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Cientista política americana aponta falha de estudiosos em prever a crise democrática global

Cientista política americana aponta falha de estudiosos em prever a crise democrática global
Divulgação

A cientista política americana Sheri Berman, uma das vozes mais respeitadas globalmente no estudo da democracia, está finalizando um novo livro que promete aprofundar a análise sobre a atual crise democrática. A obra, com lançamento previsto para o próximo ano, investiga os fatores que transformaram o otimismo em relação ao sistema democrático, predominante na virada do século 21, em um cenário de instabilidade que hoje ameaça até mesmo nações consideradas historicamente sólidas.

Em um artigo recente publicado na prestigiada revista acadêmica Journal of Democracy, Berman argumenta que a crise atual não deveria ter surpreendido a comunidade acadêmica. Segundo a professora da faculdade Barnard, associada à universidade Columbia (EUA), havia sinais evidentes de insatisfação acumulada diante dos novos desafios sociais e econômicos que as democracias ocidentais enfrentavam.

A cegueira acadêmica diante dos sinais de alerta

Sheri Berman, de 60 anos, critica a falta de percepção de seus pares sobre a vulnerabilidade das democracias. Ela compara a situação à contratação de um encanador: “Quando você contrata um encanador, ele deve ir até sua casa, diagnosticar o que está acontecendo e consertar o problema. Se os políticos não conseguem fazer essas coisas, não é nenhuma surpresa que as pessoas fiquem irritadas”, afirmou em entrevista por videoconferência. Essa analogia sublinha a expectativa de que as instituições democráticas resolvam os problemas da população, e a frustração quando isso não ocorre.

A cientista política destaca que países como os Estados Unidos e nações da Europa Ocidental eram categorizados como democracias estáveis, onde a evolução era esperada, mas não o retrocesso. Contudo, tendências crescentes de insatisfação com as instituições democráticas, que minavam o apoio popular, foram subestimadas. Muitos estudiosos, incluindo Berman, reconheceram o aumento da insatisfação, mas não previram que, apesar dela, as instituições seriam tão suscetíveis a abalos.

Insatisfação e o terreno fértil para o autoritarismo

A pesquisa de Berman aponta para uma correlação histórica e comparativa: quando uma parcela significativa da população está profundamente insatisfeita e acredita que as instituições democráticas não operam em seu benefício, ela se torna mais receptiva a líderes que hoje são rotulados como populistas, pseudoautoritários, radicais ou extremistas. Essa insatisfação crescente cria um terreno fértil para discursos que prometem soluções rápidas e simplistas, muitas vezes à custa dos princípios democráticos.

A crise democrática, portanto, não é um fenômeno isolado, mas o resultado de um acúmulo de frustrações e da percepção de que os sistemas existentes não conseguem mais atender às demandas sociais e econômicas. A falta de capacidade dos políticos em “consertar o problema” gera um descontentamento que pode ser explorado por figuras que desafiam o status quo democrático.

O caminho para uma nova onda de democracia

Para que uma nova onda de democratização possa emergir, Sheri Berman defende que é fundamental uma dupla percepção por parte da população. Primeiro, as pessoas precisam reconhecer que líderes autoritários populistas, citando exemplos como Donald Trump e Jair Bolsonaro, falham em cumprir suas promessas. A retórica forte e as soluções mágicas frequentemente se chocam com a realidade da governança, resultando em desilusão.

Em segundo lugar, e igualmente crucial, a oposição a esses líderes deve ser capaz de oferecer alternativas concretas e melhores. Não basta apenas criticar o autoritarismo; é preciso apresentar propostas viáveis e inspirar a crença de que um caminho democrático renovado pode, de fato, trazer benefícios tangíveis para a sociedade. A credibilidade e a capacidade de entrega da oposição são, para Berman, pilares essenciais para reverter a atual tendência de crise e reacender o otimismo na democracia.

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