iniciativas que beneficiam mulheres empreendedoras e o “trabalho do cuidado” em periferias, como cozinhas comunitárias, lavanderias públicas e cuidadotecas. Para Campello, o fim da escala 6×1 está intimamente ligado à melhoria da condição de vida das mulheres, permitindo-lhes “ter direito a se cuidar, ter direito ao fim de semana, ao autocuidado”.
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