A situação financeira das famílias brasileiras atinge um ponto crítico, com o endividamento alcançando novos recordes históricos. Em um cenário marcado por taxas de juros elevadas e spreads bancários que figuram entre os maiores do mundo, a capacidade de milhões de pessoas de honrar seus compromissos financeiros é severamente testada. Diante deste panorama desafiador, o governo federal lançou o Novo Desenrola, uma iniciativa que busca oferecer um respiro e a oportunidade de renegociação de dívidas, visando aliviar a pressão sobre o orçamento doméstico e, consequentemente, impulsionar a economia.
Juros altos e o peso sobre o orçamento doméstico
Economistas apontam uma relação direta entre a alta taxa básica de juros, a Selic, e o crescente endividamento das famílias. A Selic, definida pelo Banco Central (BC), serve como referência para todas as demais taxas de juros no país. Quando ela está em patamares elevados, os juros cobrados pelos bancos em empréstimos e financiamentos também sobem, tornando o crédito mais caro e dificultando a quitação de dívidas. O Brasil, inclusive, ostenta a segunda maior taxa de juros reais do mundo, descontada a inflação, com 9,3%, ficando atrás apenas da Rússia, um país em conflito. Essa realidade contrasta drasticamente com a de outras economias, como o México, que registra 5,0%.
Além da Selic, outro fator determinante é o spread bancário, a diferença entre o que os bancos pagam para captar recursos e o que cobram para emprestá-los aos consumidores. Em março deste ano, o spread bancário no Brasil atingiu 34,6 pontos percentuais (p.p.), um aumento significativo em relação aos 29,7 p.p. registrados no mesmo período de 2025. Para contextualizar, o Banco Mundial estima um spread bancário médio global em torno de 6 p.p., evidenciando a particularidade do mercado brasileiro. A professora de economia da Universidade de Brasília (UnB), Maria Lourdes Mollo, ressalta que “os juros dos empréstimos estão muito altos. Isso tem uma relação direta, sem dúvida nenhuma, com o endividamento das pessoas, o que tem dificultado muito a economia a funcionar”.
Endividamento recorde e a precarização do trabalho
A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) revelou dados alarmantes: pelo quarto mês consecutivo, o total de famílias com dívidas cresceu no Brasil, alcançando 80% em abril, um novo recorde histórico. O índice de famílias inadimplentes, com contas em atraso, manteve-se em 29,7%, uma estabilidade que ainda representa um número elevado de pessoas em dificuldades. O impacto é ainda mais severo para as famílias de menor renda, que ganham até três salários mínimos. Neste grupo, o nível de endividamento chega a 83,6%, e o índice de contas em atraso atinge 38,2%, sublinhando a vulnerabilidade social e econômica.
A professora Maria Lourdes Mollo aponta a precarização dos empregos no Brasil, motivada pela reforma trabalhista, como um agravante para a situação das famílias. Muitos brasileiros se veem forçados a contrair dívidas para complementar o orçamento, cobrir despesas essenciais com saúde e o cotidiano. Essa dinâmica cria um ciclo vicioso, onde a falta de renda estável e a dificuldade de acesso a crédito justo empurram as famílias para um endividamento cada vez maior.
O Brasil no topo do ranking de spreads bancários
A professora de economia da Universidade Federal Fluminense (UFF), Juliane Furno, enfatiza que o endividamento das famílias brasileiras é amplamente explicado pelas “altíssimas” taxas do spread bancário. O Brasil figura como o país com as maiores taxas de spread do planeta, de acordo com o ranking da World Open Data de 2024, superando nações como República Tcheca, Sudão do Sul e Ucrânia. Essa posição de liderança global no que diz respeito aos spreads levanta questionamentos sobre a estrutura do sistema financeiro nacional.
Os bancos, por sua vez, justificam os spreads elevados pela alta inadimplência, argumentando que o valor compensa o risco de calote. Contudo, a professora Furno inverte a lógica, sugerindo que “a inadimplência é alta porque os juros (spread) são altos”. Essa “bola de neve”, como descreve Maria Mello de Malta, professora de economia política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), leva famílias trabalhadoras a buscar novas fontes de crédito para quitar dívidas antigas, endividando-se progressivamente. Os dados do Banco Central de março corroboram essa disparidade, mostrando que os bancos cobram das pessoas físicas uma taxa de juros média de 61% ao ano, enquanto para as empresas a taxa média é de 24%. O caso mais extremo é o do rotativo do cartão de crédito, cujos juros podem ultrapassar 400% ao ano, aprisionando consumidores em um ciclo de dívida quase impossível de ser quebrado.
O Novo Desenrola como alívio emergencial
Em resposta a este cenário complexo, o governo federal lançou o Novo Desenrola Brasil. O programa visa auxiliar famílias, estudantes e pequenos empreendedores a renegociar suas dívidas, limpar o nome e, consequentemente, recuperar o acesso ao crédito. A nova fase da iniciativa terá duração de 90 dias e oferece condições facilitadas, como descontos de até 90%, juros reduzidos e a possibilidade de utilizar o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para abatimento de débitos.
A expectativa é que o Novo Desenrola possa liberar parte do orçamento das pessoas, permitindo que elas voltem a consumir e, assim, contribuam para um estímulo à economia. Embora seja uma medida emergencial crucial para milhões de brasileiros, a eficácia a longo prazo do programa dependerá também de uma discussão mais ampla sobre as políticas monetárias e a estrutura do sistema financeiro, que atualmente impõem um fardo pesado sobre o consumidor.
Acompanhar a evolução do endividamento das famílias e as respostas governamentais é fundamental para entender os rumos da economia brasileira. Para se manter sempre bem informado sobre este e outros temas relevantes, com análises aprofundadas e contextualizadas, continue navegando no M1 Metrópole. Nosso compromisso é com a informação de qualidade, oferecendo uma cobertura completa e diversificada para você.