O Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) instaurou uma sindicância para investigar a conduta do ginecologista Osmar Trojan, de 82 anos, que foi indiciado pelo crime de estupro contra uma paciente. O caso, que tramita sob sigilo, ganhou destaque após a denúncia detalhada de Esther Neves, hoje com 27 anos, que relatou ter sido vítima de abusos durante consultas realizadas entre seus 16 e 24 anos.
A iniciativa do Cremesp marca um passo importante na apuração das graves acusações, que levantam questões cruciais sobre a ética médica, a confiança na relação médico-paciente e a proteção de indivíduos em situação de vulnerabilidade. A investigação busca esclarecer os fatos e determinar as responsabilidades profissionais do médico.
A Investigação do Cremesp: Etapas e Implicações Éticas
A sindicância aberta pelo Cremesp representa a fase preliminar de averiguação. Durante este período, o conselho se dedica à coleta de provas, à manifestação escrita dos envolvidos e, se necessário, à realização de audiências. O objetivo é reunir elementos suficientes para decidir sobre a instauração de um processo ético-disciplinar.
Caso sejam identificados indícios de infração ética, o processo disciplinar será formalmente aberto. Nesta etapa, tanto a denunciante quanto o denunciado terão o direito de apresentar suas provas e se manifestar, contando com o acompanhamento de advogados. O sigilo do caso é mantido para preservar a privacidade e a integridade de todas as partes envolvidas.
O Relato da Paciente: Anos de Abuso e a Ruptura da Confiança
Esther Neves, que hoje é advogada, conheceu Osmar Trojan aos 16 anos, em 2014. O ginecologista era uma figura próxima de sua família, tendo inclusive realizado seu parto e atendido sua mãe. Essa relação de longa data, marcada por uma aparente amizade e pela ausência de cobrança nas consultas, criou um ambiente de confiança que, segundo Esther, a impedia de questionar as situações que hoje ela identifica como abusivas.
As consultas, realizadas em um consultório particular no Brooklin, Zona Sul de São Paulo, duravam cerca de duas horas e, de acordo com a jovem, incluíam exames sem luvas, a exibição de vídeos pornográficos e a realização de fotografias íntimas. Em um dos episódios mais chocantes, Esther relata que o médico chegou a sugar seus seios sob a justificativa de verificar secreções. A jovem se sentia na obrigação de ceder aos pedidos do médico, que, segundo ela, justificava os procedimentos como parte de exames clínicos ou campanhas de saúde.
A denúncia de Esther levou à instauração de um inquérito policial no 1° Distrito Policial de Itapecerica da Serra, a pedido do Ministério Público. A Secretaria da Segurança Pública confirmou que Osmar Trojan foi formalmente indiciado pela prática do crime de estupro, conforme previsto no artigo 213 do Código Penal. As investigações policiais seguem em andamento para o completo esclarecimento dos fatos.
A Versão da Defesa: Negação das Acusações e o Andamento Legal
O advogado de Osmar Trojan, Alessandro Fischer Martins Silveira, negou veementemente as acusações, afirmando que confia na demonstração da inocência de seu cliente no curso da instrução processual. A defesa ressalta que o inquérito tramita sob sigilo e que, até o momento, a denúncia não foi recebida pela Justiça, enfatizando a presunção de inocência do médico enquanto o procedimento está na fase de investigação.
No interrogatório policial, Osmar Trojan negou ter praticado qualquer ato de conotação sexual durante os atendimentos. Ele afirmou que os exames eram realizados na presença da mãe da paciente ou de uma auxiliar. O médico confirmou ter feito um exame retal em Esther, mas alegou que foi uma única vez, com luvas, por suspeita de endometriose. Ele também negou exibir vídeos pornográficos, explicando que ocasionalmente mostrava vídeos do YouTube sobre autoexame das mamas ou uso de bolas de pompoarismo.
Sobre as fotografias, Osmar confirmou ter feito uma sessão com Esther para uma campanha de combate ao câncer de mama, com a autorização da jovem e de sua mãe. Ele negou, contudo, ter mostrado fotos de pacientes nuas ou manter esse tipo de arquivo.
As Cicatrizes Invisíveis: O Impacto na Saúde Mental da Vítima
O impacto das situações vividas nas consultas foi devastador para a saúde mental de Esther. Ela relata ter sofrido com crises de ansiedade diárias, choro constante e tremores, chegando a ser medicada para epilepsia em um momento de desespero. Em 2024, a jovem precisou ser internada após uma crise de ansiedade, e faz acompanhamento psiquiátrico há anos, utilizando medicamentos para estabilizar o humor e o sono.
Um atestado médico obtido pelo g1 corrobora o quadro de “ansiedade aguda com sintomas somáticos”, descrevendo disforia, cansaço, fadiga, dificuldade de concentração, labilidade emocional e alterações no sono e no apetite, com “importante impacto funcional” nas atividades cotidianas. Foi através da terapia que Esther conseguiu, anos depois, compreender que as situações vivenciadas não faziam parte de um atendimento médico normal, iniciando um doloroso, mas necessário, processo de reconhecimento do abuso e busca por justiça.
Reflexões sobre a Relação Médico-Paciente e a Ética Profissional
O caso de Osmar Trojan, que foi colega de turma de Roger Abdelmassih – ex-médico condenado por estupros de pacientes –, reacende o debate sobre a vulnerabilidade dos pacientes e a responsabilidade ética dos profissionais de saúde. A relação de confiança é a base da medicina, e sua quebra, especialmente em contextos de abuso sexual, tem consequências profundas para as vítimas e para a percepção pública da profissão.
A investigação do Cremesp e o inquérito policial são fundamentais não apenas para a busca de justiça no caso específico de Esther Neves, mas também para reforçar a importância da fiscalização e da punição de condutas antiéticas e criminosas na área da saúde. A sociedade espera que os órgãos competentes atuem com rigor para garantir a segurança e a integridade dos pacientes.
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