Há cerca de um mês, a Zona Leste de São Paulo foi palco de uma tragédia que chocou a capital paulista: o desabamento de um prédio em construção no bairro da Penha, que resultou na morte de seis pessoas. Desde então, as investigações avançam, mas o casal apontado como responsável pela obra, Cristiano Salgado Vivaqua e Isis de Freitas Rodrigues Brandão, permanece foragido da Justiça, intensificando a busca das autoridades e a angústia das famílias das vítimas e de clientes lesados.
O caso, que inicialmente focou na fatalidade do desabamento, revelou uma complexa rede de irregularidades e acusações de estelionato, envolvendo as construtoras New Home e Hastiforme. Enquanto o pai de Cristiano, Ronaldo dos Santos Vivaqua, segue detido, a ausência do casal principal dificulta o avanço completo das apurações e a reparação dos danos causados.
As Investigações e a Fuga dos Responsáveis
A Polícia Civil de São Paulo concentra esforços em duas frentes investigativas cruciais. A primeira busca esclarecer as circunstâncias exatas do desabamento que ceifou seis vidas, com os responsáveis sendo indiciados por homicídio com dolo eventual. A segunda apura uma série de golpes contra clientes que investiram suas economias em imóveis das construtoras New Home e Hastiforme, mas nunca receberam as chaves.
Cristiano Salgado Vivaqua é apontado como o engenheiro responsável técnico pela execução da obra que ruiu, enquanto sua esposa, Isis de Freitas Rodrigues Brandão, figura como representante legal da Construtora New Home, encarregada da venda dos imóveis e da condução dos projetos. Ambos são procurados desde o dia da tragédia. Embora o advogado do casal tenha prometido a entrega às autoridades, essa promessa ainda não foi cumprida, mantendo-os na condição de foragidos.
Paralelamente, Ronaldo dos Santos Vivaqua, pai de Cristiano e suposto sócio oculto de uma das empresas, foi detido no dia seguinte ao acidente e teve sua prisão renovada pela Justiça paulista na última quinta-feira, permanecendo sob custódia.
O Cenário da Tragédia na Penha
O desabamento ocorreu na Rua Tequici, na Vila Granada, região da Penha. A força da queda destruiu completamente uma residência vizinha, onde oito pessoas estavam no momento do acidente. Seis delas perderam a vida, incluindo Ana Lucia Ruiz Romero, de 38 anos, cujo corpo foi transladado para o Paraguai. A Prefeitura de São Paulo já removeu grande parte dos escombros, mas o local ainda carrega as marcas da devastação.
Além dos empresários, a servidora municipal Viviane Rodrigues de Palma, que em 2024 autorizou a continuidade das obras no edifício, também está sob investigação e foi afastada do cargo por 120 dias pela prefeitura. Sua conduta é um dos pontos que a polícia busca esclarecer para entender as falhas no processo de fiscalização e aprovação.
Esquema de Golpes Milionários Revelado
A investigação do desabamento trouxe à tona um esquema de estelionato que, segundo a polícia, já vitimava dezenas de pessoas na Zona Leste de São Paulo. As construtoras New Home e Hastiforme acumulam diversos boletins de ocorrência por não entregarem imóveis prometidos desde 2023, nem devolverem o dinheiro pago pelos compradores.
Um grupo de cerca de 20 clientes estima um prejuízo superior a R$ 4 milhões. Muitos relatam que as obras eram iniciadas sem os devidos alvarás de construção, resultando em embargos e na paralisação dos empreendimentos. Um exemplo é o comerciante Alexandre Viveiros, que perdeu mais de R$ 380 mil após vender seu apartamento para investir em um sobrado na Avenida Padres Olivetanos, na Penha, que nunca foi entregue. A obra foi embargada judicialmente em 3 de abril de 2025, após uma escola infantil vizinha relatar rachaduras e riscos à segurança das crianças, conforme laudo particular e decisões da Prefeitura de São Paulo.
Recentemente, em uma quarta-feira, a Subprefeitura da Penha realizou uma nova vistoria na obra da Avenida Padres Olivetanos, reiterando a interdição devido ao risco iminente de acidentes e ameaçando com auxílio policial e inquérito caso a determinação não seja atendida. A escola infantil vizinha também será interditada. Viveiros e outros clientes, como o médico Erick Cosme, que perdeu cerca de R$ 200 mil, relatam a dificuldade em reaver os valores investidos, com tentativas de contato bloqueadas e a descoberta de que as empresas operavam sob diferentes nomes, como Pedra Viva.
Vítimas e a Rede de Empresas Investigadas
Os três principais alvos das investigações por homicídio com dolo eventual são Ronaldo dos Santos Vivaqua, sócio oculto da Construtora New Home Incorporadora; Cristiano Salgado Vivaqua, engenheiro responsável pela obra e proprietário da Hastiforme Projetos e Construção; e Isis de Freitas Rodrigues Brandão, arquiteta idealizadora do projeto e proprietária da New Home Incorporadora. Apenas Ronaldo está preso, enquanto Cristiano e Isis permanecem foragidos.
A arquiteta Caroline Brito, que também comprou um imóvel da New Home em 2022 e perdeu R$ 240 mil, expressa a esperança de que a prisão dos responsáveis ajude a solucionar os processos judiciais. Ela e outros clientes descobriram que as casas que haviam comprado estavam sendo oferecidas a outras pessoas mesmo após as denúncias.
Dos oito endereços na Zona Leste relacionados às construtoras, cinco constam na lista de empreendimentos embargados pela gestão municipal após o acidente: Rua Jaborandi, 68; Avenida Padres Olivetanos, 455; Rua Colatina, 577; Rua Guaiaúna, 369; e Rua Padre João, 685. Outras três obras, nas ruas General Dias, 274; Amaro Bezerra Cavalcanti, 435; e Ubajara, 120, ainda não tiveram seus alvarás suspensos, mantendo a incerteza para os compradores.
O caso do desabamento na Penha e a subsequente revelação dos golpes evidenciam a necessidade de maior fiscalização no setor da construção civil e a importância de que as autoridades deem uma resposta rápida e efetiva para as vítimas. Continue acompanhando o M1 Metrópole para as últimas atualizações sobre este e outros temas relevantes, com informação de qualidade e contextualizada para você.