O estado de São Paulo enfrenta um cenário alarmante de violência, com o registro de um aumento histórico nos casos de feminicídio e uma elevação preocupante na letalidade policial durante o primeiro trimestre de 2026. Os dados, divulgados pela Secretaria da Segurança Pública (SSP) de São Paulo, acendem um alerta sobre a necessidade urgente de aprimoramento das políticas de segurança e proteção às mulheres.
Entre janeiro e março de 2026, a cada 25 horas, uma mulher foi vítima de feminicídio no estado, evidenciando a persistência e a gravidade da violência de gênero. Paralelamente, as mortes decorrentes de intervenção policial também apresentaram crescimento, levantando questões sobre o uso da força e a eficácia das estratégias de segurança pública.
Aumento alarmante de feminicídios no estado
Os números de feminicídio em São Paulo atingiram um patamar recorde no primeiro trimestre de 2026, com 86 casos registrados. Este dado representa um salto de 41% em comparação com o mesmo período de 2025 e um aumento ainda mais expressivo de 72% em relação ao primeiro trimestre de 2022, ano de início da atual gestão estadual. É o maior número de ocorrências para um primeiro trimestre desde o início da série histórica, sublinhando a escalada da violência contra a mulher.
O crescimento em São Paulo não é um fenômeno isolado, mas acompanha a tendência nacional de alta nos feminicídios. Contudo, o ritmo no estado é significativamente mais acelerado. Enquanto o país registrou um aumento de 9,1% nos casos entre 2022 e 2025, São Paulo viu um crescimento de 43% no mesmo período, conforme levantamento do Instituto Sou da Paz. Este contraste ressalta a urgência de ações específicas para a realidade paulista.
A análise regional dos dados revela que o interior paulista foi o epicentro desse avanço, com 60 feminicídios no primeiro trimestre de 2026. Isso representa um aumento de 76,5% em relação a 2025 e de 93,5% na comparação com 2022. A Grande São Paulo foi a única macrorregião a registrar uma queda nos casos, com redução de 10% em relação a 2025 e de 25% na comparação com 2022. Já na capital, o número de casos permaneceu estável em 17 registros em relação ao ano passado, mas demonstra uma alta de 142,9% em comparação com 2022.
Além dos feminicídios, outros indicadores de violência contra a mulher também mostram uma tendência de alta. As ocorrências de lesão corporal dolosa contra mulheres cresceram 47% entre 2022 e 2026, totalizando 19.249 registros no estado. Os casos de estupro de vulnerável também aumentaram 22% no período, com 2.941 ocorrências nos primeiros três meses de 2026, nove a mais que em 2025.
Ineficácia e o ciclo da violência: a visão de especialistas
Para a pesquisadora do Instituto Sou da Paz, Malu Pinheiro, o aumento dos casos de feminicídios em São Paulo é um sinal alarmante que “revela a ineficiência do poder público em romper com o ciclo de violência contra a mulher”. A especialista enfatiza a importância de ações preventivas robustas para evitar o escalonamento de crimes que muitas vezes já foram reportados às autoridades.
Entre as medidas cruciais apontadas por Pinheiro estão o acolhimento qualificado das vítimas de violência doméstica, a disponibilização célere de medidas protetivas e o monitoramento contínuo dos agressores, com o uso de tornozeleira eletrônica. Essas ações, se implementadas de forma eficaz, poderiam interromper a progressão da violência antes que ela atinja seu desfecho mais trágico.
A repercussão de casos recentes na Grande São Paulo ilustra a brutalidade e o impacto desses crimes. Em Guarulhos, Anderson Pereira é acusado de matar Sara de Lima, de 44 anos, mãe de seu filho, e de atirar contra a filha dela, Jheniffer Tadashi Lima dos Santos, de 23 anos, que tentou defender a mãe. O agressor foi preso no dia seguinte. Em São Bernardo do Campo, um homem assassinou a esposa com dois tiros na cabeça e no braço na noite de uma sexta-feira, 1º de março, na presença de dois dos três filhos da vítima. Tais episódios chocam a sociedade e reforçam a urgência de medidas protetivas e punitivas.
