PUBLICIDADE

Justiça de São Paulo responsabiliza Enel por falhas em apagão que deixou milhões sem luz

Justiça de São Paulo responsabiliza Enel por falhas em apagão que deixou milhões sem luz
Foto: Arquivo pessoal

A Justiça de São Paulo proferiu uma decisão significativa que lança luz sobre as responsabilidades das concessionárias de energia em eventos climáticos extremos. Em veredito recente, o Tribunal de Justiça reconheceu falhas na prestação de serviço da Enel durante o apagão massivo que assolou a capital paulista e sua região metropolitana em dezembro de 2025. O episódio, provocado por um ciclone extratropical, deixou mais de 2,2 milhões de imóveis sem energia elétrica, em uma crise que se estendeu por dias e gerou enorme transtorno à população.

A sentença, emitida pela juíza Gisele Valle Monteiro da Rocha na última sexta-feira (4), é resultado de uma ação civil pública movida pela Defensoria Pública e pelo Ministério Público. Ela não apenas aponta problemas na gestão da crise, na mobilização de equipes e na manutenção da rede elétrica, mas também condena a Enel ao pagamento das custas e despesas processuais. A decisão, embora passível de recurso, estabelece um precedente importante sobre a previsibilidade de eventos climáticos e a necessidade de preparo das empresas de infraestrutura.

A Decisão Judicial e a Responsabilidade da Enel

A magistrada refutou categoricamente o argumento da concessionária de que a intensidade do fenômeno climático seria, por si só, suficiente para isentá-la de responsabilidade. Segundo a sentença, embora o ciclone tenha sido o gatilho para as interrupções, ele não pode ser considerado a causa exclusiva da vasta extensão dos danos ou da demora inaceitável para o restabelecimento completo do fornecimento de energia.

A juíza enfatizou que tempestades, vendavais e ciclones são riscos inerentes e previsíveis à atividade de distribuição de energia, especialmente em uma metrópole como São Paulo, frequentemente sujeita a eventos climáticos severos. Dessa forma, é dever da concessionária manter uma infraestrutura robusta, um planejamento eficaz e uma capacidade operacional adequada para prevenir e mitigar os impactos sobre os consumidores. A decisão sublinha que a resiliência da rede e a agilidade na resposta são componentes essenciais do serviço público concedido.

Falhas Críticas na Gestão do Apagão

A fundamentação da decisão judicial foi embasada, em grande parte, na Nota Técnica n° 9/2026-SFT/ANEEL, um documento produzido a partir de uma fiscalização detalhada da Agência Nacional de Energia Elétrica sobre a atuação da empresa durante o apagão. Este relatório técnico revelou uma série de deficiências que contribuíram para agravar a crise e prolongar o sofrimento dos consumidores.

Entre as falhas mais significativas apontadas pela ANEEL e corroboradas pela Justiça, destacam-se: a concentração excessiva das equipes de atendimento no horário comercial, com uma redução drástica do efetivo durante a noite e a madrugada, momentos críticos para a resolução de emergências; o uso insuficiente de veículos de grande porte, essenciais para o transporte de equipamentos e materiais em áreas afetadas; e o emprego de equipes que não possuíam preparação específica para lidar com ocorrências de alta complexidade. Adicionalmente, foram identificadas deficiências no plano de contingência, na manutenção preventiva da rede e um controle inadequado da vegetação próxima à fiação, fator que frequentemente contribui para quedas de energia em vendavais. A baixa resolutividade dos atendimentos também foi um ponto crítico, indicando que as equipes em campo demoravam a solucionar os problemas.

O Impacto Prolongado e os Números da Interrupção

Os dados apresentados na nota técnica da ANEEL e reproduzidos na sentença revelam a dimensão do caos. Em 10 de dezembro de 2025, a rede elétrica registrou um total de 6.715 ocorrências de interrupção do fornecimento. O mais alarmante é que, desse montante, 3.056 ocorrências — o equivalente a 46% do total — levaram mais de 24 horas para serem solucionadas. Essas interrupções prolongadas afetaram diretamente 759.304 unidades consumidoras, um número expressivo que demonstra a capilaridade do problema.

A situação foi ainda mais grave para muitos. A decisão judicial destaca que houve consumidores que permaneceram sem energia por até seis dias após o evento climático. A interrupção mais longa registrada atingiu a marca de 142,8 horas, evidenciando uma falha sistêmica na capacidade de resposta da concessionária. Para a Justiça, a intensidade do ciclone pode ter justificado o início das interrupções, mas não há justificativa para a demora excessiva na recomposição do serviço, que foi agravada por insuficiências claras de planejamento, manutenção e capacidade de resposta da Enel.

Repercussões e o Futuro da Concessionária

A decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo estabelece um marco importante para a Enel e para o setor de distribuição de energia no Brasil. Ao reconhecer as falhas da empresa, a Justiça reforça a responsabilidade das concessionárias em garantir a continuidade e a qualidade do serviço, mesmo diante de eventos naturais. Este veredito pode abrir caminho para novas ações e indenizações a consumidores que foram prejudicados, além de intensificar a pressão regulatória por parte da ANEEL, que já havia rejeitado um pedido de perícia da Enel e dado um prazo para a empresa apresentar sua defesa final. Para entender melhor os direitos dos consumidores de energia, consulte a página de Direitos e Deveres do Consumidor da ANEEL.

Enquanto a Enel ainda pode recorrer da decisão, o caso serve como um lembrete contundente da necessidade de investimentos contínuos em infraestrutura, planos de contingência robustos e equipes bem preparadas para enfrentar os desafios impostos por um cenário climático cada vez mais imprevisível. A expectativa é que a concessionária reveja suas estratégias operacionais e de manutenção para evitar que episódios de tamanha gravidade se repitam, garantindo a segurança e o bem-estar dos milhões de consumidores que dependem de seus serviços.

Para se manter sempre informado sobre as decisões que impactam seu dia a dia, a economia, a política e os eventos que moldam nossa sociedade, continue acompanhando o M1 Metrópole. Nosso compromisso é trazer informação relevante, atual e contextualizada, com a profundidade que você merece. Acesse nosso portal e explore a variedade de temas que preparamos para você.

Leia mais

PUBLICIDADE