PUBLICIDADE

Recorde de eleitores brasileiros no exterior intensifica disputa entre lulistas e bolsonaristas

Recorde de eleitores brasileiros no exterior intensifica disputa entre lulistas e bolsonaristas
Pedro Ladeira - 19.set.18/Folhapress

O cenário político brasileiro ganha uma nova dimensão com o crescimento sem precedentes do eleitorado residente no exterior. Com a reta final da disputa presidencial se aproximando, a atenção de lulistas e bolsonaristas se volta para os quase 919 mil brasileiros aptos a votar fora do país, um contingente que não apenas bate recordes, mas também se mostra cada vez mais engajado, apesar dos desafios logísticos.

Este grupo, que no sistema eleitoral é tratado como uma 28ª unidade federativa, identificada pela sigla ZZ, já supera o eleitorado de estados como Roraima, Amapá e Acre. A mobilização em redes sociais e a articulação de núcleos partidários em diversas cidades globais refletem a importância crescente desses votos para o resultado das eleições.

Crescimento Exponencial e a “28ª Unidade Federativa”

O número de brasileiros registrados para votar no exterior atingiu a marca de 918,9 mil, um aumento de quase 360% em 16 anos. Somente desde 2022, o crescimento foi de 31,8%, contrastando com a alta de apenas 1,4% no total do eleitorado nacional. Este fenômeno é um espelho da crescente diáspora brasileira, que, segundo o Itamaraty, alcançou um recorde de 5,3 milhões de pessoas fora do país no ano passado, em comparação com 4,6 milhões há quatro anos.

A tecnologia desempenhou um papel crucial nesse avanço. A partir da pandemia de COVID-19, o processo de transferência de título eleitoral para o exterior foi simplificado, permitindo que fosse feito de forma remota, sem a necessidade de deslocamento a um consulado. Além disso, o aplicativo e-Título facilitou a regularização da situação eleitoral e o pagamento de eventuais multas junto à Justiça Eleitoral, removendo barreiras burocráticas que antes desestimulavam a participação.

Os Estados Unidos lideram a lista de países com maior número de eleitores brasileiros, somando 265,4 mil. Em seguida vêm Portugal, com 134,8 mil, e Japão, com 88,4 mil. Ao todo, será possível votar em 186 cidades de 134 países, demonstrando a capilaridade da presença brasileira pelo mundo.

Desafios do Voto Transnacional e a Queda da Abstenção

Apesar da facilidade tecnológica para o registro, o ato de votar no exterior ainda exige um esforço considerável. Em muitos casos, o eleitor precisa se deslocar por longas distâncias até uma embaixada ou posto consular. Na Itália, por exemplo, o voto só é possível em Roma e Milão; na França, em Paris e Marselha. O voto, vale ressaltar, é igualmente obrigatório para quem reside fora do país.

Teresa Schneider Marques, professora de ciência política da PUC-RS e pesquisadora da Uerj, explica que esses custos de tempo, energia e dinheiro são os principais fatores para a abstenção, que historicamente é mais alta fora do Brasil. Contudo, essa tendência tem mudado. No segundo turno de 2022, a abstenção no exterior foi de 55,4%, uma queda de quatro pontos percentuais em relação a 2018 (59,7%). Com o aumento no número de eleitores inscritos, isso se traduziu em cerca de 100 mil votos válidos a mais em quatro anos.

A pesquisa de Schneider Marques sobre a participação do eleitorado brasileiro na França em 2022 revelou um motivador peculiar: o “sentimento de urgência”. “Muitas pessoas foram votar porque tinham a sensação de que aquela eleição poderia mudar o rumo do país para uma democracia ou para uma ditadura”, afirmou à Folha. Esse eleitor-imigrante, segundo a especialista, percebe as eleições como um processo global, onde as relações entre o país de residência e o Brasil afetam diretamente sua vida e sua percepção social e profissional. Para mais informações sobre o contexto da diáspora brasileira, consulte o Portal Consular do Itamaraty.

Estratégias de Mobilização Partidária no Exterior

Os principais partidos brasileiros têm desenvolvido estratégias distintas para alcançar o eleitorado no exterior. O Partido dos Trabalhadores (PT) mantém uma Secretaria de Relações Internacionais, atualmente chefiada pelo senador Humberto Costa, que coordena 26 núcleos espalhados pelo mundo. Gabriela Lima, responsável pelo núcleo de Bolonha, na Itália, com cerca de 50 inscritos, destaca o trabalho de sensibilização da população brasileira sobre as pautas do partido. Ela atua como delegada de fiscalização em Milão e recebe material de campanha digital, embora sem recursos de apoio financeiro.

Do lado do Partido Liberal (PL), a mobilização se beneficia da forte presença em redes sociais e da afinidade com comunidades conservadoras. O ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, que reside nos EUA, foi nomeado em 2024 secretário de Relações Internacionais do partido. A Liga Conservadora Brasil-Alemanha, por exemplo, com 105 mil seguidores no Instagram, apoia o senador Flávio Bolsonaro (PL). Samia Sittel-Faraj, criadora da conta em Bonn, Alemanha, afirma que a iniciativa é voluntária, focada na produção e divulgação de conteúdo e na mobilização para o processo eleitoral, sem vínculos partidários ou recebimento de recursos, mas com contato direto com representantes do PL para divulgar a plataforma de cadastramento de fiscais eleitorais no exterior.

Impacto e Perspectivas para o Eleitorado Brasileiro no Exterior

A crescente participação do eleitorado brasileiro no exterior não é apenas um dado estatístico; ela representa uma força política em amadurecimento. A capacidade de mobilização, aliada ao “sentimento de urgência” que impulsiona muitos a votar, sugere que esses quase um milhão de votos podem ter um peso significativo, especialmente em disputas acirradas. A forma como os partidos continuarem a dialogar com essa diáspora, superando as barreiras geográficas e logísticas, será determinante para o futuro das campanhas eleitorais.

Este cenário sublinha a importância de compreender as motivações e os desafios dos brasileiros que vivem fora do país, cujas escolhas eleitorais são influenciadas não apenas pela realidade interna do Brasil, mas também pela sua experiência em um contexto globalizado. A atenção dedicada a esse grupo por lulistas e bolsonaristas é um indicativo claro de que o voto transnacional deixou de ser uma nota de rodapé para se tornar um capítulo relevante na política nacional.

Para se manter atualizado sobre os desdobramentos das eleições e outras notícias relevantes do Brasil e do mundo, continue acompanhando o M1 Metrópole. Nosso compromisso é trazer informação de qualidade, contextualizada e aprofundada, cobrindo os mais diversos temas para você ficar sempre bem informado.

Leia mais

PUBLICIDADE