As exportações brasileiras de frango e mel para a União Europeia (UE) ganharam um novo fôlego nesta semana. Após um período de incertezas iniciado em setembro, o bloco sinalizou que a retomada das compras desses produtos pode ocorrer no curto prazo. A indicação foi dada pelo comissário europeu de Comércio e Segurança Econômica, Maroš Šefčovič, durante uma agenda estratégica em Milwaukee, nos Estados Unidos.
O encontro ocorreu paralelamente à reunião de ministros de Comércio do G20, grupo que reúne as principais potências econômicas globais. Representando o Brasil, estiveram presentes os ministros Mauro Vieira (Relações Exteriores) e Márcio Elias Rosa (Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços). A sinalização europeia é vista como uma vitória diplomática e técnica para o agronegócio nacional, que busca recuperar espaço em um dos mercados mais exigentes do mundo.
Auditoria técnica abre caminho para o retorno de aves e mel
O principal fator que sustenta o otimismo do governo brasileiro é o resultado satisfatório de uma auditoria realizada recentemente por técnicos europeus. Segundo nota conjunta divulgada pelo Itamaraty e pelo Mdic, o representante da UE destacou que o sistema de produção brasileiro nas cadeias de aves e mel demonstrou conformidade com os rigorosos padrões internacionais.
A avaliação técnica focou, primordialmente, no controle do uso de antimicrobianos. A legislação europeia é taxativa ao proibir o uso dessas substâncias como promotores de crescimento animal, permitindo-as apenas para o tratamento de infecções diagnosticadas. Os auditores verificaram que o Brasil possui mecanismos robustos para impedir que o uso indevido dessas substâncias comprometa a segurança alimentar e a saúde pública.
O próximo passo decisivo ocorrerá nos dias 20 e 21 de outubro, quando o Comitê Permanente de Plantas, Animais, Alimentos e Rações da Comissão Europeia se reunirá. O Ministério da Agricultura já solicitou formalmente que o relatório da auditoria seja incluído na pauta. Caso os procedimentos burocráticos avancem conforme o esperado, o embargo que vigora desde o início de setembro poderá ser levantado para estas cadeias específicas.
Desafios da rastreabilidade mantêm carne bovina sob alerta
Apesar do avanço para o frango e o mel, a situação da carne bovina permanece em um estágio mais complexo de negociação. O governo brasileiro pleiteia que o bloco aplique um procedimento acelerado para a proteína bovina, seguindo o exemplo das outras cadeias, mas as exigências sanitárias europeias para este setor são tradicionalmente mais rígidas.
O grande entrave reside na rastreabilidade individual dos animais. Para a União Europeia, é necessário comprovar o controle sanitário de todo o ciclo de vida do bovino, desde o nascimento até o momento do abate. No Brasil, implementar e validar esse sistema de forma que atenda integralmente aos requisitos europeus pode levar até dois anos. Essa diferença técnica explica por que a retomada da carne bovina não deve acompanhar a agilidade prevista para as aves.
A carne bovina é um dos pilares da balança comercial brasileira com a Europa. A manutenção das restrições por um período prolongado impõe desafios logísticos e financeiros aos exportadores, que precisam redirecionar volumes para outros mercados ou adaptar processos produtivos em tempo recorde para atender às novas demandas do bloco.
Impacto das normas de antimicrobianos nas exportações brasileiras
A suspensão das vendas, que entrou em vigor em 3 de setembro, foi motivada pela retirada do Brasil da lista de países em conformidade com as novas regras europeias sobre antimicrobianos. Essa mudança normativa não afetou apenas o Brasil, mas colocou diversos parceiros comerciais da UE sob escrutínio. O objetivo do bloco é combater a resistência bacteriana, um problema de saúde global crescente.
Para o setor produtivo brasileiro, a auditoria bem-sucedida serve como um selo de qualidade. Ela comprova que, além de volume, o Brasil entrega segurança e transparência em seus processos. A normalização dos embarques é fundamental para manter a competitividade do país, que disputa espaço com produtores locais europeus e outros grandes exportadores, como a Ucrânia e a Tailândia.
Além das proteínas animais, a reunião em Milwaukee também abordou temas industriais. Os ministros brasileiros discutiram a revisão das cotas de aço impostas pela UE. Embora o processo de redistribuição de cotas siderúrgicas tenha etapas previstas até 2027, o diálogo atual pode abrir portas para que o Brasil amplie sua participação no mercado de produtos siderúrgicos de alto valor agregado.
Acompanhe as principais atualizações sobre o comércio exterior e os impactos econômicos no agronegócio brasileiro aqui no M1 Metrópole. Nossa equipe segue apurando os desdobramentos das negociações internacionais para trazer a você informação precisa e contextualizada sobre o que move a economia do país.