Resposta do governo: medidas e desafios no combate à violência
Em nota oficial, a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo reiterou que “o enfrentamento à violência contra a mulher, incluindo os casos de feminicídio, é prioridade do governo de São Paulo”. A pasta afirma ter intensificado continuamente a rede de proteção e os mecanismos de prevenção. Entre as ações destacadas, estão a ampliação da rede de atendimento, com 144 Delegacias de Defesa da Mulher (DDMs) e 173 Salas DDM para atendimento remoto, além do reforço de mais de 650 policiais.
Estão previstas ainda 69 novas salas DDM, parte de um pacote de medidas anunciado no final de março para ampliar as políticas públicas de combate à violência contra a mulher. O estado também oferece o aplicativo SP Mulher Segura, que permite o registro de ocorrências online 24 horas por dia, e um botão do pânico para mulheres com medida protetiva. O pacote de ações inclui um Plano de Metas Decenal de Enfrentamento à Violência contra a Mulher e a ampliação do monitoramento eletrônico de agressores.
A Polícia Civil, por sua vez, intensificou o combate a esses crimes com grandes operações especializadas, como a Operação Damas de Ferro III, deflagrada em 30 de maio. Nos últimos três meses, mais de 2 mil homens foram presos em flagrante ou por cumprimento de mandados judiciais relacionados a crimes contra mulheres. Nos casos recentes da Grande São Paulo, o autor do crime em Guarulhos foi preso em Itaquaquecetuba, confessou o crime e permanece detido. Em São Bernardo do Campo, a Justiça concedeu a prisão temporária do suspeito, e buscas estão sendo realizadas para sua captura.
Letalidade policial em ascensão e a vitimização de agentes
Além do aumento nos feminicídios, o primeiro trimestre de 2026 também registrou um crescimento na letalidade policial em São Paulo. O número de mortes decorrentes de intervenção policial subiu de 163 para 176, um aumento de 8% em todo o estado, na comparação com o mesmo período do ano anterior. As mortes cometidas por policiais durante a folga tiveram um crescimento ainda maior, de 21,4%, passando de 28 para 34 casos. Já as mortes em serviço subiram 8,3%, de 132 para 143 casos.
Comparando com 2022, o número de pessoas mortas por policiais em serviço no estado cresceu 93,2%, passando de 74 para 143 registros, segundo o Instituto Sou da Paz. Na capital paulista, o crescimento foi ainda mais acentuado nas ocorrências envolvendo policiais em serviço, com um aumento de 35%, de 48 para 60 mortes no primeiro trimestre de 2026. O período também registrou um aumento na vitimização policial, com as mortes de policiais em serviço passando de dois casos em 2025 para três em 2026.
Transparência e tecnologia: a defesa da Secretaria de Segurança Pública
A SSP reitera que todas as ocorrências de mortes por intervenção policial (MDIPs) são “rigorosamente investigadas”, com acompanhamento das corregedorias, do Ministério Público e do Poder Judiciário. A pasta afirma que o Estado tem adotado medidas contínuas para a redução da letalidade, incluindo o aperfeiçoamento de protocolos operacionais, a capacitação dos agentes e a ampliação do uso de tecnologias e equipamentos de menor potencial ofensivo, como espargidores, bastões retráteis e armas de incapacitação neuromuscular, com investimentos superiores a R$ 27,8 milhões na aquisição de mais de 3.500 unidades.
O governo de São Paulo destaca ser referência em transparência e controle, com o uso de Câmeras Operacionais Portáteis (COPs) e monitoramento em tempo real das ações policiais. O total de equipamentos está sendo ampliado para 15 mil, representando um aumento de 48,1% em relação aos contratos firmados na gestão anterior. Programas como o Muralha Paulista integram tecnologia, inteligência e bancos de dados para aumentar a eficiência das ações e reduzir a necessidade do uso da força. Atualmente, 610 municípios mostraram interesse na adesão a esta política pública, sendo 205 já integrados, com mais de 125,5 mil câmeras interligadas e mais de 70% da população paulista coberta pelo sistema.
Diante dos desafios apresentados pelos dados do primeiro trimestre de 2026, o M1 Metrópole continuará acompanhando de perto os desdobramentos e as ações das autoridades para garantir a segurança e a justiça no estado de São Paulo. Mantenha-se informado com nossa cobertura completa e contextualizada sobre este e outros temas relevantes para a sociedade.