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Aos 106 anos, eleitora de São Paulo celebra democracia e se prepara para votar

Aos 106 anos, eleitora de São Paulo celebra democracia e se prepara para votar
1 de 4 Carmelina Alves vota em São Paulo — Foto: Reprodução/TV Globo

Em um cenário onde a participação cívica é constantemente debatida, a história de Carmelina Alves Nogueira, de 106 anos, surge como um poderoso testemunho de engajamento e longevidade. Moradora do Jaguaré, na Zona Oeste de São Paulo, Carmelina não apenas faz questão de exercer seu direito ao voto, mas o faz com uma vivacidade que desafia o tempo. Nascida antes mesmo da criação da Justiça Eleitoral brasileira, em 1932, ela se prepara para mais uma eleição, simbolizando a resiliência da democracia e a força do eleitorado centenário no país.

A trajetória de Carmelina reflete a de um grupo crescente de cidadãos que, apesar da idade avançada, mantêm-se ativos na vida política. Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) revelam que o Brasil conta com quase 300 mil eleitores com 100 anos ou mais, um segmento que, embora corresponda a uma pequena parcela do eleitorado total (0,19%), carrega consigo uma riqueza de experiências e perspectivas.

Uma vida dedicada ao voto e às transformações do Brasil

Carmelina Alves Nogueira presenciou e participou de inúmeras transformações políticas e sociais ao longo de mais de um século. Ela viu o Brasil passar por diferentes regimes, a instauração e a evolução do sistema eleitoral, e a sucessão de gerações de votantes. Para ela, o ato de votar transcende a mera formalidade.

Com uma clareza inspiradora, Carmelina expressa sua motivação: “Eu gosto [de votar] porque quero que meu candidato ganhe”. Sua visão sobre os ocupantes de cargos públicos é igualmente direta e serve como um conselho atemporal para todos os eleitores. Ela espera que um candidato seja “uma pessoa honesta e faça tudo o possível de governar direito. Escolham bem seus candidatos”, aconselha, reiterando a importância da responsabilidade cívica.

O legado familiar e a vitalidade de Carmelina

A vida de Carmelina é marcada não apenas pela participação política, mas também por uma rica história familiar. Casada aos 16 anos, ela dedicou grande parte de sua existência à família. Sua mudança para a capital paulista, por volta dos 30 anos, ocorreu quando o marido recebeu uma proposta de trabalho na antiga Estrada de Ferro Sorocabana, deixando para trás a região do interior paulista, próximo a Tatuí.

Mãe de 11 filhos, dos quais quatro ainda estão vivos, Carmelina é o pilar de uma família que já alcança cinco gerações. Sua vitalidade é notável; a mobilidade da eleitora permanece preservada, e a bengala, que muitos familiares sugerem para apoio, é por ela preferida para “passear”, demonstrando seu espírito independente e ativo.

A longevidade de Carmelina é anualmente celebrada com festas de aniversário, que ela faz questão de comemorar. Após cada celebração, um ritual se tornou sua marca registrada entre os parentes: a despedida com um otimista “até o ano que vem”, conforme relatado pela neta Eliane Nokata à TV Globo. Além disso, a paixão pelo futebol também a acompanha, sendo uma fervorosa corintiana, tendo inclusive usado a camisa do time em sua festa de 103 anos com tema futebolístico.

O eleitorado centenário: um fenômeno em crescimento

A presença de eleitores como Carmelina Alves Nogueira destaca um fenômeno demográfico importante no Brasil. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aponta que, do total de 158.745.463 eleitores aptos a votar, 22.203.912 estão no grupo para o qual o voto é facultativo, incluindo os centenários. A escolha desses cidadãos em participar ativamente do processo eleitoral sublinha a relevância da democracia em todas as fases da vida.

A distribuição desses eleitores centenários pelo país mostra concentrações significativas. O estado do Rio de Janeiro lidera com 105.262 pessoas, representando 35% desse público. São Paulo, estado de Carmelina, aparece em segundo lugar com 79.874 eleitores centenários, seguido pelo Rio Grande do Sul, com 21.022. Esses números refletem não apenas a longevidade da população, mas também a persistência do engajamento cívico em diferentes regiões.

A ciência da longevidade e a capacidade cognitiva

A longevidade de Carmelina e de tantos outros centenários é objeto de estudo e fascínio para a ciência. A professora titular de genética do Centro do Genoma da USP, Mayana Zatz, explica que o Brasil já foi lar das três pessoas mais longevas do mundo, incluindo a freira Inah, que faleceu com quase 117 anos, e um homem que hoje tem 114 anos e é considerado o mais velho do mundo.

O grupo de pesquisa do Centro do Genoma está ativamente investigando centenários, tendo coletado amostras de 240 pessoas, das quais 20 são chamadas de supercentenários (com mais de 110 anos). A principal observação é que muitos desses indivíduos mantêm uma notável lucidez e capacidade cognitiva mesmo após os 100 anos. Para aprofundar a compreensão sobre o funcionamento cerebral desses idosos, os pesquisadores estão derivando neurônios a partir de amostras de sangue.

A pesquisa sugere que, além de “genes de resistência”, o exercício físico desempenha um papel crucial na manutenção da atividade cerebral, aumentando a neurogênese, ou seja, a formação de novos neurônios. Exemplos como centenários campeões de natação reforçam essa tese. O projeto ainda está recrutando participantes e convida famílias de centenários a entrar em contato pelo e-mail DNAlongevo@usp.br para contribuir com essa importante investigação científica.

A história de Carmelina Alves Nogueira é um lembrete inspirador de que a idade não é um impedimento para a participação ativa na sociedade e na construção do futuro. Sua dedicação ao voto, sua vitalidade e o contexto científico que a cerca nos convidam a refletir sobre a importância de cada voz na democracia e sobre os segredos da longevidade. Para mais notícias aprofundadas e contextualizadas sobre política, sociedade e ciência, continue acompanhando o M1 Metrópole, seu portal de informação relevante e de qualidade.

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