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Dermatite atópica eleva risco de depressão e ansiedade em pacientes

Dermatite atópica eleva risco de depressão e ansiedade em pacientes
Carlos Macedo - 10.out.26/Folhapress

A dermatite atópica vai muito além de uma condição dermatológica visível. Uma revisão de literatura publicada no Journal of Clinical Medicine revelou que uma em cada cinco pessoas que convivem com a doença apresenta quadro de depressão, uma proporção duas vezes maior quando comparada à população geral. O levantamento também aponta um risco elevado para o desenvolvimento de transtornos de ansiedade entre esses pacientes.

Trata-se de uma enfermidade inflamatória crônica, de origem genética e não contagiosa, que provoca ressecamento severo, sensibilidade cutânea, lesões avermelhadas e prurido intenso. No Brasil, dados citados em protocolo do Ministério da Saúde indicam uma prevalência de 2,3% da condição na população, gerando impactos profundos que afetam tanto a rotina física quanto o equilíbrio emocional de adultos e crianças.

impacto emocional e o peso do preconceito

O sofrimento psicológico associado à condição costuma ser agravado por episódios de desinformação e estigma social. Uma pesquisa realizada pelo Datafolha a pedido da farmacêutica AbbVie apontou que 30% dos entrevistados acreditavam na época que a doença era contagiosa, enquanto 47% a relacionavam incorretamente à falta de higiene. Além disso, 36% defenderam que pessoas com lesões visíveis deveriam se isolar da sociedade, evitando frequentar escolas ou locais de trabalho.

Especialistas destacam que a coceira incessante compromete drasticamente a qualidade do sono e o desempenho nas atividades diárias. Quando as marcas se tornam aparentes, a vida social e a autoestima sofrem erosão significativa. Casos como o do menino Pietro Medeiros, diagnosticado com um quadro grave em Porto Alegre, ilustram como o isolamento e o bullying escolar surgem em decorrência da falta de esclarecimento público sobre a natureza da enfermidade.

a sobrecarga invisível sobre os familiares

A convivência com a dermatite atópica também impõe desgaste severo aos cuidadores e familiares mais próximos. Estudos indicam que quase um terço dos pais de crianças acometidas desenvolve quadros depressivos durante a jornada de tratamento, muitas vezes alimentados pela exaustão e pela incompreensão de pessoas do convívio social que chegam a julgar erroneamente a conduta parental.

A psicóloga Tarcila Cicchini, com ampla experiência no atendimento a pacientes dermatológicos no Hospital das Clínicas da FMUSP, aponta que a enfermidade não deve assumir o controle central da dinâmica familiar. A psicoterapia surge como ferramenta fundamental para ajudar pacientes e cuidadores a resgatarem a confiança, lidarem com a vergonha e enfrentarem o preconceito cotidiano.

desafios no acesso ao tratamento e o estigma do fator emocional

Pacientes frequentemente enfrentam barreiras adicionais no sistema de saúde e na própria condução médica. O relato de profissionais que atribuem os surtos inflamatórios exclusivamente a fatores emocionais é comum, embora dermatologistas esclareçam que o estresse pode intensificar a coceira, mas não atua como causa isolada da doença. Essa inversão de responsabilidade costuma gerar culpa e frustração em quem já convive com o desconforto físico.

A busca por suporte psicológico esbarra muitas vezes em limitações financeiras e na lentidão da rede pública. Enquanto pesquisadores continuam investigando se os próprios processos inflamatórios sistêmicos da doença influenciam diretamente os transtornos mentais, especialistas reforçam a importância de integrar o cuidado dermatológico e o acompanhamento psiquiátrico para evitar o abandono das terapias.

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